• Leandro A. de Sousa

Crítica | Okja (2017)


Direção 

Bong Joon-Ho

Roteiro 

Bong Joon-ho e Jon Ronson

Elenco 

Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Steven Yeun, Lily Collins, Daniel Henshall, Devon Bostick, Hee-Bong Byun, Giancarlo Esposito, Shirley Henderson, Woo-Sik Choi, Jee-Mun Yun, Lynn Marocola, Bettina Skye e Milo Shandel.

Lançamento 

28 de Junho de 2017 (Mundial)

Nota 

⭐⭐⭐⭐

Quando nos sentamos em nossas mesas para saborearmos o nosso alimento, a última coisa que queremos pensar é de onde tal alimento veio. Admito que diversas vezes, involuntariamente, eu pensei, e isso me deixou de estômago embrulhado a ponto de simplesmente não querer mais comer. É uma sensação no mínimo esquisita, afinal, é apenas carne, não importa de onde veio ou se algum ser vivo sofreu para que pudéssemos desfrutar daquele suculento pedaço de bife, o importante é que comamos e acabou. Pode parecer hipocrisia a minha, pois até hoje consumo carne e nunca dispenso um bom churrasco, mas a verdade é que pensar de onde aquilo veio e como foi o processo até chegar no meu prato, me faz ter aquele embrulho no estômago novamente.

Okja nos fala sobre amizade, mas muito além disso, nos mostra os horrores por trás de um dos setores industriais que pode ser chamado de o mais sangrento. E isso fica ainda mais claro quando quem está atrás das câmeras é um diretor competente como Bong Joon-Ho, que assim como em seus projetos anteriores, ele consegue trabalhar com múltiplos gêneros em um mesmo filme, fazendo isso em perfeita harmonia. Okja vai do Drama à Aventura, da Ação ao Terror e tudo isso em uma linha narrativa que apesar de defeituosa, funciona muito bem.

Em Okja, Bong Joon-Ho coloca novamente seu lado crítico como fizera em O Hospedeiro e em O Expresso do Amanhã, ao mesmo tempo que pode-se dizer que conserta os erros de filmes como este último, onde seus efeitos visuais pareciam mais gráficos de PS3. Em Okja, a super porca é extremamente bem feita em seus aspectos gerais, desde sua textura até mesmo a interação dos atores com ela. Nos primeiros minutos do filme, vemos Okja e Mija (Hyun Ahn) em um floresta tendo um dia comum, o filme logo de início nos apresenta de forma belíssima a amizade dessas duas, e além de nos emocionar, nos faz rir, como em momentos onde Mija ajuda Okja a fazer suas necessidades apenas com tapinhas no traseiro.

Ainda no primeiro ato, podemos ver até mesmo referências ao filme do Studio Ghibli, Meu Amigo Totoro, onde há um momento onde Mija dorme em cima da barriga da porca. Além dele nos dar uma noção do quão inteligente ela é, onde com Mija quase caindo de um precipício, a porca resolve arrastar a corda, a qual Mija estava pendurada a ponto de despencar, até um pedaço de madeira caído na beira do penhasco, se jogando, fazendo a si mesma de contrapeso para que a garota se salvasse. Tudo isso nos rende uma das cenas mais belas desse primeiro ato, a qual resolvi usar para ilustrar esse texto.

O conflito é posto no momento em que os 10 anos se passam, e à empresa que criou à porca em laboratório, vem ao encontro de Okja para levá-la de volta à fábrica com a pior das intenções. É onde alguns dos problemas do filme começam a surgir. Lucy (Swinton) é a CEO da empresa. Tilda Swinton leva sua personagem muito bem, pois ela tem espaço para se desenvolver e a atriz tem o que é necessário para conduzir esta em uma linha narrativa lógica. Ainda, temos o avô (Bong Byun) de Mija, um homem que em nenhum momento duvidamos que ama sua neta e quer o melhor para ela, mas que claramente está perturbado, talvez devido à idade, ou talvez devido à morte dos pais da garota, mas é um personagem que desperta nosso interesse mesmo tendo pouco tempo de tela. Em contrapartida, temos Dr. Johnny, interpretado por Jake Gyllenhaal, que é um personagem extremamente caricato. Apesar de ser um bom alívio cômico e Gyllenhaal estar completamente frenético quando o incorpora, ele parece não ter essa tal lógica narrativa como outros personagens, o filme termina e simplesmente não lembramos do que aconteceu com ele, se ele teve duas cenas realmente relevantes é muito, porém, é um personagem que senti que não faria falta alguma, apenas serviu para tirar umas risadas e me dá um certo medo em uma cena onde ele está bêbado dentro do laboratório junto a porca - e ainda sim, essa cena se torna quase um furo quando chegamos ao final. No geral, é um personagem de pouquíssimo peso.

Para reforçar ainda mais a crítica que o filme quer fazer, temos um grupo que tem como objetivo salvar os animais, e uma das coisas mais interessantes é como o roteiro trata tal grupo em nenhum momento o ridicularizando por serem "vegetarianos chatos", pelo contrário. Jay (Dano) o líder do grupo, se mostra claramente o mais maduro e o mais convicto de seus objetivos naquele momento, nos passando uma sensação de segurança, é um personagem completo desde o começo. E temos um momento, que apesar de cômico, reforça ainda mais esse respeito que o roteiro passa por esse grupo, onde um dos membros se recusa a comer qualquer coisa proveniente do sofrimento de outro ser vivo, até mesmo uma tomate, onde ali, o filme apresenta uma crítica aos agrotóxicos.

Todas essas críticas que há em seu subtexto, ficam juntas até formar uma que me surpreendeu. No momento em que em um conflito direto à apresentação de Okja para o público em Nova York, o grupo mostra em um telão os podres de Lucy e revela ao mundo suas verdadeiras intenções em relação ao animal. Nesse momento chega um esquadrão de seguranças e temos a sequência mais violenta do filme, onde não somos poupados de cenas fortes de extrema barbárie por parte destes para com aqueles que tem como única intenção ajudar uma garota a não ter sua melhor amiga morta.

Okja passa a impressão de que tem uma resolução fácil e preguiçosa, mas eu devo dizer que para quem está na cadeira assistindo, não é nada fácil de digerir. Mija, vai até o abatedouro onde Okja e vários outros super-porcos estão prestes a ser abatidos. Joon-Ho nos mostra a cruel realidade destes lugares, tal crueldade que o mesmo fez questão de ir ver com seus próprios olhos antes de filmar o longa e, que segundo o mesmo, o cheiro o perturbou durante dias. Então, se o conflito entre Mija e Nancy (também interpretada por Tilda Swinton) é resolvido de forma fácil ou não, é o que menos importa, pois logo em seguida, temos uma das cenas mais emocionantes desse ano no cinema, onde um casal de super-porcos, vendo do outro lado da cerca elétrica que Okja havia se salvado, levanta os fios a força para libertar seu filhote e Okja imediatamente o põe em sua boca para que os guardas não vissem. O coração aperta e a lágrima cai.

O que eu mais amo não só no Cinema, mas em qualquer outra arte, é o poder que estas tem de mudar nossos comportamentos e nossos conceitos às vezes de forma radical. Seja em relação aos nossos gostos ou nosso costumes, sempre precisamos estar predispostos a ouvir e entender o outro lado da moeda. Eu como um onívoro consumidor de carne, entendo quem não faz o mesmo, e depois de assistir Okja, repenso ainda mais meus conceitos. Esse, é o poder do Cinema. Esse é o poder de Okja.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor. Twitter: _leandro_sa Instagram: leandro.as

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