• Leandro A. de Sousa

O Jovem Papa (1º Temporada) - Um retorno à fé


Criador: Paolo Sorrentino.

Roteiro: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello, Stefano Rulli e Tony Grisoni.

Elenco: Jude Law, Silvio Orlando, Diane Keaton, Cécile De France, Scott Shepherd, Javier Cámara, Ludivine Sagnier, Toni Bertorelli, Marcello Romolo, Vladimir Bibic, Allison Case, Ignazio Oliva, Maurizio Lombardi, Sebastian Roché, Guy Boyd, Franco Pinelli, Carolina Carlsson, Milvia Marigliano, Andre Gregory, Stefano Accorsi e James Cromwell.

Data de Exibição:

29 de Abril de 2017 (Brasil)

21 de Outubro de 2016 (Exterior)

Nome Original: The Young Pope

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Em meu texto sobre Silêncio de Martin Scorsese, eu expliquei um pouco sobre minha orientação religiosa. Para mim, é difícil discutir religião não só por, talvez, uma falta de embasamento, mas também por um certo medo de pensar em voltar a ela. O que vi em O Jovem Papa foi um caminho quase oposto do que fiz em relação a religião. Claro que à fé de um Papa, por crença popular, é algo inabalável, mas a crença de um ser humano, por vezes pode ser posta a prova, mas nem sempre somos fortes perante tais testes, ainda mais quando a dura realidade nos é apresentada ainda na infância. A série começa com um ar pessimista diante de todas as mudanças que o mundo moderno trouxe tanto para a realidade da sociedade quando para a realidade da própria Igreja.

O Jovem Papa poderia ser visto apenas como uma estória sobre a disputa de poder nos bastidores do Vaticano, poderia se dizer que a fé faz parte apenas do pano de fundo de sua narrativa. De fato o Piloto dá a entender isso. Conhecemos o primeiro Papa Americano, Lenny (Jude Law) que adota o nome de Pio XIII - além de ser um dos mais jovens da história com apenas 47 anos. Pio se apresenta como alguém narcisista e arrogante e até mesmo como alguém descrente de seus próprios fundamentos.

A suposta disputa de poder que há entre Lenny e o chefe de estado do Vaticano, Voiello (Silvio Orlando) - onde reside o lado mais político da série - poderia ser muito bem o foco da série, mas o próprio Voiello deixa claro diversas vezes que não almeja tal cargo, apenas quer alguém fácil de ser controlado e por essa razão ele manipula o Conclave para que alguém jovem que supostamente estaria dentro de tais características ganhasse - grave erro, que o mesmo percebe em sua primeira reunião com o novo Pontífice.

Algo que a série faz muito bem é quebrar esteriótipos que temos de membros da igreja e ficamos surpresos ao ver algo como freiras jogando futebol ou a irmã Maria (Diane Keaton) usando uma camisa com uma frase bem humorada brincando com sua própria virgindade. Voiello, aliás, nos chama muito atenção por ser um dos grandes responsáveis dentro da narrativa por quebrar esses tais esteriótipos, e apesar de em seu trabalho ser firme e calculista, vemos sua face mais humana quando ele a todo momento se mostra apaixonado pela própria Irmã Maria e por cuidar de um garoto deficiente em sua casa chamado Girolamo, tratando-o como um filho, ao mesmo tempo que este jovem é um dos seres mais puros da série.

Admito que deu gosto ver Silvio Orlando atuando, tanto quanto Jude Law. Ambos atuaram com uma naturalidade tão grande dentro da proposta da série que eu não duvidaria que Jude Law poderia algum dia vir a ser um novo Papa do tipo arrogante e Silvio o Chefe de Estado do Vaticano apaixonado por futebol. A naturalidade que ambos passaram dentro de seus personagens é no mínimo admirável e espero vê-los em mais papéis como esse.

