• Leandro A. de Sousa

Crítica | Lady Macbeth (2017)


Direção

William Oldroyd

Roteiro

Alice Birch

Elenco

Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Naomi Ackie, Paul Hilton, Christopher Fairbanks, Golda Rosheulvel, Bill Fellows, Ian Connigham, Fleu Houdijk e Rebecca Manley.

Data de Lançamento

10 de Agosto de 2017 (Brasil)

28 de Abril de 2017 (Exterior)

Nota

⭐⭐⭐⭐

É sempre interessante assistir filmes de diretores(as) iniciantes, é como desbravar uma selva ou até mesmo uma livraria; nunca sabemos o que estará atrás da árvore ou quais livros estarão na próxima estante na virada de um corredor. Em filmes assim não podemos prever o que estará no próximo plano, na próxima fala ou sequer temos ideia de como se conduzirá a resolução de sua narrativa, pois não conhecemos o estilo do homem ou mulher por trás das câmeras. Mas também, pode-se comparar essa experiência a assistir ao piloto de uma série, onde ali, estará centrada toda a trama da obra e é onde descobriremos se vale a pena ou não perder tempo com aquilo.

Se o primeiro filme de um diretor for ruim, bom, dificilmente o restante será bom. Sendo assim, é preciso estabelecer um estilo, afinal, a primeira impressão é a que fica. Felizmente, William Oldroyd faz de Lady Macbeth um excelente começo de carreira, e um excelente piloto de seu estilo cinematográfico nos apresentando a estória de Katherine (Pugh), uma mulher que fora vendida em casamento para o filho de um fazendeiro na Grã-Bretanha em meados do Século XVIII. O marido dela é um homem cruel, autoritário e que sequer consegue dá prazer a moça ou tocá-la. Quando este viaja, Katherine se sente atraída por um dos servos daquele local e então temos uma estória de paixão e traição.

O que se pode dizer de Lady Macbeth é que este é um profundo estudo de personagem em moldes Shakesperianos, com personagens que por muitas vezes podem soar caricatos e com ações quase sempre moralmente questionáveis. Assim, Lady Macbeth não só nos proporciona uma intrigante estória de amor e traição, mas também traz em sua narrativa o peso de uma mulher que pela primeira vez na vida se vê com o poder em suas mãos.

O que Oldroyd demonstra é uma direção calculada e manipuladora, e faz isso de forma inteligente, com pouquíssimo uso de trilha sonora, somente em momentos mais sombrios da narrativa - como nas cenas após as duas primeiras mortes - nos dando sempre a sensação de um isolamento. Vemos isso em filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez, por exemplo; essa sensação deve-se também a fotografia, sempre demonstrando aquele local nublado e cinza, com grandes planos abertos onde vemos planícies sem nada além de verde, o que dá a impressão de que aquela casa é a única em muitos quilômetros; com enquadramentos repetidos, o filme estabelece um clima de rotina, como vemos naquele onde Anna (Ackie), a empregada da casa responsável por auxiliar Katherine em suas tarefas, sempre abre a porta do quarto da moça para acordá-la ou simplesmente para abrir as janelas.

Apesar de não ser propriamente baseado na Tragédia de William Shakespeare, o filme evoca muitos conceitos da obra do autor. O que vemos ao longo da narrativa é que esse poder não só mostra um lado cruel de Katherine como também prejudica todos os outros naquela casa. Vemos isso bem ilustrado na cena onde Anna é obrigada a ficar de quatro por ordem do senhor da casa em uma falsa acusação de ter consumido uma bebida. Assim como acontece na tragédia acontece no longa, onde os empregados servem como bode expiatório. Isso, logicamente, vem a se repetir na estória.

Contudo, a cada vez que mergulhamos nessa perturbadora narrativa, ironicamente, mais entendemos as motivações de Katherine, que por parecer simples, soa piegas: amor - ou o que a mesma entende desse conceito, ou o que o roteiro quer que pensemos ser. A forma como o romance dela com Sebastian (Jarvis) é construído em cima da desgraça de todos aqueles naquela casa se torna incômoda e intrigante, pois há de tudo no relacionamento dos dois, exceto amor. A relação, que nasce apenas pelo tédio, se torna nociva para ambos e para todos ao redor, pois os conflitos começam a partir do momento em que ele decide ir até o quarto dela porque estava entediado.

