• Leandro A. de Sousa

Black Mirror - Somos reféns do entretenimento


ESSE ARTIGO CONTÉM SPOILERS DOS EPISÓDIOS THE NATIONAL ANTHEM (S01E01), FIFTEEN MILLION OF MERITS (S01E02) E WHITE BEAR (S02E02)

 

Nossos comportamentos, costumes, como nos vestimos, o que comemos, falamos e até mesmo para qual Deus rezamos nos são apresentados quando ainda somos muitos pequenos por nossos pais. Não questionamos, afinal, não temos senso crítico ainda. Chega a adolescência e com ela chegam as ideias, os amigos e as influências.

Crescemos e decidimos o que vamos vestir, comer, falar e se vamos ou não rezar para algum Deus. A rebeldia é um fator que por mais que seja problemático é essencial para a formação do caráter de um indivíduo. Nós aprendemos com erros e o arrependimento nos faz pessoas melhores. Nessa fase também decidimos o que vamos ouvir e assistir, sua mãe não pode mais colocar Xuxa só para baixinhos para você assistir, agora quem decide o que assistir ou não é você, e também, você decide se vai se influenciar ou não.

Black Mirror é uma série interessante, ainda mais quando aborda sobre entretenimento, afinal, tudo hoje em dia é entretenimento. Um entretenimento rápido e prático pois o mundo é rápido e prático. Cada vez menos lemos em papeis; o jornal impresso está com os dias contados; hoje em dia um rápido artigo na internet é o suficiente, se ele vai nos dar informações suficientes sobre tal fato ou não, não importa, o importante é saber o que está acontecendo (Isso ainda piora quando tem pessoas que só leem a manchete).

No primeiro episódio de Black Mirror, The National Anthem, a princesa Susannah (Lydia Wilson) é sequestrada e o seu raptor põe como condição de soltura da princesa que o Primeiro Ministro Michael Callow (Rorow Kinnear) faça sexo com um porco em rede nacional. No começo, só de pensar em algo assim sendo veiculado em rede nacional era repulsivo e uma boa parcela do público desaprovava tal ato, mas com a notícia se espalhando e o prazo acabando, grande parte das pessoas queria pagar para ver e começaram a pressionar para que o ministro cumprisse a exigência, não só o público, mas seu comitê também não via saída a não ser cumprir a exigência. A influência da internet e a sede por entretenimento faz com que o primeiro ministro cumpra tal ato.

No final é interessante observar que não havia ninguém na rua para ajudar a princesa que já estava solta, estavam todos vendo o primeiro ministro transar com um porco, afinal, era algo histórico; um primeiro ministro da Inglaterra praticando Zoofilia. Não importava se aquele ato fosse destruir sua vida pessoal, seu psicológico, sua dignidade etc. O entretenimento de ver uma figura política importante se humilhando somente para um homem provar um ponto era algo imperdível, se o povo se humilha tanto para que possa ter uma boa imagem, uma casa, um bom cargo, era hora de o Primeiro Ministro fazer isso também. Mesmo indignadas com o que estavam vendo as pessoas continuavam assistindo pois seria assunto do momento e não seria aceitável ficar sem comentar tal assunto, pois nossa sede nos obriga a assistir coisas que não queremos somente para que se tenha um sentimento de alívio conosco mesmo, sentir que estamos por dentro das novidades. É importante estar atualizado, se não seríamos como os velhos poderosos, que consideram a internet um terreno inexplorado e maldito, que só atrapalha seus esquemas.

Logo no episódio seguinte, Fifteen Million Merits, diferente do primeiro, vemos a indústria do entretenimento de dentro. Estamos em um mundo distópico, em um local que parece uma prisão, onde para sobreviver é preciso ter créditos onde estes são conseguidos pedalando em uma bicicleta ergométrica, quanto mais se pedala mais crédito se consegue. O que se pode ver no episódio é que quanto mais estão naquele local mais as pessoas ficam condicionadas a um entretenimento fútil e manipulador. Para aumentar esse condicionamento, as pessoas tem promessas de fama, riqueza e principalmente se livrar da bicicleta, caso consigam passar em um concurso de talentos que escolhe se tais pessoas são boas para produzir esse tipo de entretenimento sem sentido.

