• Leandro A. de Sousa

Crítica | Corra! (2017)


Direção & Roteiro: Jordan Peele

Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Lil Rel Howery, Betty Gabriel, Marcus Henderson, Keith Stanfield, Stephen Root, Ashley LeConte Campbell, Julie Ann Doan, Geraldine Singer, Trey Burvant, Richard Herd, Lyle Brocato e Rutherford Cravens.

Data de Lançamento:

18 de Maio de 2017 (Brasil)

24 de Fevereiro de 2017 (EUA)

Nome Original: Get Out

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Filmes de terror atualmente estão cada vez mais se distanciando do sobrenatural como monstros e demônios e trazendo em suas narrativas temas atuais e reais. Há filmes como A Bruxa que trata do machismo ou It Follows que nos fala sobre assedio sexual e até mesmo estupro - tudo isso em seu subtexto. É preciso olhar além e vê que esses filmes tem uma função muito maior do que simplesmente nos assustar e nos dar medo. Em Corra!, primeiro filme de Jordan Peele, ele nos fala sobre o racismo de uma forma inteligente. Quando você não passa por nenhum desses preconceitos, talvez o filme se torne incômodo por trazer à tona atitudes preconceituosas que cometemos sem ao menos perceber, ou então ele pode ser chato e maçante se apenas olharmos para a sua casca. O que Corra! tem para nos dizer está escondido, mas basta querer enxergar e entender que a mensagem dele e sua proporção é muito maior do que queremos que seja, assim como o racismo.

O filme em sua introdução tem pistas no roteiro para nos falar sobre o que está prestes a acontecer, o que Chris (Kaluuya) está prestes a passar. Como quando sua namorada Rose (Williams) atropela um cervo no meio da estrada e somente o retrovisor de porta do lado de Chris se quebra e em seguida um policial exige, sem motivo aparente, a carteira de motorista de Chris, sendo que não era ele quem dirigia o carro; na fachada da casa dos pais de Rose há o símbolo "ômega" representando o fim da linha para aqueles que chegavam ali. Não só isso, mas ao invés do diretor optar por um plano mais fechado no momento em que ambos chegam à casa e se cumprimentam na varanda, ele usa um plano aberto para termos uma visão ampla da fachada do local enquanto a câmera vai se afastando mais e mais até vermos o Jardineiro olhando na direção deles.

Aliás, os empregados da casa são outro artifício usado para nós entendermos ainda mais as intenções críticas do diretor. Antes disse, logo no começo, Chris pergunta para Rose se os pais dela sabiam de sua etnia. Assim como em nossa sociedade, o relacionamento interracial dentro da narrativa do filme é visto com um certo estranhamento pelo próprio protagonista. Este que mais tarde veríamos que lida com uma certa indiferença com todas aquelas pessoas de uma cor diferente, sempre o tratando como algo que nunca viram, tratando sua cultura com um certo brilho nos olhos e até o próprio Chris fica espantado quando vê alguém de sua mesma cor naquele lugar.

Logan (Stanfield) tem uma função muito interessante de nos fazer entender melhor sobre o fato de todos os negros ali parecerem estar sob efeito de hipnose - já tínhamos noção disso quando a mãe de Rose hipnotiza Chris supostamente para que ele parasse de fumar. O lugar para onde essa pessoas vão quando estão hipnotizadas é um lugar escuro, como um limbo (ou "esquecimento" como a própria diz) e quando Chris acidentalmente tira uma foto com flash de Logan o mesmo vem para cima de Chris gritando para que ele fosse embora, não fazendo isso de forma hostil e sim como um aviso.

Não bastasse tudo isso para provar o cunho racial da narrativa do filme, ele ainda coloca elementos que lembram a escravidão, como Logan que se veste de forma muito parecida a um escravo das plantações de algodão na época da escravatura americana e além disso, mais tarde, temos um leilão onde quem está a venda não é ninguém menos que Chris. Se chegamos nesse ponto e ainda não percebemos o que o filme quer nos propor é melhor sairmos da sala de cinema e procurarmos outra sessão para vermos o filme desde o começo.

É fato que o desfecho do filme parece se perder um pouco do restante de sua estória e a impressão que temos é que o roteirista estava com pressa de finalizar logo o texto, mas, é de se notar elementos muito interessantes como a cabeça do cervo na parede do quarto no qual Chris está preso e  ao mesmo tempo lembramos que o mesmo, após Rose atropelar um na estrada, foi único a ir ver o animal morto. Mais tarde ele usaria aquela cabeça para conseguir se libertar. E ele vai matando aos poucos, um por um, todos aqueles que em algum momento o fizeram mal. 

O  filme termina com um tom de revolta para Chris e de alívio para o telespectador. O filme pode não dá medo por não possuir monstros, assombrações ou cenas muito fortes, mas ele dá medo quando pensamos e refletimos em algumas atitudes que praticamos que perante o meio social pode ser considerado um racismo camuflado que nós mesmos não notamos. Diferente de Chris, não podemos trata isso com indiferença, assim como em Corra!, no mundo real, o monstro é o próprio ser humano.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor. Twitter: _leandro_sa Instagram: leandro.as  

#GetOut #JordanPeele