• Leandro A. de Sousa

Fargo (1º Temporada) - A insana busca por ser alguém


Fonte (imagem): Blog do tio Celo

Fargo é uma série de 2014, produzida pelo canal FX e é diretamente inspirada no filme de mesmo nome dos Irmãos Coen - estes que são produtores executivos da série. Em sua primeira temporada conhecemos a estória de Lester Nygaard (Martin Freeman). Um homem que pode ser resumido em poucas palavras: Inseguro e medroso. Lester é a figura do homem que não tem controle nenhum de sua vida, ele está a mercê de tudo e todos. Qualquer um pode fazer o que quiser com o velho Lester.

Tudo muda quando Lester cruza caminho com um homem inicialmente conhecido como Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) que depois de uma conversa nada casual faz uma pergunta simples para Lester que poderia ser respondida com "Sim" ou "Não". Lester faz, indiretamente, uma escolha e devido a isso sua vida mudaria por completo para sempre.

Após Lorne executar o "pedido" de Lester, ocorre uma série de eventos que mudam sua vida para pior ou melhor - depende do ponto de vista. Lester tem um desenvolvimento impressionante na série, lembrando muito o de Walter White (Breaking Bad) em diversos momentos. Após se livrar da esposa e de um homem que o atormentava na escola, ele passa por um momento de autoconhecimento. Ele descobre características dele que estavam bloqueadas por sua família ou por pessoas do seu passado. Os momentos de pressão pelos quais ele passa ao longo da temporada, após os eventos trágicos dos primeiros episódios, também moldam o seu caráter e seu novo "eu".

A jornada que Lester trilha chega a ser insana durante os dez episódios. Quanto mais ele se vê preso a alguém, mais ele precisa se livrar daquela pessoa. Tudo muda dentro dele em pouco tempo. Aquela escolha que Lester fez, o tornou na verdade um monstro. No fundo ele ainda é um homem assustado, porém, depois de tomar algumas atitudes adquiriu um certo respeito pelas pessoas ao seu redor e ficou mais seguro de si, achando que pode enfrentar todos aqueles que um dia pisaram nele ou o enganaram; o que antes o humilhou agora seria humilhado, era um questão de vingança pessoal. Claro que no final ele toma uma escolha que pôs tudo a perder e ele volta a ser o coelho na perseguição de raposa e coelho que a vida dele sempre foi.

A humilhação e o desrespeito sempre tornam alguém perigoso, mas é interessante notar que isso foi apenas um dos fatores que tornaram Lester nisso que estamos falando. O desespero por descobrirem a verdade, toda a pressão que ele recebe pela policial Molly Solverson (Allison Tolman) e ao mesmo tempo a certeza que ele não fez isso por parte do Chefe de Polícia Bill (Bob Odenkirk) - afinal o velho Lester não mataria nem uma mosca; As medidas extremas que ele precisa tomar para que não seja pego e um pequeno ferimento nas costas de sua mão que o serve para lembrar do dia que em que tomara aquela "escolha" que mudou não apenas sua vida, mas a si mesmo,

É interessante comentar também a essência que a série conseguiu transmitir do próprio filme dos Coen e de outras obras dos diretores. O personsagem Lorne Malvo por diversas vezes lembra muito Anton Chigurh (Onde os Fracos não têm vez) pelo fato de ser implacável e incansável quando tem algum objetivo; Ele também é imprevisível, é difícil saber se ele vai matar alguém ou se simplesmente vai soltar uma ameaça em forma de uma charada, o cinismo é o seu maior artifício; Também não sabemos nada do seu passado, isso faz com que ele fique ainda mais profundo como personagem, não sabemos de onde ele veio e o motivo dele fazer o que faz. Também temos a atmosfera de todas aqueles crimes que vem acontecendo, toda aquela neve, aquela imensidão branca nos lembra muito o filme.

Fonte (imagem): Bastidores

Fargo é insana em seu universo, tudo aquilo que acontece, todos os eventos que presenciamos parece demais para um ser humano comum aguentar. A série (segundo a própria) é baseada em fatos reais e retrata exatamente o que aconteceu (isso eu duvido um pouco). Quando imaginamos que tanta desumanidade algum dia realmente ocorreu, tantas vidas foram perdidas por absolutamente nada, a série consegue ficar ainda mais imersiva e mais intrigante. Tudo isso ainda é contado com uma boa dose de humor negro. O roteiro nos proporciona por diversas vezes algumas risadas por trás de momentos e diálogos muito bem feitos. A trilha sonora ajuda muito, pois dá uma atmosfera ainda mais tenebrosa à série e ficamos imaginando como tanta carnificina pode ter acontecido em uma cidadezinha no meio do nada. A fotografia do primeiro ano de Fargo é belíssima, com planos abertos vistos de cima. Temos toda aquela imensidão branca na tela com somente um pontinho preto (alguém ou algo) - é de arrancar suspiros e encher os olhos. Há todo o simbolismo que nos deixa imaginando durante horas o seus significado, mostrando as coincidências da vida e suas consequências.

É uma série sobre o frio, não climático, mas sobre o frio humano. Ela merece sua atenção, todos os elogios e todos os prêmios.

Leia Aqui um texto sobre a segunda Temporada de Fargo.

CRIADOR: NOAH HAWLEY

ANO: 2014 - ATUALMENTE

#Fargo