• Matheus P. Oliveira

Apocalypse Now - Jornada ao desconhecido


Fonte: Imagem Critical Commons

Quando Orson Welles ainda pisava nesta terra, pôs-se a disposição de adaptar o livro "Coração das Trevas" para o cinema, mas não conseguiu. Passou-se décadas até surgir Francis Ford Coppola, que com excelentes filmes em seu curriculo, resolveu fazer Apocalypse Now, um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos.

"Meu filme não é sobre o Vietnã. Ele é o Vietnã. É como realmente é... e o realizamos de um jeito muito parecido com os americanos que estavam na guerra. Estávamos na selva, tínhamos acesso a dinheiro demais, a equipamentos demais e, pouco a pouco, perdemos a razão". Estas foram as palavras de Francis Ford Coppola na coletiva de impressa em Cannes, em 1979, sobre o inacabado Apocalypse Now.

No filme, acompanhamos o Capitão Willard (Martin Sheen) que recebe a missão de encontrar e matar o comandante das Forças Especiais, Coronel Kurtz (Marlon Brando), que aparentemente enlouqueceu e se refugiou nas selvas do Camboja, onde comanda uma legião que o trata como um deus.

Enquanto Francis trabalhava em outro projeto, seus amigos George Lucas e Steven Spielberg encorajaram John Milius a escrever um filme sobre a Guerra do Vietnã, baseado no já citado Coração das Trevas, de Joseph Conrad. A ideia era que Lucas dirigisse o filme, mas para evitar complicações, decidiu engavetar o projeto e, posteriormente, Coppola decidiu dirigi-lo.

Logo de cara somos apresentados ao ambiente surrealista de Apocalypse Now. Uma floresta sendo bombardeada por Napalm e um ventilador girando que se mistura com o som das hélices de um helicóptero. Estas sequências fazem parte das lembranças de como é o Vietnã e todas elas pertencem à mente do Capitão Willard, que por seu tédio e abandono, torce para ser enviado em uma nova missão. É visível sua agonia por ainda estar em Saigon.

Conhecemos o Coronel Kurtz por terceiros - quase não o vemos. Uns contam histórias sobre ele e outros mostram exemplos de sua bravura. É assim que é construído, gradativamente, o personagem que logo se tornará uma espécie de entidade, tanto para nós espectadores quanto para os personagens. Todos têm medo do que Kurtz é capaz de fazer, exceto Willard, que de uma forma peculiar, sente uma forte curiosidade de conhecê-lo e isso percebemos nas suas mais profundas reflexões.

Apocalypse Now se difere dos demais filmes de guerra por se igualar à estrutura clássica da jornada do herói até seu amadurecimento - no caso, a jornada de Willard, que pode ser superficialmente comparado com personagens da Literatura como Leopold Bloom, de Ulisses e Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas. No desenrolar da estória, percebemos que o vilão não é aquele que nos é apresentado de início, mas sim os próprios que dizem matar por bravura. "É preciso eliminar aquele que nos machuca com a verdade dolorida". Em torno dessa frase, entendemos a obsessão pela captura de Kurtz.

Quando chegamos na aldeia (cujo aspecto é tribal) e vemos centenas de homens e mulheres armados, percebemos a atmosfera hostil em que somos introduzidos. Kurtz é literalmente uma entidade naquele lugar e sua presença é sentida, tanto nas pessoas quanto no ambiente.

A brilhante atuação de Dennis Hopper como o fotógrafo serve para dar a última pincelada antes de chegarmos até "Ele". Conhecemos, logo depois, um Kurtz não apenas brutal, mas um Kurtz filósofo e culto, que mudou sua visão sobre o mundo após se isolar. Marlon Brando entrega um personagem calmo e nocivo ao mesmo tempo, que sempre aparece na escuridão, semelhante a um espírito.

Fonte: Imagem Movies and Philosophy Now

Ao passo que notamos seu poder, notamos também seu desespero com relação ao legado que será deixado. A única salvação de se despedir de forma honrosa é encontrada em Willard, um sucessor a altura. Os dois se completam e dentro de ambos há uma natureza peculiar. A morte de Kurtz representa um sacrifício, como parte de um ritual, perfeitamenteconduzido pela música The End, da banda The Doors.

Apesar dos inúmeros problemas que Francis teve com o filme, ele foi honrado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e venceu a categoria de Melhor Fotografia e Melhor Som no Óscar. Junto com a trilogia de O Poderoso Chefão, A Conversação e Apocalypse Now, Francis Ford Coppola construiu um legado que jamais será esquecido pelo Cinema.

DIRETOR: FRANCIS FORD COPPOLA

ROTEIRO: JOHN MILIUS E FRANCIS FORD COPPOLA

ANO: 1979

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