• Matheus P. Oliveira

Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017)


Direção

Jon Watts

Roteiro

Jonathan M. Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers

Elenco

Tom Holland, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Zendaya, Michael Keaton, Jacob Batalon, Laura Harrier, Donald Glover, Tony Revolori, Bokeem Woodbine

Lançamento

7 de Julho de 2017 (Mundial)

6 de Julho de 2017 (Brasil)

Nome Original

Spider-Man: Homecoming

Nota

⭐⭐⭐⭐

 

Nos filmes atuais da Marvel, há uma coisa que é certa: sua fórmula para fazer filmes é infalível. Uma vez que em 2010, com Homem de Ferro 2, quando as pessoas estavam começando a sentir carisma por Tony Stark (ou pelo próprio Robert Downey Jr.) pelo seu jeito irreverente e sarcástico, os executivos notaram que isso dava muito público. Deste modo, com essa descoberta, a tal fórmula infalível se estendeu ao longo dos anos e foi forjando, aos poucos, um estilo próprio para o famigerado Universo Cinematográfico (UC) - este que hoje é tão conhecido pelo público. E já sabido por todos, anteriormente e paralelamente ao UC tivemos a trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi e outros dois estrelados por Andrew Garfield. Estes últimos tinham algo que faltava na trilogia do Sam Raimi: um Aranha totalmente brincalhão (como o das HQs). Desse modo, somando o fato de o aracnídeo ser brincalhão e a fórmula da Marvel que torna seus personagens carismáticos (e até contadores de piadas), temos a mescla do melhor Homem-Aranha do Cinema até agora.

E, evidentemente, à respeito da minha afirmação acima, eu preciso esclarecê-la para que não seja má interpretada. Com o Aranha do Tobey Maguire, como vimos, foi preciso 3 filmes para desenvolver sua personalidade - o que não é algo negativo. Ao passo em que esse ponto representava uma vantagem, o filme pecava, não tão gravemente, em outra detalhe: o esquecimento daquela essência cartunesca do aracnídeo. Porém, o que faltava em Maguire, tinha em Andrew Garfield, e o que tinha em Maguire, faltava em Garfield - que era o desenvolvimento de origem de seu personagem (pois todos nós já sabíamos da origem do herói, então o filme tratava isso de modo desinteressado). Agora, com o Aranha do Tom Holland, tudo parece funcionar, pois além de possuir as vantagens dos dois anteriores, tem uma história "sintetizada", cortando todo aquele prólogo com relação à sua origem. Eis as razões para a minha afirmação do parágrafo anterior.

Logo de início, já notamos que não se trata exatamente de um filme sobre o Homem-Aranha, mas sim sobre o próprio Peter Parker - mais especificamente sobre seu amadurecimento, pois todo o longa gira em torno desse detalhe. E isso se torna plausível quando notamos que o filme, ao invés de começar com o nome "Jon Watts" na direção, começa com a cômica e inesperada frase "Um filme de Peter Parker". Pode ser um detalhe bobo? Pode, mas é inegável que cause uma boa impressão em nós espectadores (e fãs). E além de surpreender, esse artifício aumenta a sensação de proximidade para com o aracnídeo, e desse modo, nós o sentimos cada vez mais próximo, como se fizéssemos parte do seu cotidiano. Também não é à toa, pois ele é o "amigo da vizinhança".

Antes de assistir ao Homem Aranha: De Volta Ao Lar, eu ficava constantemente com o pé atrás em relação ao Tony Stark (Downey Jr.), porque tudo levava a crer que sua aparição ofuscaria a do Homem-Aranha. Nesse filme ele volta à sua essência irreverente, porém de forma menos ácida na qual vimos em seus dois primeiros filmes solo e em Os Vingadores (2012). Aqui, Stark assume uma posição de "mentor" para Peter Parker - às vezes até assumindo uma posição como pai, o que sinceramente me surpreende. E, aproveitando essa observação, preciso dizer que o filme não mostra apenas o amadurecimento de Parker, mas também uma discreta melhoria na personalidade de Tony Stark - nós o vemos como uma pessoa melhor. Em um lado, vemos o "Homem de Ferro" tomando a posição que o seu pai nunca havia tomado, e no outro, vemos o Homem-Aranha querendo surpreender seu mentor à todo custo, tentando realizar desafios que para ele próprio é difícil de se realizar. Entre esses dois lados, encontra-se o Abutre (Keaton), que é prejudicado pelos dois (de forma indireta e direta, respectivamente) e, consequentemente, torna-se o vilão do filme.

