• Matheus P. Oliveira

Crítica | O Filme da Minha Vida (2017)


Direção

Selton Mello

Roteiro

Selton Mello e Marcelo Vindicatto

Elenco

Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Rolando Boldrin, Ondina Clais Castilho, Antonio Skármeta e Érika Januza.

Data de Lançamento

24 de Julho de 2017 (Brasil)

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

A identidade que existe entre o artista e sua obra sempre esteve presente na História, pois sempre tivemos a curiosidade de procurar esse elo e, desse modo, observar se ambos encontram-se conectados (na maioria das vezes, quando são ótimas obras, acabamos conseguindo). No Cinema é a mesma coisa, porém com uma vantagem que as demais artes não possuem: a imagem em movimento. Esta vantagem acaba elevando o Cinema a um nível quase "transcendental", como se desse a nós espectadores, o poder de se comunicar com o diretor, com a íntima essência do filme e com a nossa própria natureza. A imagem, unida ao som e ao movimento, além de emocionar, recriam a realidade e, como Eisenstein disse, "para capturar a realidade, deve-se destruir o realismo". Com a intenção de criar uma nova realidade em vez capturá-la, Selton Mello fez O Filme da Minha Vida, tão poético quanto o seu filme anterior, O Palhaço.

O que temos nesse filme é a mistura de três elementos já presentes na filmografia do Selton Mello: Poesia, Introspecção e Melancolia. Ambos se conectam e parecem transformar o longa numa série de fotos em tom Sépia, remetendo, inclusive, a um quarto elemento que parece reger os três anteriores: a Nostalgia. Antes mesmo do filme começar, temos a leve sensação de ter voltado no tempo, e enquanto os créditos iniciais passam, ouvimos o zumbido do vento - discreto, efêmero, mas que nos atinge em cheio.

Ao passo que O Palhaço, em muitos aspectos, possuía um certo estilo italiano (traços de Fellini, como eu havia comentado em meu texto anterior), O Filme da Minha Vida, por sua vez, opta por uma atmosfera francesa bastante elegante, lembrando até os filmes de Jean-Pierre Jeunet (Amélie Poulain (2001) e Eterno Amor (2004)) - notem bem a paleta de cores e o figurino dos personagens. Pois bem, são aspectos como estes que entregam um ar europeu (e até rústico) ao filme, seja pelo fato de ter sido gravado no Sul do país, seja pela época em que o filme se passa. E a semelhança com o Cinema Francês não termina nas imagens - o tema musical do filme me lembrou muito o de Uma Mulher é uma Mulher (1961), de Jean-Luc Godard.

O filme começa com a narração do personagem principal Tony Terranova (Massaro), que com uma voz cálida, conta sua história de vida. Devido a uma frustração que foi marcada pela partida de seu pai Nicolas (Cassel) à França, Tony parece ter parado no tempo. A ausência de Nicolas foi responsável por dúvidas e angústias que perduraram até sua vida adulta (mesmo tendo se tornado um professor). Nesse filme, o anseio pela presença paterna é visível - nós sentimos a vontade que Tony tem de saber o motivo da ida de seu pai. Apesar de ser um adulto, Tony parece um típico adolescente.

E por possuir um enorme buraco em seu coração, Tony tem a amizade de Paco (Mello), um velho amigo de seu pai. Paco é para Tony uma parte de Nicolas que ainda não se foi, porque ainda há fragmentos de seu pai nesse homem, como se sua voz ou presença ainda se transparecessem ali. E Paco, apesar de sua função no filme, não é um personagem clichê, pois vemos isso nas complicações futuras (como sua intenção em fazer com que Tony esqueça de seu pai).

Uma prova da "espiritualidade" que a presença de Nicolas possui, são os momentos de flashbacks (postos de forma bastante orgânica, inclusive) em que ele aparece, seja com o Tony menor ou com sua mulher, Sofia (Castilho). Há diversos momentos belos com Nicolas, mas o mais emocionante é quando Tony está aprendendo a andar de bicicleta. Nesse momento, seu pai lhe ensina a andar e quando ele adquire o equilíbrio sobre as duas rodas, Nicolas sorri de alegria, Tony segue livre, e o tema musical do filme se inicia de surpresa, e emociona, batendo no fundo da alma. Dá para sentirmos o afeto entre os dois, um verdadeiro elo entre pai e filho, tão original e tão raro desde Travis e Hunter, do filme Paris, Texas (1984). Por causa disso, a cena torna-se feliz e triste ao mesmo tempo, pois sabemos que Nicolas se foi (tanto que Tony segue pedalando e Nicolas fica para trás, possivelmente significando o afastamento entre os dois).

