• Matheus P. Oliveira

Annie Hall (1977)


Direção e Roteiro

Woody Allen

Elenco

Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Christopher Walken e Carol Kane

Data de Lançamento

20 de Abril de 1977

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Oscar Wilde uma vez escreveu: "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida". Ela, até um ponto é verídica, pois em diversas vezes somos moldados pelas ideias de livros e filmes, que tem em si suas próprias particularidades e semelhanças com a vida real, e é neste ponto onde a frase de Wilde opõe-se ao nosso instinto de transformarmos visões da vida em arte. Para comprovar isso, há momentos em que notamos que um determinado personagem tem as mesmas ambições e frustrações que nós, e com isso, falamos: "nossa, a vida dele se parece muito com a minha!". Woody Allen segue o rumo oposto ao de Wilde, pois para Allen, a arte é que imita a vida.

"Cheia de solidão, infelicidade, sofrimento e desgostos", assim é a visão de Alvy Singer (ou podemos dizer que é também a visão de Woody Allen) sobre a vida, e é claro, atribuída ao fracasso que teve no relacionamento com Annie Hall (Keaton), esta que leva o nome do filme. Por soar tão verdadeiro os sentimentos nesse filme, é quase impossível achar que seja apenas a mera visão de Alvy Synger. E como foi dito no início, transformamos as visões da vida em arte. Woody Allen o faz, e torna Annie Hall uma experiência tocante, engraçada e poética ao mesmo tempo.

Desde o início é deixado claro que o filme é sobre "relacionamentos amorosos", mas o que fica grifado é o relacionamento entre Alvy e Annie, que foi se desgastando ao passar do tempo. E como se desgastou? Alvy tenta responder, fazendo primeiro uma introdução com um monólogo próprio e mostrando como tudo começou.

Graças à estrutura não linear, Annie Hall traz a possibilidade de fazermos comparações no estilo "antes e depois". Em alguns momentos vemos o casal se divertindo (como a cena das lagostas) e em outros, se estressando (como quando Annie quer se mudar para o apartamento de Alvy, mas ele não gosta da ideia). E isso é bom, porque é possível ter a visão "boa" e "ruim" do relacionamento deles e então podemos dizer: "olha, foi ali que eles erraram". Sem contar com as vezes em que Alvy fala conosco, fazendo com que tiremos conclusões junto a ele - e diga-se de passagem, é uma ótima metalinguagem. Alvy nos tem como alguém para desabafar.

No início, logo após o monólogo, Alvy mostra como foi sua infância e como sua personalidade, já complexa e difícil nessa época, seria um problema nos relacionamentos futuros (liberava sua agressividade nos carrinhos, assim como mais tarde, os liberaria no momento do sexo com suas parceiras e sua forte personalidade que viria mais tarde a desgastar um relacionamento, assim como desgastou com Annie). Alvy, ainda no colégio, parecia ser bem mais maduro e inteligente do que seus colegas.

Falando brevemente do diretor Woody Allen - não menos de Alvy -, podemos ver suas características intelectuais postas em quase todos os seus filmes (vemos isso em incansáveis referências). Porém, nos filmes, ele ridiculariza quem finge ser intelectual e cria sequências muito engraçadas com base nisso, parecendo estar sempre cheio de pessoas pedantes (como a cena da fila do cinema onde ele perde a paciência com um cara que fala sobre os filmes de Fellini e sobre as ideias de Marshall McLuhan). A personalidade e os trejeitos de Alvy quase 'analíticos' vão aborrecendo aos poucos Annie, que é bem mais descontraída e mais risonha, digamos assim.

Durante o filme, passamos os olhos por muitos relacionamentos de Alvy, mas não notamos nenhuma química igualmente atingida da dele com Annie (vejam como a cena da lagosta com outra mulher torna-se bem diferente - até nós sentimos falta de Annie). O que parece é que todas as demais são exageradas em alguns aspectos, e Annie é moderada. Alvy gosta muito dela e principalmente do seu senso de humor, por isso sente falta. Uma das cenas mais bonitas, inclusive, é a que Annie chama Alvy para matar as aranhas em seu banheiro, e ali, próximo do banheiro, o carinho do início parece ter voltado - porém vai embora quando surge a oportunidade de ambos irem à Los Angeles, que é quando Annie percebe o quão morto está seu relacionamento com Alvy.

"Uma relação é como um tubarão, deve andar sempre para frente, ou morre, e no nosso caso temos um tubarão morto nas mãos", ou seja, esta é a situação dos dois, não há mais jeito para eles. O que os desgastou? Uma série de atitudes e escolhas que foi os levando à infelicidade, como é o que acontece com muitos casais mundo afora. Às vezes, para continuar um relacionamento, é preciso dar alguns passos para trás e rever o que aconteceu, talvez precisando voltar ao início dele. Woody Allen nos dá a possibilidade de fazer isso, a de sermos um "terapeuta de casal", acabando por nos entregar pistas para desvendarmos o que houve. E como já foi notado muitas vezes, com frases inteligentíssimas e poucas explicações, Woody resume o que é uma vida à dois e como ela funciona. Talvez o maior anseio de Alvy em voltar com Annie esteja na sequência em que ele recria sua conversa com ela em uma peça de teatro, que é onde está a prova verdadeira na qual preenchemos na arte o que não encontramos na vida. É por isso que Annie Hall é profundo!

Alvy diz o seguinte durante o ensaio de sua peça: "Sabem como é querer que as coisas saiam perfeitas na arte, porque a vida é bem difícil". Ou seja, é a arte imitando a vida mais uma vez. Voltar para Annie era o que ele queria, mais do que tudo, e retratou isso em sua peça. E é assim, muitos relacionamentos amorosos nem sempre dão certo, nem sempre haverão segundas chances, pois o amor pode sumir como fumaça. Isso temos em Blue Valentine e 500 Dias com ela.

E por fim, curiosamente os dois se encontram - e isso depois de um tempo. A pergunta que fica é a seguinte: será que o encontro deles resultaria em outro romance? Woody Allen, assim como em Manhattan, entrega essa incerteza para nós, e cabe apenas aos nossos sentimentos mais humanos deduzir se aquilo dará certo outra vez, ou se continuará uma simples amizade, igual quando tudo começou.

Laridá Laridá Lá Lá!

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras as artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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