• Leandro A. de Sousa

Black Mirror: Be Right Back - Enquanto estivermos aqui, eles também estarão


Direção: Owen Harris

Roteiro: Charlie Brooker

Elenco: Hayley Atwell, Domhnall Gleeson, Claire Keelan, e Sinead Matthews

Eu não entendia a ideia de morte até meus 5 anos de idade, eu acreditava de verdade que uma hora aqueles que se foram voltariam. Eu não entendia o que era luto e não sabia porquê alguém chorava quando outro morria. Eu não chorei quando lidei com a morte pela primeira vez, não havia motivo para mim, aquele que tinha partido uma hora voltaria e eu o veria de novo. Uma vez eu li que alguém só morre quando é esquecido; quando entendi que não o veria novamente, eu chorei, mas nunca o deixei morrer.

Um dos episódios mais humanos de Black Mirror nos fala sobre Luto. Be Right Back trata da morte e da dor da perda de forma com a qual conseguimos nos identificar mesmo parecendo loucura as decisões que os personagens resolvem tomar. É um episódio cinzento do começo ao fim e talvez até um pouco perturbador, mas quando extraímos sua essência vemos o que ele tem para nos falar.

O episódio, como eu disse, é cinzento com uma atmosfera melancólica. Não tem muitos momentos realmente tristes no episódio, pois ele não tenta, apesar de tudo, passar uma mensagem triste. A narrativa de introdução dá a entender de que o episódio vai tratar apenas dos males da tecnologia, como ela nos distrai do que realmente importa. Mas ele não fica nessa superficialidade e vai além da mesmice, afinal, Black Mirror não é uma série sobre tecnologia.

O nome do episódio mostra seu sentido no momento em que Ash (Domhnall Gleeson) sai de casa para devolver uma van e Martha (Hayley Atwell) o fica esperando enquanto trabalha em casa em um projeto. Aflita, ela o espera voltar durante horas. Ela continuaria esperando para sempre.

Quando Ash morre, Martha fica sem chão ao mesmo tempo que descobre que está grávida dele. Uma amiga dela a inscreve em um programa onde, graças a tecnologia, ela poderia novamente conversar com Ash. No primeiro momento parecia algo doentio e até mesmo desrespeitoso; de fato era, mas ela acaba se rendendo em um momento e mergulha nessa ideia, pois a ideia de ao menos conversar novamente com ele, mesmo sendo falso, era algo tentador demais. Quanto mais fica real, mais ela quer que seja real até chegar ao último estagio, quando chega neste, ela vê que estava errada.

A mera representação física de Ash não era o suficiente e ela vê aos poucos que ele era muito mais do que um corpo. Antes disso, ela só podia ouvir sua voz e isso a confortava, mesmo não sendo real, era algo que a fazia esquecer da dor que ela sentia. Nunca é simples superar a dor de saber que quem amamos nunca mais irá conversar conosco e que não poderemos mais abraçar essa pessoa. Nunca estaremos preparados para enfrentar essa dor.

Vamos além de carne e osso e o episódio mostra como não somos nada sem nossos sentimentos e nossas lembranças. Quando Martha vê que aquela representação robótica de Ash não havia nada dele além de sua aparência ela simplesmente surta. Ao mesmo tempo que a dor da perda e da saudade eram grandes demais, saber que nada o traria de volta, nem mesmo a tecnologia também eram, então, ela resolve que precisava se desfazer desse erro, mas já não era mais possível. Ela teria que carregar o fardo dessa falsa lembrança, que seria aliviado quando uma lembrança verdadeira chegasse. Uma lembrança que o verdadeiro Ash deixara.

Martha já carregava essa lembrança quando Ash se foi e esta ficaria aqui quando ela se fosse. A sua filha carregaria a lembrança de seus pais e choraria por eles quando não os pudesse ver mais, mas não os deixaria morrer. Ela era a única lembrança que Martha haveria de ter, e seria o suficiente, pois ela era a verdadeira representação da essência e humanidade de seu pai, não era uma casca vazia, ela era quem Ash uma vez fora.

Não somos cascas vazias, tudo o que somos está ligado ao que temos enquanto humanos, nossas lembranças e nossos conhecimentos. O som de nossas vozes, o som de nossa gargalhada, a cor de nossas peles, tudo isso algum dia vai desaparecer no tempo pois é assim que precisa ser. Mas sempre permaneceremos dentro daqueles que amamos. Eu sei que pode parecer um pouco clichê tudo isso, mas se um fato é clichê então que assim seja.

Sempre é difícil conceber a ideia de que algum dia quem amamos se vai para sempre. Ninguém nunca vai estar preparado para isso, assim como nunca estaremos para quando a nossa hora chegar. Mas independente disso, vai chegar. O luto é algo pelo o qual todos nós precisaremos passar em algum momento para valorizarmos ainda mais quem está aqui e para nos tornarmos pessoas ainda mais fortes. Nós não sabemos para onde vamos, mas sabemos de onde viemos, e o importante é que lembrem o que fizemos entre esses dois pontos, pois é isso que nos tornará imortais, enquanto eles forem lembrados, estaremos aqui.

Leia Aqui outro texto sobre Black Mirror.

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