Conferindo vigor a Katherine, Pugh traz a tona ainda mais a inconsequência de sua personagem, nos demonstrando, apesar de tudo, uma certa imaturidade por parte da mesma em relação ao que ela pensa ser amor. O que nos leva a Sebastian, interpretado por Cosmo Jarvis, onde no começo podemos dizer que sua atuação é no mínimo medíocre, porém, ao passar dos atos, vemos o nascimento de um conflito interno no personagem, demonstrando uma complexidade a qual impressiona e emociona.

Indo além dos dois personagens principais, certamente alguém que merece e muito a nossa atenção é Anna, que mesmo sendo apenas empregada e ajudante de Katherine, se demonstra uma personagem profunda, e consegue isso com a façanha de não dizer mais do que meia duzia de palavras ao longo da projeção, nos levando a entender ainda mais a sua posição hierárquica naquela casa, onde ela apenas fala quando lhe convém a fala. E ainda temos com ela um dos momentos mais interessantes no que diz respeito ao simbolismo do filme, quando ela está sendo cruelmente pesada como um porco pelos servente homens do local, Katherine ao chegar e mandar eles descerem Anna, ela age da mesma forma que seu marido agia com ela, mandando que todos encarem a parede, como ele fizera com ela na cena anterior, o que vem a reforçar isso, é o som que a corrente faz no momento em que estão abaixando a criada, que é o mesmo som da masturbação do marido de Katherine quando este manda ela olhar para parede pelada enquanto dá prazer a si mesmo.

E como eu disse, apesar da crueldade e do claro prazer nas ações de Katherine, ainda era compreensível ela cometer todos aqueles assassinatos, pois era contra aqueles que a faziam mal. Mas não seria uma verdadeira obra Shakesperiana se não tivesse um real viés de crueldade nas ações de Katherine, onde ela seria capaz de se livrar até mesmo de um ser inocente.

É introduzida na narrativa, uma criança que segundo a mulher que a trouxera, é filho do falecido marido de Katherine e o mesmo antes de morrer assumiu formalmente o pequeno. O roteiro cria um plot point perfeito para o terceiro ato.

A situação é ainda mais degastante quando de forma eloquente Katherine se demonstra interessada na criança como se tivesse a pretensão de o criá-lo com se fosse seu próprio filho. Mas no que diz respeito ao planos dela e de seu comparsa, estes são abalados pela chegada dessas duas figuras. E ora, desse abalo vem o ciúme de Sebastian diante do novo senhor da casa, que novamente, seria um obstáculo para essa loucura de ambos.

Oldroyd se mostra um diretor visceral ao longo da projeção, e cruel ao mostrar Katherine sufocando o garoto com uma almofada enquanto Sebastian segura seus pés em um plano longo e sem cortes, onde conseguimos sentir o desespero daquela pequena criança. Logo em seguida, vemos o remorso dela, que senta na cadeira ao lado e escorre uma lágrima em seu rosto.

E Sebastian, que apesar de tudo, não era uma pessoa cruel e não tinha estômago para aquilo - como já havia demonstrado após a morte do marido de Katherine - resolve fazer justiça, mas tanta da pior forma, confrontado de frente esse poder, com uma arma muito fraca: sua palavra contra a dela. E assim como Shakespeare escrevera, são os empregados que sofrem as consequências.

No último plano de Lady Macbeth, Katherine se senta em um sofá, com seu longo vestido azul marinho, pronta para ser atormentada pelos fantasmas daqueles cuja a morte ela foi responsável. Com um close up no rosto dela, antes de encerrar o filme, vemos um claro remorso em seu interior, pois agora tudo o que ela fez, não fazia mais sentido.

O resto da estória nós podemos imaginar.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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