• Leandro A. de Sousa

Sicario - Uma vingança pessoal


Fonte: Imagem Omelete

A guerra contra as drogas é algo perdido, mas isso já é de conhecimento popular. Não importa quantas vezes a polícia invada uma comunidade, mate e morra, sempre vão vir mais e mais. O argumento popular se baseia no consumo por usuários de droga. Para eles, se você parar de fumar ou cheirar o tráfico vai enfraquecer. Isso é sim verdade, mas é onírico, isso nunca vai acontecer, o ser humano é um ser de opinião, enquanto você pensa assim e sabe das consequências que o consumo de drogas causa tanto para o indivíduo quanto para a sociedade, outro não vai enxergar nada disso. Enquanto vivermos em uma sociedade injusta e estressante, haverão mais e mais usuários de drogas.

Por trás de toda essa guerra e matança, que para nós se resume entre policial e bandido, há sempre alguém que precisa que você fume e cheire. Não, não é o Zé Pequeno ou o Baiano, é um homem em um Sítio que todos os dias manda matar alguém para que esse seu império das drogas não decaia, enquanto ele janta a noite com a sua mulher e filhos, existe alguém que ousou desafiá-lo sendo degolado. Até mesmo para o governo, isso trás um certo equilíbrio e até mesmo lucro para ele. É um ciclo vicioso, enquanto existir pessoas querendo dinheiro fácil, o tráfico vai existir.

Sicario tem como pano de fundo a guerra contra as drogas, mas ao longo do filme nós vemos que é muito mais do que isso. Existe um certo ódio por trás de toda aquela guerra e toda aquela mega operação para acabar com os cartéis Mexicanos e assim com o fornecimento de drogas para os EUA. Existe algo pessoal, aquilo não é por justiça ou para que um trabalhador possa dormir mais tranquilo a noite.

A Agente Kate Macer (Emily Blunt) é a ovelha no meio de lobos, logo quando dá de cara com a realidade daquele mundo do tráfico de drogas ela simplesmente fica com o estômago revirado e se vê sendo usada em vários momentos para que os interesses de terceiros se concretizem. Alejandro Gillick (Benicio del Toro) é um homem metódico, frio e que esconde um passado sombrio. Já vimos esse personagem um milhão de vezes, mas o roteiro consegue colocá-lo na estória de forma interessante no começo, dando apenas pistas sobre o seu passado, mas no final ele é exposto e ser torna um personagem limitado.

Tudo não tem nada a ver com a guerra as drogas, é simplesmente algo pessoal, como já dito, alguém precisa chegar até um local para um acerto de contas. Isso não se difere muito da nossa realidade. Todos os dias torcemos para que os policiais subam um morro e matem o máximo de bandidos o possível, mesmo que os policiais sejam tão podres quanto os mesmo. Nos sentimos tão a mercê da criminalidade que vemos todos os traficantes como verdadeiros inimigos. A guerra as drogas não se resume somente a dois lados, existem muitos interesses, é uma serpente com várias cabeças e insistimos em atacar somente uma delas.

Quanto mais nos negamos a enxergar isso, mais pessoas morrem e matam. A brutalidade do filme não é por acaso. Todas as cenas em que vemos pessoas mutiladas e mortas tem a intensão de nos mostrar essa realidade que nós conhecemos mas recusamos a aceitar. Não é interessante para alguns que as pessoas parem de usar drogas. O sangue que o tráfico derrama pavimenta as calçadas de uma favela tanta quanto o que um policial derrama. Nesta como em qualquer outra guerra, sempre vai haver retaliação, geralmente contra a própria população.

Sicario não é um filme sobre o tráfico como o vemos, é sobre uma parte dele que nós nunca quisemos enxergar, até mesmo os policiais corruptos se encontram na base dessa pirâmide, aqueles que só visam o dinheiro são sempre a base. Os que tentam fazer justiça como Kate, ou são mortos ou não tem os recursos necessários pois o próprio governo tenta impedir que tal justiça seja feita pois isso atrapalharia os esquemas deles.

Sim, é uma guerra perdida, mas não por que alguém fuma ou cheira e sim porque alguém quer que outros fumem ou cheirem. No caso de Sicario isso vai além, é totalmente algo pessoal, toda aquela operação, todas aquelas mortes, aquele terror somente para que Alejandro enfiasse uma bala na cabeça de alguém que destruiu sua vida. Ainda sim, o filme pode ser usado como parâmetro da nossa realidade, para entendermos o motivo de uma guerra que beira a insanidade, uma guerra quase sem motivo, onde muita gente ainda vai morrer.

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