• Leandro A. de Sousa

Crítica | De Canção em Canção (2017)


Direção e Roteiro 

Terrence Malick

Elenco 

Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Linda Emond, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Tom Sturridge, Dana Falconberry, Olivia Grace Applegate, Austin Amelio e Louanne Stephens.

Data de Lançamento

20 de Julho de 2017 (Brasil)

17 de Março de 2017 (Exterior)

Nome Original 

Song to Song

Nota 

⭐⭐⭐

 

É impossível falar sobre qualquer filme de Terrence Malick sem antes falar dele próprio. É um diretor que tenho contato a pouco tempo, e devo dizer que foi no mínimo (modéstia a parte) sábio assistir suas obras anteriores antes de mergulhar em seu mais novo longa De Canção em Canção. Dono de uma narrativa única, Malick dispensa diálogos expositivos e faz com que a natureza e o visual de seus filmes sejam por si só, personagens essenciais de suas tramas. Mas o que Malick vem construindo em seus últimos longas é diferente de tudo o que eu vi até agora em relação a Cinema.

Desde Terra de Ninguém - seu primeiro longa - o Diretor explora a natureza humana, seus excessos, suas fraquezas e seus erros da forma mais natural a qual já presenciei, sendo marcas registradas do mesmo o uso quase exclusivo de uma câmera livre; planos contemplativos onde o diretor usa a natureza como um elemento para a semiótica de suas estórias; a narração por um ou mais personagens, sempre indicando que tais estórias já foram concluídas e estamos apenas vendo elas de um ponto de vista de outra pessoa; e por último, a figura feminina como ponto crucial da estória - isso acontece até mesmo em Além da Linha Vermelha onde temos apenas uma mulher, que aparece apenas em flashbacks de um soldado.

Malick envelheceu e seu estilo evoluiu junto a sua mente, tal evolução pode muito bem ser vista em seu quarto longa, A Árvore da Vida. A partir dali, Malick abandona uma narrativa linear com começo, meio e fim, e passa a usar o mistério (não como em um Suspense) e a falta de informação como arma principal para contar suas estórias, seguindo a risca a frase "não me conte, me mostre" e isso perdurou em seus longas subsequentes, incluindo De Canção em Canção.

O fato de De Canção em Canção ser um filme de Terrence Malick, torna difícil fazer uma sinopse dele, a verdade é que para sequer entendermos sua introdução, é preciso assistir ao filme até seus últimos minutos, isso faz com que a projeção se torne não só mais atrativa a cada segundo, mas também, mais curiosa com o passar dos planos. Se essa curiosidade se compensa no final, bom...

Claro que se resumirmos a obra em poucas palavras, ela ficará parecida com qualquer outra do Diretor - mais especificamente suas 4 últimas. Talvez seja aí que resida o maior problema de De Canção em Canção.

No filme conhecemos BV (Gosling) um músico que namora com Faye (Mara) e conhece um produtor musical chamado Cook (Fassbender) que tem interesse em torna-lo famoso. Ao longo do filme, vemos o começo de um triângulo amoroso entre eles, que logo culmina em diversos conflitos onde em um momento começa a entrar outros personagens e a trama começa a criar relacionamentos que aparentemente não tem uma grande função para a estória.

E De Canção em Canção cai em um pecado que muitos filmes o fazem: Seu visual supera sua estória. Desde A Árvore da Vida, Terrence Malick conduz seus filmes como se fossem documentários. A fotografia de Emmanuel Lubezki cai em suas obras como poesia visual pura, e assim a narrativa é conduzida. O trabalho de montagem pode parecer confuso, o que tende a exigir uma atenção redobrada do espectador. O filme, como de costume, não é linear, porém, diferente dos anteriores, isso fica expresso de forma ainda mais agressiva, sendo difícil de acompanhar a estória e encontrar uma lógica em seus acontecimentos, é necessário que nos prendamos em pequenos detalhes, como por exemplo, o cabelo de Faye, que parece mudar a cada plano do filme, mas que ajuda a definirmos a passagem de tempo.

São poucas as vezes em que esse triângulo amoroso realmente nos prende, porém, quando o faz, arranca alguns sorrisos e dá uma sensação de ternura, esquentando o coração. São momentos nos quais não parece que os atores estão atuando, como aquele onde Cook vai com BV e Faye para Costa Rica e lá eles se divertem como adolescentes que acabaram de sair da faculdade. O fato da fotografia de Lubezki e a filmagem de Malick muito se parecerem com um documentário, torna a estória mais natural - claro que a atuação de parte do elenco ajuda -, ainda acrescentando a narração sempre presente nos filmes do cineasta.

Mas isso tudo é apenas uma parte do que o filme oferece. No que diz respeito ao conjunto da obra, o filme se parece com qualquer um dos dois últimos do Diretor (Pleno Amor e Cavaleiro de Copas). Essa vontade de contar estórias através de um prisma difícil de enxergar, torna tudo interessante, porém, a trama dos dois últimos filmes do cineasta é interessante, já a de De Canção em Canção não.

