• Matheus P. Oliveira

Crítica | Dunkirk (2017)


Direção e Roteiro

Christopher Nolan

Elenco

Tom Hardy, Harry Styles, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, Mark Rylance e Tom Glynn-Carney

Data de Lançamento

27 de Julho de 2017 (Brasil)

21 de Julho de 2017 (EUA)

13 de Julho de 2017 (Reino Unido)

Nota

⭐⭐⭐⭐

Me impressiona - e às vezes me irrita - o fato de alguns vícios do Christopher Nolan o impedirem de crescer e de se superar. É verdade, ele tem sim bons filmes em sua carreira - como a trilogia do Batman (responsável por uma das maiores bilheterias do Cinema) ou o complexo A Origem -, cada um com suas particularidades e ideias puramente originais, mas nada além disso, pois falta aquela 'imortalidade' em seus filmes (igual a que vemos, por exemplo, em toda a filmografia de Stanley Kubrick). E os vícios que eu citei são os únicos fatores que impedem a imortalidade dos filmes do Nolan. Desse modo, Dunkirk, apesar de ser um bom filme, infelizmente se contaminou com uns minúsculos vícios, estes que serão elucidados logo mais.

O que foi aprendido durante esses anos é que não devemos criar expectativas com os filmes do Nolan (porque em um detalhe ou outro ele faz algo errado), nem fazer comparações absurdas com eles (como fizeram há tempos atrás com Interestelar, em chamá-lo de "O novo 2001"). A expectativa, como sabemos, é uma armadilha, e cientes disso, tivemos algo semelhante com Dunkirk, porém em proporção menor que Interestelar. Algumas notícias colocavam Dunkirk no pedestal de "obra-prima" (apesar de eu ainda achar O Cavaleiro das Trevas sua obra-prima) e outras o nomeava como um dos melhores filmes de guerra deste século (o que não deixa de ser verdade). Eu ponho Dunkirk da seguinte forma: um filme que por pouco, graças a alguns velhos (e maus) hábitos de seu criador, não se tornou uma obra-prima. Porém, eu volto a dizer, ele é um bom filme.

Em décadas atrás, filmes como Apocalypse Now, Vá e Veja e Além da Linha Vermelha pareciam ter uma certa imortalidade (e de fato tinham), pois eram filmes diferentes de tudo o que vimos no Cinema - até mesmo o recente Até Último Homem, que com sua brutalidade extremamente gráfica, expressava uma certa peculiaridade. Nolan, por sua vez, ao mesmo tempo em que consegue estabelecer uma espetacular e angustiante introdução em Dunkirk (como o personagem interpretado por Fion Whitehead fugindo desesperadamente de disparos estrondosos, enquanto vê seus colegas sendo mortos, junto da trilha sonora acelerada e urgente), repete convenções já vistas milhares de vezes no cinema, como por exemplo, pôr no plano um General olhando para cima, enquanto a câmera se aproxima de seu rosto, paralelamente ao som de um avião que se aproxima, indicando o perigo iminente (um bombardeio). Nós nos sentimos sufocados e manipulados pelas tensões que o longa constrói, mas a sensação de termos visto e sentido isso antes, torna-se gritante. O fato do filme ser dividido em três perspectivas (terra, mar e ar), por sua vez, pareceu uma novidade para mim e muito me agradou, ainda mais vindo do Nolan, um diretor de vícios.

Assim, jamais eu irei reclamar do fato do Christopher Nolan fazer seus filmes à moda comercial - isso, na verdade, nem deve ser levado ao lado negativo de uma crítica, porque muitos outros diretores seguiram este caminho e tiveram sucesso de público e de crítica (um blockbuster tem lá suas qualidades). Tomem como exemplo alguns dos filmes do Steven Spielberg (Tubarão, Os Caçadores da Arca Perdida e Jurassic Park), todos comerciais, mas cheios de substância e novidades em questão de roteiro, porém recheados de convenções de seu gênero (algo um tanto quanto inevitável de se ter). Estes três longas os quais eu citei, tinha um amplo valor de entretenimento que precisavam ser apreciados numa tela de cinema - e isso também vale para a maioria dos trabalhos do Nolan, incluindo Dunkirk. Essa mais nova obra de guerra, precisa ser apreciada no Cinema (e digo com absoluta certeza).