Ao contrário dos vilões dos outros filmes da Marvel, o Abutre é um que merece atenção, pois suas motivações são totalmente plausíveis e se encaixam no círculo do seu arco. Adriam Toomes (Abutre), que já revelara desde o início, uma má índole, não era de se esperar que quisesse travar uma briga com o Homem-Aranha, pois ele se meteu em seu caminho. Ou seja, o Abutre é um vilão com motivações claras, pois elas são simples e fazem sentido. Há, inclusive, o fato de o Tony Stark também ser um inimigo dele, mas ao contrário de Ivan Vanko, o Abutre segue o seu caminho, com seu trabalho, só que de forma clandestina, cuidando do seu próprio nariz. É por essas e outras que De Volta Ao Lar foge do convencional e surpreende (exceto quando se trata do vilão Shocker, pois aquilo chega a ser deprimente).

Voltando ao Abutre, eu preciso comentar sobre a atuação de Michael Keaton e de sua semelhança com os trejeitos do Duende Verde/Norman Osborn. Logo de cara, nos deparamos com diversas detalhes que lembram o vilão de Homem Aranha (2002), são eles: os equipamentos do Abutre, os trejeitos faciais de Keaton que lembram alguns traços psicóticos de Dafoe (como um levantar de sobrancelha ou um sorriso doentio). Inclusive, há um momento, após a reviravolta do filme, em que Adriam diz: "O velho Homem-Aranha". Para mim, mesmo que não muito parecido, foi inegável relembrar do momento em que Norman Osborn, perto da sua morte, diz: "Vai com Deus, Homem-Aranha". Aliás, o diretor Jon Watts, no momento da fala de Adriam, faz claramente referência ao Táxi Driver (1976), de Scorsese. Para quem assistiu ao De Volta Ao Lar, notará que a transição entre a dúvida e a certeza de uma dedução do Abutre, é representada de forma puramente visual por um semáforo - o sinal vermelho, estampado no rosto de Keaton, muda para o sinal verde, indicando a chegada da certeza ("então é isso!").

É interessante também notar o paralelismo exato entre os eventos de Os Vingadores (2012) e de Capitão América: Guerra Civil (2016) representados em De Volta Ao Lar - como o leviatã caído em um prédio sob uma perspectiva diferente e as gravações de Peter da batalha do aeroporto em Guerra Civil, também sob uma perspectiva diferente. É um trabalho de produção bastante notável e competente.

Com relação à vida privada de Peter Parker, nesse filme temos um tom mais realista dela, como o fato de o abandono do colégio lhe prejudicar, mesmo que ele seja um super-herói, pois de uma forma ou de outra esse é um detalhe que ajuda na construção do seu amadurecimento (nos filmes anteriores, esse detalhe era totalmente esquecido). Quanto ao pessoal do seu colégio, em específico Liz Allen (Harrier), é uma personagem normal, porém necessária para a estória justamente por ser a garota que Peter Parker gosta. Já Flash (Tony Revolori) nem chega a ser uma ameaça para Peter (e para falar a verdade, poderia ser até retirado do filme), mas ao mesmo tempo em que ele é "inútil", ele faz o longa fugir do convencional, ao invés de cair no clichê do "valentão", que já foi posto nos outros filmes.

A porta que dá entrada ao último ato de Homem Aranha: De Volta Ao Lar é o melhor ponto do filme, pois se fosse executada de outra forma, talvez tenha caído na mesma situação de Homem-Aranha (2002), talvez diminuindo exponencialmente sua qualidade.

Por fim, Homem-Aranha: De Volta ao Lar dá um novo fôlego à franquia do aracnídeo. Sem se preocupar com pontas para outros filmes do Universo, Jon Watts conseguiu recriar a figura do Homem-Aranha, saindo do convencional dentro de um gênero que tem como maior dificuldade fazer coisas diferentes. Com toda a certeza, esse é o ápice dos êxitos que misturam o humor do Aranha e a fórmula da Marvel. Este é um dos melhores filmes do Universo Cinematográfico.

Obs: E quanto às cenas pós-crédito, seja paciente.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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