O personagem de Ryan Gosling é apenas um repeteco do que o ator fez em La La Land: um músico frustrado e que se dedica ao máximo para conseguir seu lugar ao Sol; Michael Fassbender compete com seu personagem de Shame; E ainda no elenco temos Natalie Portman, que interpreta Rhonda. Portman de longe é uma das minhas atrizes preferidas dessa geração, mas nesse longa, o que realmente dá substância a sua personagem é o seu talento em si, muito mais do que o roteiro, e com uma ajuda clara do trabalho do Design de Produção.

Cook é um agente da perversão, que corrompe o caráter daqueles que encontra. Rhonda é apenas uma garçonete. É interessante como o filme trabalha com as cores.  Destaco aqui o rosa e o roxo, que muitas vezes se mostram ao longo da projeção, e aparecem de forma predominante no figurino de Rhonda, quando Cook a encontra pela primeira vez, indicando uma inocência e uma pureza nela (reforçado pelo fato dela ser uma ex-professora do Jardim de Infância). Quando eles se envolvem, o figurino dela muda, e o rosa que sempre indica inocência toma lugar para cores como azul, verde e preto.

E o Roxo por diversas vezes presente no filme, falando sobre uma certa fantasia, a qual a estória inteira parece seguir de forma implícita, dentro de uma narrativa que parece ser pouco lógica, mas que faz parte de todas as outra obras do cineasta, também falando sobre os sonhos daqueles personagem. Presente principalmente no figurinos de Faye, em um momento em que ela está sentada em uma cadeira da mesma cor, mas há uma peça de roupa importante e que se destaca do resto da mise en scène: um casaco preto.

E o preto sempre aparece em momentos sombrios e com uma clara analogia ao sexo e a perversão, como vemos no figurino de Rhonda, novamente quando ela está usando um vestido tomara que caia e botas de cano alto pretas enquanto Cook a segura pelos braços. E não poderia ser mais irônico o fato deles se casarem e ela usar um vestido branco.

Mas o filme, depois de termos a introdução de Rhonda, entrelaça seus arcos, criando dois triângulos amorosos, e fica claro que Faye não se envolve com Cook por mera vontade de ter uma aventurazinha sexual. Cook é um personagem mais complexo do que o filme dá a entender, não preciso dizer que desde a primeira vez que estes dois personagens se encontram, Cook flerta com Faye mesmo com BV por perto. É como se ele fosse além da perversão, e se tornasse também um agente do caos. Mesmo que ele possa oferecer a BV uma chance de fazer sucesso, o preço seria a desestabilização de seu relacionamento com Faye. Ela se sente atraída como se fosse algo inconsciente, e logo depois do ato, se arrepende. Isso fica ilustrado por um plano conjunto com Faye ao fundo do quarto em um diálogo com Cook, enquanto a câmera mostra apenas o personagem da parte do pescoço para baixo, indicando que a única coisa que interessa ali é o seu corpo. Malick nos fala de forma implícita do pecado da Luxúria.

E ainda somos introduzidos a um romance que por mais que seu início e seu fim sejam esquecíveis, o que acontece entre esses períodos se torna interessante a medida do seu desenvolvimento. Malick em quase todos os seus filmes mostra a figura masculina como nociva à feminina (isso fica muito bem expresso em Pleno Amor). Quando pela primeira vez vemos a formação de um casal lésbico em seu filme, parece chocante, mas ao mesmo tempo é interessante como o que acontece entre Faye e Amanda (Marlohe), se torna algo belo e natural, por mais que a forma como aconteça a primeira vista seja artificial, em nada este romance vai destruir parte do interior de Faye, como Cook, o fizera.

E Cook, novamente, um agente do caos e da perversão, percebe que há um preço a se pagar quando se trás alguém naturalmente puro para esse mundo, alguém que não pertence aquela vida, infelizmente, ele só percebe isso quando Rhonda decide tirar a própria vida. Afinal, Cook é apenas um homem inseguro e que tem medo de admitir tal insegurança, então ele tenta levar pessoas a esse mesmo espectro. Por isso, naquela orgia entre ele e duas outras mulheres, vemos uma lágrima escorrendo em seu rosto.

De Canção em Canção acaba assim como começa, nos abrindo um leque de perguntas sobre a nossa própria existência e sobre a ordem das coisas. Apesar de o considerar um dos filmes menos interessantes de Malick até então, ele tem algo a nos oferecer em suas entrelinhas, em seu subtexto e em seu visual. Depois que eu conheci o Cinema dele, percebi quão pura, bela, nociva e perversa a alma humana pode ser. Malick, diferente de muitos, conta suas estórias nos oferecendo pouco apelo expositivo em seus roteiros. De Canção em Canção nem de longe é um filme ruim, mas vindo de Terrence Malick, eu esperava mais.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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