• Leandro A. de Sousa

Capitão Fantástico é uma lição sobre humanidade


Direção e Roteiro

Matt Ross

Elenco

Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Frank Langella, Ann Dowd, Erin Moriarty, Missi Pyle, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Louis Hobson e Mike Miller.

Data de Lançamento

08 de Dezembro de 2016 (Brasil)

08 de Julho de 2016 (EUA)

Nome Original

Captain Fantastic

Nota

⭐⭐⭐⭐

Outro dia eu estava discutindo com o Matheus (também editor do site) o que realmente à escola representa na sociedade. Chegamos a um consenso de que ela não serve para te educar de um ponto de vista didático. Claro que é essencial que saibamos ler, escrever e fazer contas básicas. Mas pare e pense, você, que assim como eu já terminou o ensino médio, o que de fato você lembra da escola em relação ao ensino didático? Se você gosta muito de uma matéria você provavelmente vai se lembrar bastante coisa sobre ela, mas se você gosta de história, por exemplo, à essa altura você já deve ter esquecido o que é mol e a fórmula de Baskhara já não está mais tão fresca assim em sua mente. A verdade é que a escola tem apenas uma real função: Nos preparar para viver em sociedade - tanto que sempre repetimos para nossos professores "para que isso? eu não vou usar para nada na minha vida". As matérias estão ali só como uma desculpa para te condicionar a se comportar em sociedade, e assim, formar "cidadãos de bem".

Capitão Fantástico conta a estória de Ben (Mortensen) e seus seis filhos que vivem em uma floresta do pacifico norte onde todos os dias o pai os ensina maneiras de sobrevivência, os treina fisicamente e didaticamente, tanto que cada criança sabe falar 6 línguas e são visivelmente dominantes de outras matérias. Entre tudo isso, existe o vazio da mãe das crianças que suicidou-se devido à depressão, e agora Ben está sendo impedido de ir até o funeral da esposa pelo seu sogro (Langella) e avô das crianças.

Apesar de uma narrativa que pode a primeira vista ser comparada a Na Natureza Selvagem, Capitão Fantástico não fala necessariamente sobre um fuga de uma sociedade consumista a fim de entrar em contato com algo real. Na verdade, logo de início vemos claramente que as crianças tem pouco contato com o mundo urbano, logo se eles tivessem que fugir para algum lugar, seria para este. No filme a inocência é explorada ao máximo e vemos cenas como na qual Ben após fazer com que sua filha fizesse uma pequena resenha de Lolita, de Nabokov, onde muito além de dar apenas uma sinopse ou o descrever em uma pequena palavra genérica como "interessante", a qual é proibida, explica para sua outra filha mais nova de forma totalmente aberta o que é estupro, até chegar o momento no qual ele precisa explicar para ela o que é sexo, o que para muitos pais seria um tabu ou seria simplesmente inimaginável explicar a uma criança de apenas 8 anos tais conceitos, no filme isso acaba sendo feito de forma natural e respeitosa por ele.

Cada uma das crianças aliás, partilha de uma personalidade multidimensional, e como eu já disse, a falta de contato delas com o mundo urbano se torna uma das coisas mais interessantes da narrativa pelo fato de que não só, ironicamente, nós nos identificamos com alguns conceitos de nossa sociedade que tentamos não enxergar, como no momento onde eles se fingem de cristãos e cantam uma canção ao redor de um policial que os tinha parado na estrada, pois sabiam que assim conseguiriam facilmente se livrar de uma multa ou de uma possível prisão de seu pai, mas também vemos a futilidade de certos conceitos nossos, como o que eu elucidei no fim do parágrafo anterior.

O que Ben e sua esposa deram aos seus filhos, muito além de uma educação escolar didática, foi uma educação humana, e isso faz com que cada um tenha belos conceitos da vida, e apesar dessa reclusão que todos eles passaram ao longo de suas vidas, é notório que eles sabem mais sobre essa sociedade em certos aspectos do que aqueles que lá vivem, e isso é claro, o filme nos mostra de forma simples, com Ben pedindo para Zaja (Crooks) que recite A Declaração de Direitos e a garota além de citar ainda dá uma opinião sobre ela, onde novamente nos é demonstrada a humanidade na educação de cada uma dessas crianças.

E não que o filme tente dizer que nós que vivemos em um panorama urbano somos menos humanos. Apesar de o roteiro tentar fazer em seu primeiro ato que vejamos o avô das crianças como o vilão da estória por impedir que o desejo final de sua filha fosse atendido (no caso ser cremada e não enterrada), por impedir que eles compareçam no velório e também por tentar tirar a guarda das crianças, no fim nos fica claro que as motivações dele são perfeitamente plausíveis e você consegue entender elas, no final das contas, ele é apenas um avô tentando proteger seus netos, e isso claro, devido a dor de ter perdido sua única filha.

Capitão Fantástico é um filme que em poucas palavras podemos dizer que é encantador, tanto em seu visual, contemplativo em seu primeiro ato, com o uso quase sempre de câmera de mão e os planos mostrando a beleza do local onde se encontram, quanto em sua narrativa a qual já foi bem comentada nos parágrafos anteriores. Apesar de tudo, o filme possui um terceiro ato problemático, onde o roteiro cai em alguns clichês desnecessários e acontecimentos são usados apenas para fazer pontes para um conflito ou outro entre os personagens, além de alguns diálogos sofríveis, como no qual Ben diz que não quer colocar seus filhos em risco novamente, quando sabemos que é exatamente isso que ele vai fazer.

Apesar de tudo isso o filme não perde seu encanto, consegue se recuperar rápido e vemos cenas que ao invés de serem de certa forma incômodas, são novamente o sopro de humanidade que a narrativa de Capitão Fantástico tem como objetivo passar, como as crianças enfeitando o cabelo de sua mãe jazida em um caixão, e a verdade, é que ela parecia estar numa paz que pelo o que o filme nos dá a entender, não encontrara em vida.

E eu como um bom fã de Guns N' Roses (hoje em dia nem tanto), não posso deixar de comentar a cena na qual eles estão cremando o corpo da mãe deles enquanto cantam Sweer Child o' Mine, a qual não só descreve a vida deles, mas descreve o que Ben sente em relação aos seus filhos, pois o fato é que ele mais do que ninguém, quer protegê-los e não suporta os ver sofrendo. Mas ele não os quer proteger dos perigos da vida cotidiana, como assaltos, dívidas ou relacionamentos abusivos, o objetivo de Ben e sua esposa sempre foi protegê-los de um condicionamento ao qual somos impostos desde nossos primeiros anos onde somos obrigados a sentar numa cadeira quietos e só falar quando permitidos. Contudo, já não era mais necessário que elas não frequentassem uma escola como uma criança normal, até porque, ele já havia as ensinado a se defender, não com facas, mas com suas mentes.

Obs: Gostaria de comentar a cena na qual um dos filhos machuca a mão na escalada e Ben diz algo como "Não há cavalaria. Ninguém irá aparecer magicamente para salvá-lo", sendo uma quase referência ao que acontece no final de Senhor dos Anéis: As Duas Torres, onde Gandalf aparece magicamente para salvar Aragorn, interpretado pelo ator Viggo Mortensen.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

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