• Leandro A. de Sousa

Precisamos Falar Sobre o Kevin - Uma difícil desromantização


Fonte (imagem): Amigos do Fórum

Acredito que ninguém nunca está pronto para ser pai ou mãe. Deve ser uma das tarefas mais árduas que existe, tudo o que você acreditava ser certo se torna errado diante daquele ser humano ao qual você está disposto a dar sua vida pela a dele. Quando não queremos carregar esse fardo, mas mesmo assim a vida vem e nos obriga a fazê-lo, a coisa se torna ainda pior. Tudo o que almejávamos se desfaz em pó, pois não teremos mais tempo para saídas, baladas, viagens e até mesmo para os nossos sonhos. Ter um filho é a representação da maturidade para aqueles que se recusam a crescer, se você ainda não percebeu que não tem mais idade para tudo isso sozinho, então alguém precisa ensinar a você.

Precisamos Falar Sobre o Kevin fala sobre a maternidade de forma franca e consegue desromantizar tudo aquilo que vemos em comerciais de TV sobre fraudas de bebê. Eva (Tilda Swinton) era uma mulher livre e cheia de sonhos. Todos eles se foram quando veio o pequeno Kevin. Durante a gravidez, Eva já sentia aquele fardo, ela sabia que teria que deixar tudo para trás, mas diferente do que deveria acontecer, ela não consegue aceitar e passa a desprezar Kevin, este ainda estando em sua barriga.

A estória é narrada de forma não linear e tudo o que aconteceu entre o nascimento de Kevin e seu "último ato" são apenas lembranças de Eva. É muito interessante observar os elementos visuais do filme, principalmente a forte presença do vermelho em quase todas as cenas. Uma das primeiras cenas do filme mostra Eva se divertindo no festival do tomate e encharcada de vermelho; em seguida vemos a casa dela suja de tinta vermelha e posteriormente é mostrado ela tentando limpar com muita dificuldade. O simbolismo do filme também nos diz muito sobre seus personagens e os seus destinos.

Fonte(imagem): Matei o Tédio

O que se vê quando Kevin nasce, é que todo aquele desprezo que Eva sentia por ele ainda em sua gestação, ele converteu em uma sede de vingança. Durante o filme inteiro fica claro que ela só faz o que faz por obrigação e por que se acostumou aquilo. A liberdade que ela possuía lhe fora tomada e agora ela precisava desempenhar o papel de mãe, quer quisesse ou não. Ao mesmo tempo, Kevin está sempre ali, tentando acabar com todas as suas tentativas de ser uma boa mãe, sempre manipulando, chantageando e mentindo. Já vemos aqui que ele não é uma criança comum, afinal, qual criança mente e manipula dessa forma?

Voltando para o presente, temos Kevin preso em um reformatório e Eva aparentemente com sua vida destruída e desprezada por todos a sua volta. É curioso pensar no motivo de Eva estar passando por isso, contando com o fato de que quem cometeu todas aquelas atrocidades foi Kevin e não ela; será que é apenas por que ela gerou um demônio? Ou por que ela tentou justificar os atos de Kevin? Na verdade, acredito que todo o desprezo que ela recebe dos outros, dentro da narrativa, é puramente simbólico, faz parte dessa vingança pessoal. A casa suja de vermelho e ela, com dificuldade, tentando limpar, é o sangue de todas as vítimas que o desprezo dela por seu filho ainda não nascido causou.

As tentativas de Kevin de chamar a atenção somente para estressar sua mãe; a negligência do pai dele, sempre achando que a mulher está exagerando, pois ele é só uma criança. Apenas ela vê um monstro dentro de seu filho, prestes a sair a qualquer momento. A psicopatia de Kevin só é demonstrado por ele para a sua mãe, para deixá-la mais desesperada.

Kevin se vinga de Eva lhe devolvendo sua liberdade, sob um preço alto demais. Ele destrói a vida dela de uma só vez. E apesar de tudo isso, Eva ainda via um filho em Kevin. Aquele monstro que tirou dela tudo o que ela amava e acabou com tudo o que ela construiu, havia saído dela, apesar de tudo. Já não havia mais espaço para desprezo ou sentimentos de vingança. Kevin não se arrependeu do que fez, nem Eva de ter gerado ele.

É um filme pesado em sua essência, abordando a maternidade sempre de um ponto de vista frio. O fato de Eva não se sentir preparada para ser mãe por medo de perder a sua liberdade fala da sua dificuldade em aceitar a maturidade vindo. Quando Kevin nasce ela não tem mais escolha e tem que deixar isso para trás e se acostumar, mas nunca esquece, ela ainda deseja essa liberdade. No final, o próprio Kevin devolve a ela, a liberdade física, pois seu espirito será atormentado pelo resto da vida com a culpa.

Fonte(imagem): Mundo da Psicologia

NOME ORIGINAL: WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN

DIREÇÃO: LYNNE RAMSAY

ROTEIRO: LYNNE RAMSAY & RORY KINNEAR

ANO: 2011

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