• Leandro A. de Sousa

A Chegada - Um presente que precisamos aceitar


Direção

Denis Villeneuve

Roteiro

Eric Heisserer

Elenco

Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien, Tzi Ma, Pat Kiely, Mark Camacho, Julian Casey, Russell Yuen, Abdelghafour Elaaziz e Abigail Pniowsky.

Data de Lançamento

24 de Novembro de 2016 (Brasil)

11 de Novembro de 2016 (Exterior)

Nome Original

Arrival

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Denis Villeneuve é um diretor interessante, pois sabe lidar bem com a natureza humana contando quase sempre histórias intrigantes, como fizera em Sicario e em O Homem Duplicado. Devido a versatilidade do diretor, é difícil fazer uma comparação direta entre seus longas anteriores e A Chegada, já que todos abordam temas totalmente diferentes, porém, todos eles exploram profundamente a figura humana e seu caráter. Além disso, A Chegada é um filme que vem até nós para levantar questões as quais talvez nunca sequer tenhamos pensado sobre, e talvez seja esse o maior presente que recebamos ao final de sua projeção.

Lembro que no texto de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança eu disse que o ser humano é uma espécie que tende a fazer de tudo para evitar o sofrimento. Fazemos isso pelo puro medo de sentir algo o qual não podemos deixar de sentir, nos prendemos a algum relacionamento pelo simples medo de derramar alguma lágrima. Mesmo sabendo do final, mergulhamos em uma aventura amorosa tendo consciência que aquilo vai acabar com ambas as partes despedaçadas por dentro. Nós sabemos, de certa forma o que vai acontecer, mas mesmo assim, somos teimosos. Mas e se soubéssemos literalmente o que está a frente, se todo o sofrimento futuro ao qual nós iremos passar, nós vislumbrássemos em nossas mentes, nós mudaríamos alguma coisa?

A Chegada nos conta a estória da Professora Linguista Louise Banks (Adams), que é convocada pelo governo dos EUA para tentar se comunicar com seres extraterrestres que aterrissaram em naves ao redor do Globo em 12 pontos diferentes sem qualquer conexão entre tais pontos, ela vai até a nave e conta com a ajuda do Físico Ian Donnelly (Renner). No começo do filme, vemos algumas cenas da filha de Louise até chegarmos no ponto que esta morre devido a um câncer. O que torna interessante filmes de ficção, é como eles tentam a todo momento interpretar o que é a vida e a morte, o que seria a evolução e o amor. Como Kubrick fizera em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), como Zemeckis fizera em Contato (1997) e como Nolan fizera em Interestelar (2014).

Aliás, as comparações com estes dois último podem ir até um pouco mais além, quando vemos que o filme tenta compreender a relatividade do tempo ao mesmo tempo que nos fala sobre a maternidade. Assim como Cooper sabia que se partisse provavelmente nunca mais veria sua filha, Louise vê todo o seu futuro e sabia da dor que estaria a sua espera, mas ainda assim aceita seu destino. E o fascínio que vemos por parte dela no momento em que chega na Concha e se depara com aqueles seres, tal fascínio que podemos ver no rosto de Eleanor, em Contato, quando esta finalmente consegue receber um sinal vindo do espaço. Mas acima de tudo, esses filmes tem como base de suas estórias a figura humana e seus defeitos, todos eles enxergam nossos medos e fraquezas como algo superável. Em A Chegada temos uma estória contada se baseando em três características nossas principalmente: O medo do desconhecido, a arrogância humana e o nosso egoísmo.

E o filme não só explora esses elementos, como mostra o quão nocivos podem ser quando nos deparamos com algo em escala global, e alguns governos do mundo, como o da China, ficam na defensiva para caso esses alienígenas se mostrassem hostis - o que em nenhum momento eles fazem. A tentativa de diplomacia parecia mais uma medida desesperada do que seria um ataque real e direto as naves alienígenas, pois em nossa ignorância, temos medo daquilo que não compreendemos e não conhecemos, nos restando apenas a hostilidade e a brutalidade à qual nossos antepassados se utilizavam para conseguir o que almejavam e para se defender de algo que às vezes não precisava de uma real defesa.