A série tem um humor bem dosado em sua narrativa, com diálogos realmente engraçados muito relacionados à personalidade cínica e arrogante de seus personagens principais. Além de diálogos que se tornam narração em off quando a cena é cortada para uma câmera em alguma outra parte do Vaticano ou dentro da basílica de São Pedro dando ênfase a grandeza do lugar onde estamos, seus mistérios e sua beleza. Há momentos fortes, como nos primeiros episódios descobrimos que apesar de parecer ser uma pessoa fria e severa, Lenny tem uma certa submissão sentimental por seu Mentor Spencer (James Cromwell) que este passa a ter ressentimento por ele, devido ao fato de Lenny ter sido eleito o Papa em seu lugar. São tantas pessoas desejando esse lugar, e em contrapartida Lenny às vezes parece ser o menos interessado nele.

Além de tudo, para entendermos melhor a personalidade de Pio, é preciso entender seu passado que a série faz questão de mostrar com vários flashbacks ao longo dos 10 episódios e que é feito de uma forma muito sutil entre sua transições. Aliás, a fotografia da série é muito bem posicionada e chega a ser simbólica como em uma cena onde em um plano parece que a estátua no escritório do Pontífice está segurando o Globo no outro extremo - aliás que belo Globo aquele. Ou então quando Voiello está pedindo perdão ao Papa por quase tê-lo traído e, se não bastasse o Papa estar acima de Voiello por estar andando em um barranco, a câmera em um contra-plongée deixa a imagem de Lenny quase divina perante do chefe de Estado.

Há o próprio simbolismo da série, como no Piloto onde ele sai de uma pilha de bebês dentro da Praça de São Marcos, em Veneza, para nos falar sobre os sentimentos de Lenny sempre ligados a sua infância e ao abandono parental que sofrera. Veneza, como vemos logo nessa primeira cena, tem um forte significado dentro da série, é onde começa e onde acaba.

Há uma grande inversão de papéis entre o colégio de Cardeais (homens já na faixa dos 60 para cima) e o Jovem Papa (um homem de apenas 47 anos). Por crença popular, um jovem sempre será mais receptivo às mudanças do mundo moderno e os idosos mais conservadores quanto a isso, porém, em seu primeiro discurso ao colégio de Cardeais, mais uma vez a série quebra paradigmas e enquanto Lenny faz um discurso extremamente conservador com ideias que geralmente seriam atribuídas aos seus colegas mais velhos, estes ficam totalmente espantados com o que estão ouvindo.

A série desconstrói toda a ideia que temos atualmente de um Papa humilde, gentil e receptivo às mudanças do mundo atual e coloca no lugar um figura quase vilanesca, de um forma no mínimo ousada. E se pensarmos que isso é algo ruim, é porque estamos olhando de forma errada para natureza humana - não divina - de Pio XIII. Um homem que já não tem mais esperança nem na humanidade e nem em Deus, por isso tem um caráter severo e punitivo. Aos poucos, com tudo o que passara em sua vida, ele reverte seu poder em uma vingança pessoal contra o mundo e até mesmo contra Deus. Sabemos depois do primeiro episódio, em um sonho, que Pio XIII não concorda com seus decretos, porém, com tudo que passou, ele precisava revidar o que ele achava que fora causado pelo divino, assim, afastando todos os fiéis da Igreja de Deus, se vingando Dele.

Mas se além de ser um retorno à fé em Deus por parte de Pio XIII, também há um retorno à sua fé na humanidade e na bondade do ser humano que esta fora apagada após abrir aquele portão preto, em um dia ensolarado e encontrar uma linda jovem ruiva. E a série nos mostra isso várias vezes para termos esperança desse retorno e no final ele se concretiza, não para Pio, que estava a retornar ao seu lugar, mas para todos os outros que voltavam à fé após o discurso do Jovem Papa.

Para se retornar à fé, é preciso ter coragem.

"Pense em todas as coisas que você gosta. Isto é Deus"

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor. Twitter: _leandro_sa Instagram: leandro.as

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