• Matheus P. Oliveira

Crítica: Silêncio (2016)


Fonte: Imagem Desimartini.com

Sendo planejado por mais de 20 anos, Silêncio (ou Silence) foi engavetado por inúmeras complicações, mas finalmente, no ano passado, Martin Scorsese conseguiu lançá-lo. O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo japonês Shusaku Endo.

A narrativa nos apresenta dois padres jesuítas que vão ao Japão em busca de seu mentor, o padre Ferreira (Liam Neeson). Num período em que o Cristianismo é proibido, os dois passarão por inúmeros testes de resistência.

De primeira, Silêncio apresenta um ambiente nebuloso, reforçado com um tom nocivo. Notamos que tudo é fatal e que o perigo está sempre próximo. Tudo é precisamente analisado e a narração em voz over diz o que temos que sentir: comoção aos que sofrem.

Ferreira move toda a estória, pois a notícia de sua provável apostasia (renúncia da fé) intriga os padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver). Com isso, eles decidem viajar para o Japão e enfrentar toda a repressão nele. Por se tratar de um mentor, já se constrói em nossa mente a imagem de um homem forte e sábio, o qual sua fé é inabalável. É aquele que não cede pelas inúmeras pressões. Passamos todo o filme instigados, querendo saber se ele renunciou ou não a fé.

Em meio à repressão no Japão, ainda há cristãos remanescentes que vibram com a chegada de Sebastião e Garupe, intensificando ainda mais a situação dos cidadãos japoneses. Todos almejam qualquer manifestação cristã, pois isso é totalmente proibido, assim fazendo com que o ato seja mais prazeroso. É perceptível a coragem dos padres. É visível também suas dúvidas atormentadoras diante do caos japonês.

O que há de mais inquietante é a fragilidade dos padres no meio daquele ambiente hostil. Parece que a qualquer momento eles serão capturados. A figura robusta dos padres, principalmente a de Sebastião, se esvai quando são submetidos à torturas, tanto físicas como psicológicas. Não há um ponto para se sustentar, pois eles sempre são induzidos a renunciar a fé.

O sofrimento pregado no rosto de Sebastião é arrasador. Ele, frequentemente, sofre uma forma diferente de tortura, pois se apresenta como alguém sem medo da morte. Os demais, porém, pagam por isso, porque para Sebastião, é mais doloroso ver os outros sofrerem. Todo esse mal-estar o leva a uma terrível crise de fé, como se tudo em que ele acredita e se dedicou por toda a vida fosse mentira.

Silêncio é sobre o sofrimento humano. Será que vale a pena levar uma crença tão longe, a ponto de sofrer por ela. Ele levanta questões à respeito de Deus: "Será que Ele nos ouve?", "será que Ele compartilha das nossas angústias ou apenas nos assiste sofrer?", "por que ao invés de nos responder, Ele nos brinda com o silêncio?". O diretor não tem o trabalho de respondê-las e são justamente estas perguntas que moldam o filme, tornando-o talvez a obra mais pessoal de Martin Scorsese. "Introibo ad altare Dei"

NOME ORIGINAL: SILENCE

DIREÇÃO: MARTIN SCORSESE

ROTEIRO: JAY COCKS

ANO: 2016

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