Ainda em relação ao contato feito com os alienígenas, à relação de Louise e Ian com esses seres, pode ainda ser considerada nada menos do que uma pista do que está para ser revelado, já que tudo aquilo pode ser visto como um relacionamento de Mãe e Pai para com os Alienígenas, vemos isso no momento onde Ian resolve batiza-los. E isso ainda é mostrado de forma mais clara, como ambos não só ensinando Abbott e Costello (nomes dado aos alienígenas) a nossa língua, mas também nossos costumes e habilidades, chega momentos no qual eles criam um afeto claro por ambos.

E à dificuldade que encontramos em nos comunicar com esses seres pode muito bem ser uma alusão a falta de diálogo que há hoje em dia, não só de um ponto de vista diplomático entre países, mas também em escala menor, onde o diálogo se torna cada vez mais raro pois tal pessoa à qual você se propôs a ouvir tenha uma opinião diferente. O filme deixa isso ainda mais nítido quando há um momento onde os governos dos locais onde as naves pousaram simplesmente deixam de se comunicar pois já não estavam mais de acordo. Isso tudo causado por uma arrogância e um senso de superioridade.

E se o Monolito em 2001: Uma Odisséia no Espaço de Kubrick era nada menos do que um agente da evolução que nos ajudou a caminhar em direção ao Homo sapiens, esses alienígenas estão aqui pelo mesmo motivo, para nos ajudar a evoluir em nossa natureza e deixar de lado todo o nosso ódio, para que pela primeira vez, esse medo pudesse nos unir, e isso logicamente seria feito através de um diálogo, para reforçar ainda mais a ideia do parágrafo anterior.

Porém, para toda a evolução, é preciso um sacrifício, e novamente fazendo comparação aos filmes citados anteriormente, em todos eles os protagonistas sabiam do graves riscos que corriam. Assim como Eleanor (Contato) falou para Palmer que achava sim, que as respostas para as nossas perguntas fundamentais valiam uma vida humana, Louise também partilhava desse pensamento, ao qual não entendia muito bem no começo.

Como ela diz em uma cena, o tempo para os Heptapods não corre de forma linear como o nosso, tanto que um deles diz que ajudou a humanidade daqui 3000 anos. Quando vemos cenas com Louise e a sua filha, aquilo não se trata nem de flashbacks ou visões do futuro, isso fica expresso na cena onde ela está reunida na sala da reuniões com soldados e o Agente Halpern (Stuhlbarg). Ao mesmo tempo que vemos imagens com a filha dela perguntado sobre um termo usado onde ambas as partes saem ganhando e ela não se lembra qual seria tal expressão, nesse mesmo momento o agente pronuncia o termo na sala de reuniões e em um corte vemos que ela lembra e conta para a filha dela. Tais cenas se tratam de idas e vindas que Louise faz ao longo do filme, onde ela está literalmente indo e voltando no tempo.

Isso vem a ficar ainda mais evidente nas sequências finais do filme, onde depois que Louise entende a "arma" que aqueles seres a entregaram, ela a usa para dar um passo na evolução humana, ligando para o Chefe militar da China (Ma) e o convencendo a não atacar as naves, usando para isso, as últimas palavras que a mulher dele o dissera. Novamente, vemos que um sacrifício fora necessário para que mais um passo fosse dado, sendo assim, uma explicação lógica da dor que todos temos que passar para avançarmos internamente. Como citado em um parágrafo anterior, toda essa crise foi resolvida em um simples diálogo.

Filmes de ficção são fascinantes pois eles exploram de forma belíssimas as características humanas, conseguindo compreender nosso fascínio por perguntas as quais não temos respostas. Em um parâmetro realista, talvez não ficasse tão compreensível o que o realizador está tentando nos passar. A Chegada fala sobre uma evolução a qual nós ainda não conseguimos alcançar, pois existe a falta de diálogo entre a humanidade e dessa mesma forma temos medo de sofrer e tentamos a todo momento cometer o mesmo erro repetidas vezes, só que mudando algo aqui ou ali mesmo sabendo sua inevitável resolução. Louise aceitou sua "arma" ao mesmo tempo que aceitou as consequências dessa, pois sabia que era para um bem maior. A Chegada não é nada menos do que um presente, cabe a cada um de nós aceitar ou não.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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