• Matheus P. Oliveira

Irreversível (2002) - O tempo destrói tudo


Fonte (Imagem): Dmg

Direção & Roteiro: Gaspar Noé

Elenco: Vincent Cassel, Monica Bellucci e Albert Dupontel

Ano: 2002

Nome Original: Irréversible

Nota (⭐⭐⭐⭐⭐)

"O tempo destrói tudo". É com base nesta frase que Irreversível é construído - e de forma bastante engenhosa, diga-se de passagem. Os artifícios técnicos (rotações de câmera e os ruídos incômodos) nele usados, os diálogos premonitórios do diretor, realçados pela narrativa inversa (lembra Amnésia, do Christopher Nolan) o torna único e esteticamente peculiar. Ele é impactante e difícil de ser digerido. Foi há 15 anos atrás, no Festival de Cannes, que a sessão de Irreversível ficou praticamente vazia e nesse evento Gaspar Noé foi firmado com um artista polêmico e controverso.

A estória gira em torno da busca de Marcus (Vincent Cassel), junto ao seu amigo Pierre (Albert Dupontel), para localizar "Le Tenia" (Stéphane Drouot), o responsável por ter estuprado a sua namorada Alex (Monica Bellucci). O filme tem, claramente, duas partes - apesar dele ser todo fragmentado; a primeira trata da busca de Marcus por vingar o estupro de Alex; a segunda mostra como ele descobre o nome do estuprador até o momento em que o encontra. Irreversível contém duas sequências impactantes - a do estupro (já citado) e a do extintor - e um trecho extremamente triste envolvendo Marcus e Alex.

Um único dia da vida de Marcus, Pierre e Alex é apresentado no filme. Nele, suas vidas mudam de forma drástica. Por um pequeno ato, quase como um difusor do caos, suas vidas são destruídas. Graças aos diálogos engenhosos e reflexivos de Noé, conhecemos toda a vida deles sem precisar de muitos outros elementos, e, assim os conhecemos intimante, acabando por não querer que nada de ruim os aconteça - mas não é assim que funciona. Irreversível é a autêntica reprodução da vida nua e crua - essa que conhecemos.

Além do que foi citado no parágrafo anterior, Irreversível nos joga numa atmosfera caótica e suja e nela estão contidos personagens loucos, câmeras bêbadas, sons perturbadores, luzes piscando para todo os lados e as mais diversas imagens repugnantes que nos faz ter uma ideia de como é o Inferno. Marcus, como um dos personagens de mais profundidade na trama, possui o desejo de suprir a vingança, à procura de quem violentou sua namorada. Ele passa pelos confins do inferno e vaga pelos locais mais sujos da cidade, deparando-se com todo o tipo de escória que se possa imaginar, apenas em nome da vingança, esta que não consertará nada.

No filme, a vingança é tratada como um direito de cada indivíduo e cada um deve arcar com os determinados efeitos dela. O filme também trata o tempo como um agente na vida das pessoas, pois todos estão expostos a ele e constantemente em perigo. Por trás do ódio dos personagens está a mais profunda tristeza e frustração por ter de lidar com acontecimentos trágicos. É lamentável ver que a paz dos personagens é abalada pelas atrocidades da violência - umas das últimas sequências do filme (que seria o início se tivesse numa ordem linear correta) mostra isso.

Gaspar Noé dispõe da violência explícita não por puro sadismo, mas para representar a selvageria que é a vida. É preciso interpretá-la e jogá-la no contexto fílmico. Pensar que todo dia alguém é espancado ou molestado chega a ser assustador. As ruas durante a madrugada nos intimida e nos convida a esbarrar com o perigo. Nas mais remotas reflexões que temos, é inevitável não ter medo do futuro. A vida é uma dinamite de pavio curto e nós somos o fósforo que a acende, porém desconhecemos quem irá acendê-la e quando será acesa. Pode ser daqui a um minuto, pode ser daqui a duas semanas ou daqui a vinte anos, nunca se sabe. Tudo isso é imprevisível.

