• Matheus P. Oliveira

Análise: De Olhos Bem Fechados


Fonte (Imagem): screenmusings.org

Ao planejar A.I.: Inteligência Artificial, Stanley Kubrick notou que precisava de grandes recursos tecnológicos para realizá-lo. O projeto foi entregue nas mãos de Spielberg. Enquanto isso, Kubrick decidiu navegar em um terreno mais pessoal, realizando "De Olhos Bem Fechados", baseado no livro de Arthur Schnitzler (Breve Romance de Sonho).

Nessa estória, acompanhamos a vida matrimonial de William "Bill" Harford (Tom Cruise) e Alice Harford (Nicole Kidman). Bill é um homem aparentemente seguro de si, até que numa noite, sua mulher lhe revela algo que o muda completamente, levando-o quase que inconscientemente para um mundo de reflexões e tentações.

Podemos compreender a natureza dos personagens por seus respectivos nomes - Alice (Alice no País das Maravilhas) e Bill (nota de dólar em inglês, deduzindo que ele pode comprar tudo com o dinheiro). Isso se solidifica na festa, logo quando os dois se separam. Bill se encontra com duas mulheres, que se assemelham mais à sereias, como se o tentassem a cometer um "pecado". Inclusive nesta parte, uma delas faz referência ao "fim do arco-íris". Por um imprevisto, um chamado de ajuda o salva daquelas tentações.

Enquanto dança com um homem húngaro, Alice percebe as mulheres seduzindo o seu marido. Percebemos a fidelidade de Alice, pois mesmo estando em um momento casual como aquele, lembra sempre que está casada. Porém, como de costume, Kubrick gosta de ambiguidade, sempre nos presenteando com respostas e nos jogando, ao mesmo tempo, centenas de perguntas. Não sabemos se naquele momento ela se orgulha de ser casada ou se reafirma aquilo para dar um ar de mediocridade para o fato (sou casada, grande coisa!).

Numa determinada noite, os dois tem uma conversa esclarecedora, definitiva para o curso da narrativa. É importante lembrar que nesta conversa, ambos estão fumando maconha e, por isso, estão alterados. Curiosamente, se Alice tivesse feito a revelação "sóbria", não teria afetado tanto o juízo de Bill, pois não soaria tão verdadeiramente. "Pensei que, se ele me quisesse mesmo por uma noite, eu estaria pronta a abandonar tudo".

Fonte (Imagem): german.fansshare.com

Há um mal-entendido entre os dois. Alice apenas descarrega a indignação por seu marido não ser ciumento, portanto fala sobre a atração que sentiu por um marinheiro numa determinada vez, não querendo dizer que traíra Bill com ele; Bill, ao contrário, entende isso como uma possível traição e transforma isto em insegurança, passando a não confiar mais em sua mulher, levando a fazer o que fez posteriormente.

Bill parte para uma longa jornada fria na madrugada de Nova York. À medida que seus comportamentos mudam, tudo em sua volta torna-se estranho. Começa com Marion (Marie Richardson) revelando ser apaixonada por Bill e capaz de largar seu namorado Carl para ficar com ele. Neste momento, Bill imagina como seria Alice conversando com o marinheiro sobre largá-lo. Sua insegurança aumenta ainda mais, pois é como se fosse Alice falando isso.

Quando Bill e seu amigo pianista Nick Nightingale (Todd Field) se encontram no Sonata Café, a jornada fica ainda mais estranha, pois Nick comenta que toca piano em um lugar onde os olhos devem ficar sempre vendados. Nesse mesmo lugar, como ele diz: "há pessoas mascaradas e mulheres de outro mundo" e pela sua informação, parece se tratar de um templo afrodisíaco, semelhante às que tem nas pinturas mitológicas. Sem a mínima vontade de voltar para casa, Bill implora que Nick o ajude a entrar neste lugar.

Nightingale significa "rouxinol", separando ficaria "night in gale" (noite em ventos), ou seja, a noite de Bill se transformaria em um vendaval. Após falar o local, ele revela que é preciso ter uma senha para obter acesso. O lugar é bastante incomum, pessoas mascaradas (com uma vida dupla, ou seja, cheias de máscaras), mulheres de outro mundo, um ritual, muita orgia e uma música soturna no fundo.

SIGNIFICADO:

O templo infestado de orgia representa um mundo de tentações que Bill deve resistir, pois ele escolheu não voltar para casa. Tudo parece ser muito onírico se formos analisar a jornada de Bill, que de seu quarto junto a sua mulher, foi parar em um ritual contendo a mais pura depravação. Era o que ele queria? Não, mas cada lugar o levava mais longe, o induzindo a "se vingar" do que Alice supostamente tenha feito para ele. No fim dessa jornada, ele recebe uma lição do mestre de vermelho: "Deixe-me avisá-lo, que se continuar bisbilhotando ou se disser uma só palavra a qualquer um sobre o que viu aqui, haverá consequências terríveis para você e para a sua família".

Fonte (Imagem): losdoggies.com

A mesma mulher que ele socorreu no início do filme o salvou do castigo que aqueles mascarados iriam lhe aplicar. Essa mesma mulher também fez com que Bill se livrasse da sedução das "sereias" no início do filme, pois o seu amigo Victor Ziegler (Sidney Pollack) lhe pediu ajuda. É curioso pensar em algo assim, pois forças desconhecidas sempre o salvam. Existe o fato de que por um triz, Bill poderia ter contraído o vírus HIV de uma prostituta, porque ele foi salvo graças ao telefonema de sua mulher.

Há muitas referências sobre o "arco-íris", até mesmo no nome da loja onde Bill compra a fantasia. Lá ele encontra o que é preciso para chegar no "fim do arco-íris", mas o que ele encontra não é um pote de ouro, mas uma "terrível ameaça".

No dia posterior ao ritual, tudo fica muito estranho. Pessoas somem, outras morrem. É desesperador quando vemos Bill revelando o rosto para a maioria presentes naquele ritual, pois nesse mesmo momento, todos sabem de sua identidade, mas ele não sabe a de ninguém. Na rua, a paranóia começa, porque para Bill, qualquer um estava presente no evento da noite passada.

Quando vemos a máscara da festa no travesseiro de Bill, percebemos sua perturbação. Toda a sua vida estava nas mãos daquelas pessoas estranhas. A atmosfera fica soturna, melhorada com a trilha de Ligetti tocando Musica Ricercata nºII.

Há duas coisas que Stanley Kubrick quis demonstrar em De Olhos Bem Fechados: a complexidade de preservar o matrimônio e o poder que a "gente de alta classe" tem de controlar tudo e de silenciar tudo. Esses dois pontos se conectam sempre. Homem de família e casado há muitos anos, Kubrick se interessava na complexidade do casamento, isso consistia em resistir a todo tipo de tentação e a curiosidade com o que tem "lá fora". Todo tipo de fantasia é criado para que se viva o mundo externo, sem que desgaste o mundo interior (o casamento).

Apesar de existir 2001: Uma Odisseia no Espaço, considero "De Olhos Bem Fechados" a obra-prima de Stanley Kubrick por ser seu filme mais maduro, sem contar que é o filme onde há mais elementos "kubrickianos". O filme termina com um anticlímax engraçado até, mas perfeito para uma reconciliação entre um marido e uma esposa: "Vamos transar".

NOME ORIGINAL: EYES WIDE SHUT

DIREÇÃO: STANLEY KUBRICK

ROTEIRO: STANLEY KUBRICK & FREDERIC RAPHAEL

ANO: 1999

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