• Leandro A. de Sousa

Os Sopranos - Onde tudo começou


Fonte: Imagem Death and Taxes

Falar sobre uma série como Os Sopranos não é uma tarefa fácil devido a grandiosidade da própria. Os Sopranos não foi somente uma excelente série, com um excelente roteiro, um excelente elenco e com uma excelente direção, ela mudou muita coisa na TV de um modo geral. Depois que a HBO resolveu arriscar com ela e com outras séries, outras emissoras decidiram que era hora de sair da zona de conforto e fazer algo diferente, algo ousado. Graças a ela muita coisa boa surgiu.

Quando somos colocados no meio de um núcleo familiar problemático como o de Tony Soprano (James Gandolfini), nós entendemos que aquele glamour e valores da Máfia Ítalo-Americana que vimos em filmes como O Poderoso Chefão já não existe mais. A família já não tem mais aquela importância que tinha antigamente; Se para Don Corleone um homem que não dava atenção para a família não era um homem de verdade, para Tony Soprano sua família em casa não era tão interessante assim. Todos esses defeitos de Tony são o que tornam a série interessante.

Somos inseridos na série no momento em que Tony decide começar a fazer terapia. Tudo o que ele faz fora daquele consultório é quase um personagem dele próprio, por diversas vezes vemos sua verdadeiro face em suas consultas, onde ele pode dizer o que pensa e sente. No seu trabalho como líder ele precisa demonstrar somente isso, liderança, ser pulso firme e ser o "Macho Alfa" onde nada nem ninguém pode pôr sua masculinidade a prova, coitado de quem o fizer. A firmeza que Tony mostra no seu meio de trabalho é a primeira causa de todos os seus problemas internos que se intensificam quando ele também tem que cumprir seu papel de pai e marido.

Tony, apesar de tudo, pode ser considerado um homem comum, quando ele volta pra casa e tira seus sapatos ele tem que lidar com problemas que qualquer pai de família lidaria. Filhos na escola, esposa em casa, contas a pagar, faculdade etc. Tudo isso ajuda a estabelecer a visão que temos dele, sempre nos sentimos divididos em decidir se temos simpatia ou raiva. Apesar dele ser um personagem carismático é difícil decidir se o amamos ou o odiamos. Independentemente de ter atitudes bondosas, Tony em sua essência não é um série humano bom, o ambiente no qual ele cresceu e no qual ele convive em sua vida adulta não permite que ele demonstre empatia por outras pessoas, quando se tem negócios, dinheiro e o risco de acordar com o FBI na sua porta, não há espaço para isso.

Ele é um personagem extremamente falho. Na série nada é maquiada para tentar emular um personagem que pode não ser tão mau, Tony é o que ele é, um ser humano falho como qualquer outro, o único elemento que o diferencia de qualquer outra pessoa é o poder e com isso vem toda a sua hostilidade com o ambiente e as pessoas ao seu redor. Desde o momento em que ele está naquela sala de espera no consultório da Dra. Melfi (Lorraine Bacco) até o o momento em que ele se reúne naquela lanchonete com a sua família, Tony sente um peso familiar a série inteira que tem como centro sua mãe, Livia Soprano (Nancy Marchand). Quando esta morre, a sua presença permanece durante toda a série. Ele já é um personagem completo no começo da série, ele não precisa mostrar muito mais, o que se desenvolve ao longo disso tudo é o estigma que sua mãe deixa nele que o acompanha ao longo das seis temporadas. Tanto ele quanto sua irmã Janice (Aida Turturro), que esta por sua vez é ainda mais parecida com a mãe por ter muitos dos traços de personalidade dela como sempre fingir que todos estão contra ela.

Livia é uma vilã de certa forma, não que Tony fosse uma boa pessoa, mas Livia era uma pessoa dissimulada que usava o coitadismo como artifício para ter atenção e para fugir de suas culpas. É mostrado que desde que Tony era criança, Livia já era essa pessoa manipuladora quando lidava com as irmãs de Tony e até mesmo com o pai das crianças. O roteiro da série não permite em nenhum momento que nos esqueçamos dela mesmo após ela ter morrido, ela está lá, nas ações de Tony, em suas paranoias e em seus ataques de pânico.

Os Sopranos nos mostra também uma espécie de decadência da Máfia nos EUA. Mafiosos agora não ligam tanto para suas famílias em casa, temem o FBI e se preocupam tanto em serem ouvidos que precisam ir para consultórios médicos para discutir negócios. Isso não quer dizer que todos os valores foram jogados fora, um dos que mais é mostrado na série e que por vezes é posto a prova é a lealdade. Esta que por muitas vezes vemos que os próprios parceiros de Tony tendem a se desvencilhar e isso serve para causar ainda mais paranoias nele.

A série no geral tem um desenvolvimento extremamente rico, onde nada passa, cada diálogo, cada expressão, cada personagem tem sua importância. O roteiro não tem furos, tudo é muito bem pensado e dirigido para que você não se descuide em nenhum momento, caso aconteça, você deve voltar e rever. A construção de personagens e seu desenrolar é fascinante principalmente quando se trata da família em casa de Tony. Veja bem, "família em casa" se refere a sua esposa e filhos, pois seus companheiros de trabalho também são sua família.

Drama familiar é sem dúvida nenhuma um dos melhores elementos a ser explorado em séries, não é a toa que séries como Mad Men e Breaking Bad são aclamadas por sua qualidade lírica. Por mais que haja por vezes uma certa fantasiosidade por trás delas, nós temos a consciência de aquilo pode sim acontecer, é algo possível. A humanidade desses personagens é o que deixa a estória tão imersiva e faz com que sempre nos identifiquemos com eles.

Os Sopranos é sem dúvida a série mais importante já feita. Uma vez Vince Gilligan (criador de Breaking Bad) disse em uma entrevista que se não fosse por Tony Soprano provavelmente não existiria Walter White. Sinto que é uma série que todo amante de drama televisivo de qualidade deveria assistir para pelo menos entender como chegamos até aqui, como a TV passou de prima pobre do Cinema para uma grande fonte de entretenimento de qualidade. É uma série que deve ser vista com um certo carinho e tranquilidade, não é para ser maratonada. Esse foi o erro que eu cometi ao assistir a série, mas com certeza a verei de novo daqui a alguns anos, com mais cuidado, paciência e uma Lua azul nos olhos.

NOME ORIGINAL: THE SOPRANOS

CRIADOR: DAVID CHASE

ANO DE EXIBIÇÃO: 1999 A 2007

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