Para vermos como tal certeza é mesmo absoluta, basta vermos os belíssimos planos, que graças à ousadia de Christopher Nolan, nos proporcionou lindíssimos panoramas - como o que vimos nas sequências do soldado Farrier (Hardy) em seu avião, no qual foi posto uma câmera IMAX para filmar tudo de cima, para que transpusesse para nós, a visão claustrofóbica de um piloto de avião em plena 2ª Guerra Mundial. Além dessa do avião, também temos outra brilhante sequência (sem um enorme plano), em que alguns soldados - incluo Alex (Styles), Tommy (Whitehead) e Gibson (Barnard) - estão escondidos em um barco, esperando a maré chegar para que comecem a flutuar com o surgimento da água; as coisas não saem como eles esperavam e dezenas de disparos, aos poucos, são dados nesse compartimento - ele fica repleto de buracos, e consequentemente a água entra; os soldados, sem poder fazer nada, seguram a aflição, ao mesmo tempo em que precisam tapar os buracos para não ficarem imersos lá dentro. O desespero aumenta e o som altamente manipulativo do Nolan nos domina (causado pelos disparos). Esta sequência se desenrola por mais ou menos uns 10 minutos - ela é lenta e por isso tortura o espectador (no bom sentido). Resumindo: em questões técnicas, não há do que reclamar de Dunkirk, já nas demais... temos, mas pouco.

E já que eu coloquei outros pontos na pauta, preciso elucidá-los: há detalhes realmente positivos nele, como a tática do Nolan de dispor das quase 2 horas de filme para unir os três pontos de vista (terra, mar e ar). Os personagens, a princípio, não parecem ter ligações, mas quando tudo se desenrola, vemos todos na mesma cena - nesse caso, no barco do personagem interpretado por Mark Rylance (e isso é muito legal). Sendo assim, o que une todos esses personagens é a Batalha de Dunkirk ou a esperança de serem salvos dela (uma união parecida com o que vi em Magnólia, quase cósmica).

Quanto mais parágrafos vão sendo escritos, mais palavras fluem da mente para o teclado, logo, novas percepções são trazidas à tona, e uma dessas percepções que passaram pela minha cabeça foi a relativização do tempo retratada em Dunkirk. Percebam como o tempo do duelo entre os aviões, sob a perspectiva do senhor do barco é rápida, ao passo em que na perspectiva do piloto, parece durar séculos. Podemos ver como é árdua a forma como Farrier (o piloto) derruba os aviões inimigos. Já no ponto de vista dos homens em terra, então nem se fala... vemos o céu claro e escuro diversas vezes, enquanto que nos outros dois, ele sempre permanece reluzente.

E na parte referente ao sentimento de esperança, centrado nos personagens, vemos alguns pequenos defeitos: não é palpável nos personagens principais a ânsia pela salvação, por mais que em suas caracterizações esteja esse sentimento; isto, naturalmente, nos leva às atuações, que não oferecem nada muito relevante, apenas respirações ofegantes e olhos esbugalhados (coisas que já vimos), nada que aspire à salvação - o problema aqui são as performances e o que já foi visto.

Chegando ao momento crucial deste texto, conto com o fato de que Nolan conclui o seu filme com a sua habitual e viciosa maneira de "espetáculo", fazendo com que Dunkirk, um longa que deveria terminar de forma comovente, não comove. Um final como o que eu imagino (cruel e frio), sendo posto em um filme comercial como Dunkirk, não agradaria ao público, logo... é provável que Christopher Nolan tenha cedido à vontade destes para que seu sucesso fosse certo nas bilheterias, caso contrário, vocês já sabem...

Talvez estejamos depositando as expectativas no diretor errado, ou talvez estejamos lhe entendendo errado - a resposta para isso é um mistério. O destino do filme talvez tivesse sido sua ideia desde o início, independente do público. É difícil entender a mente de quem escreveu A Origem. Mesmo que eu considere o fato de que Nolan seja britânico, e quis homenagear os soldados que lutaram na Batalha de Dunkirk, é inegável que o célebre discurso de Churchill no fim do filme, ofuscou o desfecho do arco daquele que aparentemente foi um dos principais heróis desse filme, o piloto Farrier.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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