• Matheus P. Oliveira

Cisne Negro - O lado obscuro da personalidade


Fonte (Imagem): Letterboxd

Direção: Darren Aronofsky

Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin

Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder

Ano: 2010

Nome Original: Black Swan

Nota (⭐⭐⭐⭐⭐)

É notório o gosto de Darren Aronofsky em trabalhar o psicológico humano e os efeitos da obsessão na vida das pessoas. Tais elementos estão presentes em Pi (1998), Réquiem para um Sonho (2000) e no próprio Cisne Negro. Aronofsky não poupa o público de suas visões catastróficas das ações humanas e de suas terríveis consequências. Embora eu alterne entre 'Réquiem' e 'Cisne Negro' como meus favoritos do diretor, acabo por escolher 'Cisne Negro'.

Eu me fascino por narrativas de cunho metafórico. Ao meu ver são muito engenhosas. Toda a alegoria que o diretor (ou roteirista) tem de desenvolver até chegar num consenso em que metáfora e estória devem se coincidir, é maravilhosa. 'Cisne Negro' explora isso ao máximo. Pode-se dizer que ele, por inteiro, é uma metáfora. Todo o filme é um aquecimento para o ápice da dedicação da protagonista - a perfeição artística. Nele, acompanhamos Nina (Natalie Portman) em sua busca incessante pelo papel na peça O Lago dos Cisnes (o paralelo entre o desenrolar da narrativa do filme e a da peça tem um sincronismo invejável). Com a chegada de uma talentosa bailarina chamada Lily (Mila Kunis), tudo muda, e o modo de obter o papel para a peça se torna doentio e incrivelmente perturbador.

Aliás, 'perturbador' é a palavra definitiva que descreve 'Cisne Negro'. Graças aos processos da mise-en-scène sentimos, algumas vezes, desconforto com a trilha de Clint Mansell, com os movimentos de câmera ou com os olhares dos personagens e com eles próprios - isso no bom sentido. É por completo uma obra de arte.

Clint Mansell já havia trabalhado com Aronofsky em Réquiem para um Sonho (2000) e A Fonte da Vida (2006). Desta vez, voltamos aos tempos da música clássica e ao clima delas, pois Mansell transpõe este clima para o filme. Com isso, a trilha sonora é posta meticulosamente em pontos distintos de comportamentos e nos faz ter as mesmas sensações dos personagens - quem viu sabe do que eu falo. A trilha, ora fica calma ora fica agitada (como a sequência final). Não parece, mas afeta o nosso comportamento durante o filme, e isso é um dos pontos cruciais que o Cinema nos oferece - pontos que 'Cisne Negro' entrega com maestria.

Quanto aos movimentos de câmeras, nem se fala! O modo como Aronofsky opta pela câmera de mão é simplesmente genial (não tem outro adjetivo). Isso nos remete às cenas em que Nina ensaia - de forma árdua - a coreografia. O conjunto de planos-detalhe em seus pés enquanto levantados só reforçam o imenso trabalho que é se aperfeiçoar nas inúmeras coreografias que a peça exigirá; os planos-detalhe no rosto de Nina, elucidando várias de suas expressões faciais, como a de choro; a obsessão por se sair perfeita nos ensaios; prestar muita atenção no que os outros vão pensar dela; tudo isso capturado pela câmera a pouca distância do rosto de Portman. A câmera subjetiva é frequentemente utilizada para captar os olhares misteriosos direcionados à Nina, como o olhar penetrante de Lily (Kunis), o diálogo intimidador do diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel) e o olhar exigente e até psicótico de sua mãe Erica (Barbara Hershey) - refletido em sua característica super protetora. Tudo isso não só para captar os olhares, mas para nos dar a noção de que somos Nina, de que temos neuroses e paranoias, assim como ela.

