• Matheus P. Oliveira

O Palhaço (2011) - A Poesia no Cinema


Direção

Selton Mello

Roteiro

Selton Mello e Marcelo Vindicatto

Elenco

Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Tonico Pereira, Giselle Mota e Fabiana Karla

Data de Lançamento

28 de Outubro de 2011

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

É essencial reassistir os filmes que mexeram conosco na primeira vez, pois precisamos (e esperamos) sentir aquela magia novamente. Ao vê-los, notamos que aquele conjunto de boas sensações continuava dentro de nós, hibernando, só esperando ser acordado novamente. Os bons filmes possuem esse dom e, como eu disse, para saber se um filme é bom, precisamos reassistí-lo. O Palhaço, de Selton Mello, é uma das obras cinematográficas mais belas já concebidas.

Eu já notava em outros trabalhos algo de especial em Selton Mello, como a brandura e suavidade em sua atuação e em sua voz (ajudado principalmente por seu sotaque mineiro), mas via apenas uma ótima estrela no meio de uma imensa constelação que o oprimia. Aqui não, como trata-se de seu filme, vemos um grau elevadíssimo de liberdade, pois ele é o maestro de sua própria sinfonia. A combinação de estilos e inspirações torna-se visível quando o panorama do filme é o ambiente circense (alegre e dinâmico). E indo ao seu enredo, temos como protagonista Benjamim (Mello), cuja persona é o palhaço Pangaré. Desde o início criamos automaticamente uma certa empatia com o personagem, pois nosso querido palhaço, fora dos palcos, é um ser humano triste e cabisbaixo, assim como muitos de nós. Vejamos, não é preciso que levemos essa situação necessariamente a um palco de circo, mas para nossas próprias vidas, como por exemplo, a quantidade de máscaras que precisamos usar para enfrentar as dúvidas e angústias postas todo santo dia. Benjamim é tão humano quanto nós que o olhamos.

Desde a primeira cena de O Palhaço, já notamos a mais que valiosa função do palhaço: alegrar as pessoas. Esta cena em questão mostra alguns trabalhadores rurais cortando um matagal, enquanto que ao fundo vários carros se aproximam (não sabemos quem estão nos veículos, mas sabemos que não são pessoas más). Nesta cena há uma música. Ela tenta entregar um clima melancólico ao filme (o clima da vida real - cruel), porém à medida que os carros se aproximam, o som vai se alegrando, e então descobrimos que as pessoas nos carros são membros de um circo itinerante (o clima do circo - alegria e festividade) e o filme muda de clima. Os trabalhadores, que sob o Sol trabalhavam, param o que fazem e encantam-se com a energia daqueles artistas agraciados com o dom de alegrar.

A vida de um palhaço não é tão fácil como parece ser. Em um momento, atrás das cortinas do palco, vemos um homem sério (Benjamim), e no outro, temos um homem sorridente de nariz vermelho (Pangaré) rindo para a plateia. Aliás, geralmente os palhaços tem em si gestos exagerados - e rimos disso. Tais gestos, se pensarmos profundamente, são táticas de escapar das tragédias da vida (tanto é que muitas das vezes, a alegria em grande quantidade é equivalente à tristeza em enorme profundidade). O Palhaço mostra esse contraste muito bem. O problema é que Benjamim não encontra uma escapatória no circo, pois ele não sabe o que quer e por isso não se identifica consigo mesmo. Em contrapartida, as primeiras palavras do filme são cruciais para um bom entendedor de metáforas. As palavras são ditas por uma moça: "Que calor... você devia ter um ventilador", e curiosamente, o ventilador é o que moverá Benjamim à procura do seu eu. A metáfora do ventilador é usada para que o protagonista "tome um ar" e "relaxe", para que veja toda sua situação sob um novo prisma. Já em si, o início é preenchido por um otimismo subliminar.

Outro detalhe relacionado à direção do Selton Mello é a sua habilidade em equilibrar cuidadosamente o drama e o humor e alternar com sintonia entre ambos. Há por exemplo, momentos de pura poesia em O Palhaço, que unem os dois gêneros já falados. Poesias que não se limitam à olhares ou palavras sinceras, mas visuais, como cores que remetem ao Amarcord de Fellini ou aos filmes de Wes Anderson e Stanley Kubrick - mais especificamente à respeito da simetria e ao uso contrastante de cores. Inclusive há uma sequência em que o prefeito de uma cidade convida todos do circo a um almoço em sua casa. Benjamim, em dúvida, pergunta algo no mínimo engraçado: "Mas quando o senhor fala 'todo mundo', o senhor quer dizer 'todo mundo'?". A sequência posterior a esta, mostra todos do circo no pé da escada da casa do prefeito, sendo recebidos. Foi nesse momento que eu definitivamente percebi a pegada de Wes Anderson (como o plano parecendo um retrato ou os gestos caricatos dos personagens, cada um com trejeitos peculiares).

Ao meu ver, um bom artista é aquele que tem boas influências para iniciar suas obras, pois a partir das influências, surgem as inspirações, e com isso, cria-se um rio perene repleto de obras-primas. A história nos dá exemplos disso. O escritor Machado de Assis foi influenciado por Shakespeare, o crítico de cinema Roger Ebert foi influenciado por Pauline Kael e Wes Anderson foi influenciado por Kubrick e Fellini. Todos esses respeitavam as antigas convenções, mas a partir delas, criavam convenções completamente novas. Selton Mello não é diferente, pois parece seguir este mesmo percurso, dando de presente ao Cinema Nacional um filme completamente mágico, fantástico e sincero.

Dentre a relevância dos demais personagens do filme, uma que vale destaque é a pequena Guilhermina (Manoela), que carrega uma serenidade em seu olhar, muitas das vezes admirando o trabalho angelical de Benjamim como palhaço (Pangaré). Nós sentimos seu carinho por aquilo. E o fato de essa personagem existir no filme, é para que tenhamos o testemunho do quanto é necessário o trabalho do Palhaço para a humanidade. Tanto é que quando Benjamim resolve desistir do circo, Guilhermina se sente afetada. Além disso, há um momento onde Benjamim acaba de terminar uma conversa com Guilhermina - não sabemos o que ele disse a menina, mas imaginamos o que seja, pois o rosto dela encontra-se cabisbaixo após a conversa.

Em 2008, Selton Mello passou por uma crise existencial (detalhe frequente entre artistas) e foi a partir disso que a ideia de esboçar o roteiro de O Palhaço surgiu. O filme, por soar tão verdadeiro, não surpreende que tenha nascido de uma experiência tão pessoal como essa - vimos isso, inclusive, com Fellini em seu Oito e Meio. Selton Mello e seu colega Marcelo Vindicatto, que já haviam escrito juntos Feliz Natal em 2008, recolocaram suas habilidades na mesa e criaram uma das mais fortes fantasias do Cinema Brasileiro, e como vimos no filme, assim como o personagem Benjamim descobre que o seu dom é dar alegria para as pessoas, Selton Mello acabou redescobrindo que o seu dom é fazer filmes e criar poesias que navegarão pelo rio da eternidade.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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