Bruna Linzmeyer traz a personagem mais diferente do filme e uma das mais interessantes: Luna Terranova. Detalhes que comprovam isso são o seu cabelo laranja, suas roupas coloridas e chamativas e seu modo de encarar as coisas (como o sonho que ela descreve para Tony e o ponto de vista sobre o Tempo). Ela, em alguns momentos soa caricata, mas sem chegar perto do ridículo. Desse modo, Linzmeyer consegue expor a doçura e a pureza de sua personagem, assim como Audrey Tautou o fez em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Tony e ela são amigos, e por serem amigos, os dois tem suas semelhanças (o jeito introvertido de ambos é um exemplo). Eles vagam pela cidade, catam folhas de árvores, sentam na beira de pontes e tiram fotos juntos. Assim é a amizade dos dois, que cheira a uma tímida paixão mútua.

Luna tem um irmão mais novo e uma irmã mais velha, eles se chamam Augusto (Prates) e Petra (Arantes). Augusto é um rapaz na puberdade que vive perguntando para todos como é o bordel (ele é, inclusive, a própria imagem exposta de Tony) e Petra é uma mulher madura e vivida, muito diferente de sua irmã. Em seus olhos, se esconde algo profundo, algo relacionado à Luxúria (notamos uma forte sensualidade presente). Seu semblante mostra isso, e notamos em seu olhar um segredo trancafiado à sete chaves.

Na mente de Tony existe um dilema: ceder ao doce amor de Luna ou ao desejo carnal de Petra. Isso se perdura por um bom tempo no filme, e a cena em que Tony flutua hipnotizado, demonstra ao extremo esse desejo. Seu rosto mostra uma infinidade de pensamentos que precisam ser interpretados (como os seus olhos esbugalhados e aqueles sorrisinhos no canto da boca, mostrando uma ligeira malícia). E ao meu ver, esta é uma das cenas mais poderosas do filme, por tamanho significado e expressão que ela possui - é uma cena simples, mas crucial. Não é à toa que essa foi a cena que Selton Mello mais teve vontade de filmar.

Também é preciso dar atenção ao humor que Selton Mello emprega em seus filmes, pois é um artifício usado de forma fluida (detalhe que falta nos Cinema brasileiro atual). Em seu longa anterior havia isso, mas já era algo intrínseco ao seu clima. Talvez se não houvesse esse humor em O Filme da Minha Vida, ele se tornaria pesaroso e se afogaria em sua própria melancolia, que já aparece escancarada desde o início. Um bom exemplo disso é quando Tony vai a um bordel para perder sua virgindade e a prostituta (Carmélia, interpretada por Martha Nowill) que o atende pergunta sobre sua profissão; Tony diz que é professor, e em seguida, ele pergunta a profissão de Carmélia, ao que ela responde: "Eu sou puta".

Esse diálogo entre os dois, aqui pela crítica, não possui o mesmo efeito quando vemos no filme, mas acreditem ou não, é um diálogo curto, mas engraçado - e esse humor segue quando Carmélia diz que gosta de Geografia e que sabe a capital de todos os países. A partir daí, Tony lança as pergunta, e ela responde... e por aí vai.

O nome do filme é curioso, porque serve para três coisas: ao próprio Selton Mello, para nós espectadores e para o próprio Tony Terranova. O filme da vida de Tony é Rio Vermelho, este que toda vez ele tira um tempo para assisti-lo no cinema. O local onde ele assiste ao filme é bem distante, e é preciso ir de trem para chegar nele - é por isso que a emoção ao vê-lo é mais intensa. Vejam as lágrimas de Tony ao assistir ao seu filme predileto - ele se emociona! Vejam também como ele sai, literalmente, flutuando da sala do cinema - lirismo puro!

Em todos os filmes do Selton Mello existe o Simbolismo - determinados objetos entregam para os personagens um significado específico. Em Feliz Natal (2008), por exemplo, há uma bugiganga que Caio dá ao seu sobrinho (aquilo constrói um elo entre os dois por mais que ambos pouco se encontrem). Em O Palhaço (2011), existe o ventilador que sempre gira sem estar ligado. Aqui, em O Filme da Minha Vida, existem vários, por exemplo: a moto que remete ao pai de Tony e o próprio filme Rio Vermelho que significa o elo entre os personagens principais (Tony, Luna, Nicolas e Sofia). Com certeza há outros detalhes que eu talvez não tenha percebido, mas isso não interessa, o que interessa é a quantidade de conexões que os objetos constroem no filme. Aliás, este longa é uma clara homenagem ao próprio Cinema e responsável por algumas referências ao filme italiano Cinema Paradiso (1988) - no sentido dos personagens serem ligados pelos filmes e pelo fato de Nicolas se parecer com o Alfredo por trabalhar como projecionista.

Antonio Skármeta, o autor do livro "Um Pai de Cinema", tinha um sonho de ver seu livro adaptado nos cinemas e que fosse falado na língua portuguesa. Um amigo sulista do Selton Mello, indicou O Palhaço para Skármeta assistir, pois achava que neste filme, existia uma certa sensibilidade que Skármeta reconheceria. Tais palavras foram ditas pelo próprio Selton Mello, e não é de se admirar que um livro como esse (que eu ainda não li, mas estou empolgado para ler) tenha caído em suas mãos. Cada vez que assisto a filmes como O Filme da Minha Vida, a esperança pelo Cinema Brasileiro cresce igualmente à paixão que eu sinto pelo Cinema.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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