Os três personagens - Lily, Thomas e Erica - tem coisas em comum: desestabilizam o psicológico de Nina. No ponto de vista dela (que é por onde vemos o filme), os três tem intenções conspiratórias contra sua atuação na peça. Todos nós sabemos que ao ficarmos sob pressão a qualquer coisa que exija esforço físico e psicológico, necessitamos de um controle interior, senão enlouquecemos. Nina parece não ter este 'controle interior', logo, acredita piamente que as pessoas em sua volta querem prejudicá-la.

É quase clichê falar das alegorias que as cores trazem para os filmes - mas aqui é necessário comentá-las. Neste filme há duas cores principais - ou essenciais, dependendo do sentido - que precisam ser listadas: branco e preto (representando o bem e o mal); há as cores de transição: o cinza (mediador entre o 'bem' e o 'mal') e o rosa (estágio inicial de Nina). O 'rosa' representa a fragilidade e a inocência de Nina (o Cisne Branco). Por detalhes no figurino, notamos que as cores vão se modificando gradativamente (uma blusa rosa junto a um casaco 'cinza' de pele), mostrando a transição aos poucos. O cinza, como foi dito, representa o mediador das duas cores essenciais (bem/Cisne Branco e o mal/Cisne Negro). Nina, a cada momento, ultrapassa estágios, ficando cada vez mais próxima do 'preto', e isso é acompanhado de maneira cuidadosa pelo figurino. Não é mensagem subliminar, isso realmente aparece... e diz muito sobre a narrativa.

Logo de cara fica claro que Lily é o Cisne Negro (não só pelo hábito de usar roupas escuras). Ela serve como um impulso para que Nina seja induzida a se metamorfosear no 'preto'. Mas, infelizmente, sua pureza não permite tal ato. Leroy reclama: "Nina, você não se solta". É claramente uma fala ambígua e premonitória. "Revele o seu lado escuro!" - é isso que ele quer dizer. Para se tornar o 'Cisne Negro', Nina é frequentemente induzida por Leroy e Lily a 'se libertar' e a 'viver a vida'.

Fonte (Imagem): Anderson Vision

A parte crucial do filme, o momento em que tudo fica estranho (no bom sentido), é quando Nina fica numa boate junto a Lily. Lá ela conhece homens e fica distante de seus hábitos usuais, distante do seu ambiente doméstico com o estilo 'menina mimada', partindo para um ambiente de total perdição. Num jogo de luzes multicoloridas junto a um mix de músicas eletrônicas, vemos Nina se transformando em outro ser - ainda não tão ciente disso, apesar de tudo. Porém, é no momento em que Lily e ela fazem sexo que tudo muda (mesmo que o ato seja uma metáfora). Nina descobre um novo mundo. Um novo lado. Um novo Cisne. O lado negro surgindo.

Pouco citei sobre as paranoias de Nina sobre ver pessoas idênticas a ela. Isso é importante também, pois é abordado no livro O Duplo, de Dostoiévski - e Cisne Negro bebe dessa fonte. Ele levanta uma questão sobre o medo de todos nós ao pensar na possibilidade da existência de clones nossos, com a capacidade de nos usurpar a qualquer hora e a qualquer instante. Lily é fruto disso para Nina. A questão dos inúmeros espelhos presentes no filme também elucidam isso: o clone, o duplo... o nosso duplo.

Futuramente, nos livros sobre Cinema, espero ver Cisne Negro sendo apresentado como um dos grandes clássicos deste século, assim como Cidadão Kane e O Poderoso Chefão foram no século passado. Um trabalho digno de um profissional cuja carreira é repleta de obras versáteis carregadas de valores particulares merece tal presente. Não vemos um filme, assistimos a um concerto do fade in ao fade out. O desfecho com a frase memorável de Nina deixa qualquer um 'arrepiado': "Eu me senti perfeita, eu fui perfeita". O filme explode num crescendo glorioso que termina em gritos de veneração: "Nina! Nina! Nina!".

#BlackSwan