Bing (Daniel Kaluuya) no meio desse lugar de mentiras e artificialidades conhece Abi (Jessica Brown Findlay) uma linda jovem recém chegada e resolve ajudá-la a participar desse concurso doando a ela 15 Milhões de Créditos. Não que as pessoas ao redor de Bing não fossem reais, elas eram, mas Bing era um dos únicos ali que ainda conseguia ver a realidade enquanto o restante já estava muito imerso naquele mundo de entretenimento falso e insensibilidade, Bing sentiu algo real por Abi e no final, a única coisa real que havia sentido foi tirado dele pelos senhores do entretenimento.

Lutar contra o sistema é fazer parte dele. Quando Bing tenta confrontá-lo de frente, o sistema não manda guardas com cassetetes e bombas de fumaça, ao invés disso ele faz uma proposta tentadora para crescer naquela mentira. Era doloroso demais para Bing continuar vendo o que ele via todos os dias, sua revolta não era por terem tirado uma pessoa especial dele, ela ía além disso, era por causa de todas aquela falsidade. Para ele, era mais vantajoso produzir a mentira do que viver nela. Não é preciso dizer que o nosso mundo é exatamente assim, somos nós que pedalamos para que eles produzam nosso entretenimento.

Pulando alguns episódios, agora na segunda temporada, temos o episódio White Bear, onde o entretenimento agora é usado como forma de punição. Victoria Skillane (Lenora Crichlow) acorda um dia em uma casa, atordoada, sem lembranças concretas, apenas fragmentos sem muito sentido, tanto para ela quanto para nós. A história começa quando um homem mascarado com uma espingarda começa a persegui-la no meio de uma multidão, que não a ajuda e sim filma tudo e ri enquanto assiste. No fim é descoberto que tudo era um show e que Victoria é culpada por ser cúmplice do assassinato de uma garotinha.

Uma punição pior do que a morte e que todos nós estamos submetidos é a culpa. Essa nenhuma pena de morte tira, mas a questão com Victoria é que ela sequer tem esse sentimento durante o show. Depois de condenada, Victoria não perdeu somente sua liberdade, lhe foi tirado sua identidade, suas lembranças e a sua culpa, ela não lembra do que fez e não entende o que está acontecendo, não importa se há arrependimento, ela precisa ser punida e pra isso precisamos tirar todos os direitos dela, tirar quem ela é, sugar sua alma, seu espírito e até mesmo sua culpa. Óbvio que Victoria merece ser punida, afinal cometeu um crime hediondo, mas a questão do episódio é nos mostrar como esse senso de justiça que temos é mentiroso e hipócrita. A regra mais importante de White Bear Justice Park é se divertir, e nos divertimos, gargalhamos, somos uma multidão em um praça pública gritando para que o carrasco corte a cabeça daquele ladrão de galinhas, depois vamos para casa esquecemos e no outro dia voltamos porque nossa sede de sangue é insaciável. Não existe justiça em nós, apenas a sede pelo entretenimento sádico.

Entretenimento faz parte do que somos, ele está a nossa volta a todo momento. Já é algo essencial em nossas vidas, ele molda nosso caráter e opiniões, mas muitas vezes pode ser algo perigoso, tudo o que é muito poderoso pode ser. É preciso ter senso crítico até mesmo para aquilo que nos faz gargalhar e rir por horas a fio na frente da TV, da tela do computador, pela tela do celular e pelas páginas do livro que lemos. Algo assim sempre pode e será usado contra nós, sem ao menos que percebamos. Seja por imagem, por lucro ou por punição.

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