• Matheus P. Oliveira

Uma História de Amor Sueca (1970)


Fonte (Imagem): Mvmv

Direção e Roteiro: Roy Andersson

Elenco: Ann-Sofie Kylin, Rolf Sohlman e Anita Lindblom

Ano: 1970

Nome Original: En Kärlekshistoria

Nota (⭐⭐⭐⭐⭐)

Como prodígio, Roy Andersson seguiu o mesmo caminho de titãs do Cinema (são eles: Fellini, Godard e Bergman), estreando o ofício com filmes de narrativas 'pé no chão' e, logo mais, partindo para o Surrealismo (como é a sua Trilogia do Ser Humano). Inclusive, é válido citar que Ingmar Bergman foi seu orientador no curso de Cinema, este é claro, serviu como fonte de inspiração para os seus trabalhos. Desse modo, não é de se impressionar com o que Uma História de Amor Sueca traz em seu significado.

Falo 'significado', pois este é um filme que mostra com lucidez e simplicidade a descoberta do amor e da sexualidade nos caminhos da adolescência (este é o significado). É perceptível as raízes em Bergman nos elementos introspectivos da estória - tudo nela é muito pessoal. Em contrapartida, poucas obras mostraram tão claramente o que é dar de cara com tais sentimentos e estranhá-los assim que aparecem. Em Uma História de Amor Sueca, acompanhamos a paixão mútua crescente nos corações de Pär (Rolf Sohlman) e Annika (Ann-Sofie Kylin) e o estranhamento de ambos com essa novidade. À medida que o tempo passa, por diversas atitudes, os dois começam a aceitar o fato de estarem apaixonados um pelo outro. Evidentemente, falando assim, mais se parece um filme 'bobinho' sobre amor, mas eu não ocuparia estas linhas se se tratasse de um filme 'bobinho'. Aqui, os olhares, os sorrisos e os close-ups valem mais que mil palavras.

Inclusive, um artifício que merece atenção no filme são justamente os close-ups, utilizados com a pura intenção de nos transmitir intimidade, emoção e olhares. Elucido, é claro, a troca de olhares entre Pär e Annika, que representa uma das coisas mais belas que já vi no Cinema (quando Pär olha, Annika disfarça e quando Pär disfarça, Annika olha). Essa troca de olhares acontecem em um lugar onde as famílias dos dois apaixonados estão presentes - por uma mera coincidência. O grau de veracidade nos gestos dos dois (incluo os olhares e sorrisos) - nos remete às nossas próprias experiências, às nossas paixões de infância, de tão natural que soam. Transmite também uma nostalgia fugaz - para ser mais claro, é uma nostalgia misturada com uma melancolia. Esta característica resulta no aspecto vazio e triste da cidade, junto à falta de perspectiva das pessoas que nela habitam. Esta é a Suécia mostrada no filme e temos como contraste o romance de Pär e Annika, que de certo modo 'colorem' o cinzento local onde vivem.

Por ser 'cinzento', assim eu digo metaforicamente, ele se torna um pano de fundo para os personagens - um mero cenário ofuscado por eles. Desse modo, essa característica elucida a solidão de todos, inclusive dos protagonistas. Isso é quebrado entre os dois, porque enquanto eles estiverem juntos, nada ao fundo existe, apenas a paixão mútua que é tão colorida quanto um arco-íris. Aliás, um detalhe bastante alegórico é a cor. No início, Pär e Annika usam roupas pretas (refiro-me à jaquetas e calças)... mas o que significa? Os dois ainda não se conhecem, estão fisicamente (por fora) separados, mas ambos sentem aquele palpitar no coração quando se veem. No entanto, é dedutível que, em nome do amor eles estão juntos (por dentro). Mais para frente, vemos a mudança nas colorações - cores primárias surgem (o azul e o amarelo, por exemplo). Antes estavam coloridos por dentro, mas ao mudar tudo, coloriram-se por fora também.

Paralelamente ao romance dos dois, a família de Annika vive algumas crises, às vezes difíceis de compreender, mas de qualquer forma, encaixam-se no contexto da menina desejar mais do que nunca a presença de Pär (como uma válvula de escape, mas não unicamente em função disso). Esta informação me leva à menção de uma bela sequência do filme - um tanto 'fofa': ao ver seus pais abalados com uma discussão, Annika vai para o quarto e acaricia o seu irmãozinho; pensativa ela está; sai do quarto, encosta-se na geladeira e devaneia (deduz-se que quer ver o seu 'amor', pois de cara reconhecemos seu olhar vazio, almejante pela presença dele); depois resolve ir na rua; Annika encosta-se em um corrimão de uma ponte e avista Pär de longe se aproximando com a sua moto; de primeira, parece que ele passará direto, ignorando-a, mas ele dá meia volta e segue ao encontro de sua amada; lá eles se abraçam com a emoção mais pura e sincera que o amor pode oferecer.

Notei que o filme era o que aparentava ser na seguinte fala de Annika: "Eu queria, não sei porque não fiz. Fiquei lá uma hora por causa dele. Mas quando ele veio, eu não falei com ele". Nesse momento, assim como em muitos outros, eu sorri sem perceber, pois muito de nós passamos por isso. É o trecho definitivo sobre o que a timidez e a incerteza trazem quando embarcamos no complexo mundo do amor, e, a magnífica performance da atriz enaltece isso.

Não só a sequência do apelo de Annika me tocou, mas outras também me tocaram, como a cena das motos na estrada ao anoitecer (é de uma poesia visual imensurável), a jornada de Pär e Annika até o primeiro beijo (ao fundo a perfeita trilha Eko-Låten), o primeiro encontro deles após o beijo (o sorriso de Pär nessa parte), o momento em que Annika chora enquanto espera Pär voltar de moto e a troca de afetos na cabine telefônica. Poucos diretores conseguem construir algo desse porte com tamanha naturalidade e simplicidade. É como muitos dizem, o realizador para ser um bom contador de estórias, ele deve ser um conhecedor da vida, unido com suas experiências e transmiti-las nos filmes. O que há nesse filme é, talvez, a mais próxima experiência de como nos sentimos ao vivenciar aquela primeira paixão, aquela que nos marca profundamente por toda a vida.

O que difere Uma História de Amor Sueca dos demais filmes é o seu ambiente - no sentido geral da palavra. Ele é composto por uma atmosfera que nos fascina, isso pela atuação natural dos atores, talvez seja pelas músicas ou pelo puro lirismo que existe nele. É um filme para ser sentido e interpretado, muito que há nele não é dito e sim mostrado. Tem um ar meio 'Bergmaniano'. Os dois protagonistas pouco falam, apenas expressam seus sentimentos por gestos desajeitados mas cheios de carinho. Alguns desses gestos são sugestivos, junto com omissões que nos induz a interpretá-los. No entanto, é uma pena ser tão pouco conhecido, pois o diretor Andersson construiu aquele que podemos considerar a mais genuína demonstração do que é amar pela primeira vez.