Cores antagônicas nos auxiliam a compreender toda a alegoria que o filme traz. São predominantes as cores verde e vermelha; verde simboliza a tranquilidade e o bem; vermelha simboliza o perigo e o mal. O próprio túnel em que Alex é violentada é COMPLETAMENTE vermelho. "Sonhei que estava num túnel vermelho e ele se partia em dois"; este é o trecho da descrição do sonho de Alex. O que ele significa? A vida dela marcada como "antes do estupro" e "depois do estupro" (perdoem a rispidez). Isso lhe trará uma marca profunda em sua vida, tornando-se um trauma e a transformando numa pessoa com graves sequelas psicológicas, graças a um ato maldito que virou sua vida do avesso. A pergunta que fica é a seguinte: como seguir a vida depois de uma acontecimento desse?

Durante o filme, Alex diz que está lendo um livro e nele há a seguinte frase: "parece que o futuro já está escrito, está tudo lá e a prova são os sonhos premonitórios". Como podem notar, isso já diz tudo, pois a estrutura inversa do filme mostra as consequências antes dos momentos que as antecedem e com isso, nos deixa com a noção de que o futuro, de fato, já está estabelecido. Podemos também, tratar isso como uma metalinguagem, porque uma vez que Noé escreveu o roteiro, nada nem ninguém poderá mudá-lo e é assim que funciona a ordem natural das coisas.

Quando assisti Irreversível senti desconforto, mas não o achei repugnante nem desagradável. Seu estilo de abordagem muito me impactou, mas apesar de todos esses detalhes, não pude deixar de enxergar o quão brilhante e genuíno ele é (qualquer um de nós pode vivenciar as situações contidas no longa). O filme traz consigo diversos valores e filosofias que podem ser abrangidos em debate. Ele é o tipo de filme que te faz pensar no quanto a vida é cruel. Vivemos constantemente à mercê da violência. Somos reféns do tempo. O que quer que aconteça temos que suportar, pois a vida nos esmaga de todas as formas possíveis e esquece que somos apenas de carne e osso. Tudo acontece ao mesmo tempo e de uma hora para outra a nossa vida pode tomar um curso totalmente diferente.

É horrível quando terminamos de assisti-lo e voltamos a pensar na tragédia de Alex. Aquilo é tão real que nos deixa espantado. Em um momento ela está feliz com o namorado e em outro ela está violentada dentro de um túnel sujo e deserto. Os gritos dela, a tentativa de socorro, tudo isso é difícil de digerir. O mal, após isto, consome todos. A vingança consome Marcus por inteiro e descemos com ele até o Inferno para acompanhá-lo nessa doentia jornada. Se fosse um diretor comum, omitiria grande parte da sequência de Alex e nos levaria ao hospital com Marcus em volta da maca onde ela se encontra. Bom, não se trata de um diretor comum e sim do Gaspar Noé. O fato dele ter posto nove minutos de humilhação explícita foi com o objetivo de provocar sentimentos de ódio, indignação, tristeza e reflexão. Esse é o trabalho do diretor, transmitir de forma mais clara a mensagem desejada. Em nosso interior, ao testemunhar uma injustiça como a do filme, queremos vingança, por mais que não percebamos claramente. Ela, na maioria das vezes, não resiste ao tempo e o que fica é o arrependimento de ter tido este sentimento.

Presente, passado e futuro fazem parte do tempo. O tempo destrói tudo. Uma pessoa próxima sofreu algo e qual é a solução para isso? Vingança? Pode até ser, mas só por um momento. Nenhum ato de vingança trará de volta o passado, nenhum ato de vingança irá desfazer uma tragédia, nenhum ato de vingança vai cicatrizar as feridas da violência, pois nada disso é eficaz e a mudança é irreversível.

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