• Matheus P. Oliveira

E Sua Mãe Também (2001)


Direção

Alfonso Cuarón

Roteiro

Alfonso Cuarón e Carlos Cuarón

Elenco

Gael Garcia Bernal, Diego Luna e Maribel Verdú

Nome Original

Y Tu Mama También

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Eu estava lendo o livro "Tudo Sobre Cinema" quando vi pela primeira vez o nome e a imagem de E Sua Mãe Também. Eu bem lembro, o filme se encontrava no capítulo do Cinema latino-americano, seguido de "Central do Brasil", só que ao meu ver era mais chamativo e mais interessante. Talvez essa primeira impressão tenha sido justamente pela imagem do filme: dois jovens e uma mulher sorridentes pegando uma estrada. Aquilo era angelical demais!

Logo abaixo da imagem havia um texto bem chamativo. Eram três parágrafos que apresentavam o filme - três ótimos parágrafos. Com algumas dezenas de palavras, a minha vontade de assisti-lo só tinha aumentado, pois nessa leitura, eu pude apenas entender seu enredo, porém tornou-se impossível captar a natureza e a mensagem do filme, porque faltava só mais uma coisa: assistir ao filme.

Há um certo mistério em alguns personagens que às vezes não conseguimos entender, mas mesmo assim a interpretação surge dentro de nós como uma revelação. Eu sinto isso em "E Sua Mãe Também", e a razão disso ser complicado na questão da interpretação é porque faz parte das atitudes humanas (de nossas atitudes), sermos complexos, impulsivos e até escapistas. Nota-se nesse filme tais atitudes, realizadas naquele segundo de desespero (vemos seres humanos em tela). Tenoch (Luna), Júlio (Bernal) e Luísa (Verdú) agem por impulsos e usam como combustível por todo o longa um conjunto de desejos, estes que revelam muito da personalidade dos três.

No enredo, os três partem para uma viagem a uma praia cuja existência é duvidosa - a "Boca do Céu", nome que em si já se parece onírico.

O que Lubezki consegue fazer de forma brilhante é nos inserir quase que literalmente no ambiente fílmico. Vemos isso no desespero do conflito armado em Filhos da Esperança (2006), no desespero e na solidão de Hugh Glass em O Regresso (2015) ou na imensidão do Espaço em Gravidade (2013). Aqui, em "E Sua Mãe Também", a ideia é de intimidade - e isso no sentido mais abrangente -, pois o filme abre com Tenoch fazendo sexo com a sua namorada (Ana). E o detalhe curioso da cena é que de primeira ela não me pareceu tão erótica. Em vez disso, ela soava engraçada, porque era visível tanto a falta de experiência dos dois quanto a fidelidade efêmera naquele segundo de puro êxtase.

Não esquecendo de Júlio, também presenciamos uma sequência de sexo dele com sua namorada Cecília. A sequência em si é ainda mais frenética, pois nota-se uma afobação maior por parte de Júlio, e um prazer carnal ainda maior - a inexperiência, é claro, também é notada. Nós sentimos a libido presente em cena. Depois dessas sequências paralelas de sexo, descobrimos que ambas as garotas viajarão juntas, e eis que a rotina de tédio dos rapazes começa, pois sem suas namoradas, o que farão?

Como foi dito no início do texto, vemos seres humanos em tela, vemos e sentimos seus desejos e impulsos, e os compreendemos (porém, há exceção de alguns momentos). Cada segundo do filme é um segundo de imprevisibilidade - isso em relação às atitudes de Tenoch e Júlio. Uma hora falam sobre sexo, outra hora sobre drogas e depois... estão se masturbando na piscina. São atitudes, apesar de tudo, imaturas, e que só podem ser compreendidas se nos colocarmos no estado de tédio deles. Eles não fazem nada e não tem nada para fazer.

Em um determinado momento do filme - em um casamento -, Tenoch e Júlio conhecem Luísa. Os três jogam conversa fora e a convidam para ir a uma praia chamada Boca do Céu (a princípio falam zoando, pois inventaram esse nome lá mesmo). Luísa rejeita o convite porque os acha "imaturos" e "crianças" (Luísa, inclusive, revela que viu Tenoch quando pequeno). Agora deixe-me dizer algo sobre essa cena: é inegável que Tenoch e Júlio sentem uma forte atração sexual por Luísa (pois ela é mais velha, mais experiente e é diferente de tudo o que estão acostumados a ver). Há uma certa sensualidade na cena, ela representa o início do laço entre os três. Luísa, se vermos em seus pensamentos mais profundos, quer viajar com os garotos, só que o que a impede são as "redes", ou a "rede", que é seu marido. Ela tem o espírito jovem e tem uma certa experiência de vida - e uma curta vida pela frente.

Como ficou claro nas linhas anteriores, o que impedia Luísa de viajar com os garotos era o seu marido. No entanto, mais tarde, a traição dele é descoberta, Luísa se entristece, porém segue em frente com o convite dos garotos. Sua reação é imediata, e as reações de Tenoch e Júlio são de surpresa. Luísa decide viver uma vida onde só o presente pede para existir.

Cada vez mais as ações dos personagens em "E Sua Mãe Também" os levam a uma perdição desenfreada, como se fossem ao fundo do poço, mas em vez disso, elas os trazem aprendizados - às vezes o ápice de desejos e de sentimentos que jamais sentiram, como a quase intangível raiva que Júlio sente quando vê Tenoch fazendo sexo com Luísa, e mais tarde a de Tenoch, quando Júlio é quem faz sexo com ela. Nessas duas sequências, inclusive, cria-se uma posição complexa dela, como se Luísa fosse sua mãe e, ao mesmo tempo, sua mentora.

O código da amizade de Tenoch e Júlio é quebrado, e nós sentimos isso.

Luísa durante todo o filme, tem dois sentimentos tristes que se misturam: a traição do marido e seu câncer (este que se mantém escondido por todo o filme). Ela não vê nada em sua vida senão o aproveitamento intenso dela. A descoberta que ela apresenta aos dois garotos, imaturos e desconhecedores da vida, vão os afastando aos poucos, sorrateiramente pelo brilhante roteiro de Alfonso e Carlos Cuarón. É como se a amizade dos dois fossem uma simples etapa da vida, assim como a puberdade é. Luísa é a porta de passagem para uma próxima etapa.

O sentimento materno de Luísa para com os garotos mistura-se com a luxúria, que automaticamente torna-se contraditório.

A chegada da Boca do Céu, que representa a perdição, era o fim de todos os problemas na relação dos três e uma dúvida em relação à amizade de Tenoch e Júlio. Sem tabus, restrições ou preconceitos, a praia era um local de descobertas, e com uma dança entre os três, aparentemente bem casual, trazia em si o prelúdio para o clímax do filme: um ménage à três, mostrando também a experiência homossexual entre Tenoch e Júlio, que antes era algo improvável de se acontecer. É nesta sequência que todas as dúvidas sobre a amizade dos garotos, torna-se uma certeza chegando ofensivamente como uma chuva de canivetes. O afastamento deles seria mais que provável... e tudo muda.

Roger Ebert uma vez disse: "Os filmes são como uma máquina que gera empatia, pois permitem que você entenda um pouco mais sobre diferentes anseios, aspirações, sonhos e medos." "E Sua Mãe Também" faz isso perfeitamente. Toda ação deste filme é meramente um reflexo de um anseio humano, e a experiência ao assisti-lo, torna-se quase metafísica. Ele é, além de uma obra-prima, íntimo e filosófico. É o panorama sensível do desejo insaciável do ser humano de aproveitar o momento e submeter o tempo a um punhado de atitudes com consequências desconhecidas. Cuarón, neste filme, expõe o que tem de profundo na alma humana, e molda, para nós, a perfeita imagem de nossa imperfeição.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras as artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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