• Leandro A. de Sousa

Sobre Meninos e Lobos (2003)


Direção

Clint Eastwood

Roteiro

Brian Helgeland

Elenco

Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Laurence Fishburne, Laura Linney, Marcia Gay Harden, Emmy Rossum, Tom Guiry, Kevin Chapman, Spencer Treat Clark, Robert Wahlberg, John Doman e Cayden Boyd.

Data de Lançamento

21 de Setembro de 2003

Nome Original

Mystic River

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

O que molda nossa personalidade? O que nos dá substância? O que nos torna humanos? É assustador pensarmos que cada passo que nós damos, sendo curto ou longo demais, vai determinar o que seremos daqui a alguns minutos, horas, anos... Tudo o que experimentamos de alguma forma faz com que sejamos mais ou menos humanos. Quando Dave Boyle (Robbins) decidiu obedecer aquele homem e entrar no carro, ele havia assinado a sua sentença de morte, ele colocou sua cabeça dentro da boca de um Lobo.

Syd Field diz em seu livro "Manual do Roteiro" que cada página de um roteiro representa 1 minuto de projeção e que as 10 primeiras páginas - logo os 10 primeiros minutos de um filme - tem um papel crucial, e que nós inconscientemente decidimos se gostamos ou não de um filme em 10 minutos. Os primeiros 10 minutos de Sobre Meninos e Lobos consegue estabelecer seus personagens principais e ainda estabelecer a narrativa da estória. Quando vemos a cena onde os três meninos estão na rua brincando, eles veem um pedaço de calçada fresca de cimento e resolvem escrever seus nomes nele, mas somente Dave não consegue terminar a ação, escrevendo somente metade de seu nome, algo simples nos é dito: nós nunca iremos conhecer Dave, ele seria destruído naquele pequeno espaço de tempo. Assim é feito (o que pode ainda vir a reforçar isso é a imagem que temos de Dave na janela, mas em contraluz, para que não pudéssemos enxergar seu rosto, mostrando agora uma figura desconhecida).

É mais interessante ainda quando pensamos que aqueles três garotos só iriam aparecer novamente juntos já adultos, unidos por uma tragédia.

Baseado no romance homônimo de Dennis Lehane, Sobre Meninos e Lobos conta a estória de três amigos de infância - Jimmy (Penn), Sean (Bacon) e Dave - que se distanciaram ao longo dos anos e que são reunidos novamente devido a uma tragédia que acontece com Jimmy, o qual teve sua filha assassinada em uma noite sob circunstâncias violentas. Sean, agora policial, assume o caso junto ao seu parceiro Whitey (Fishburne), e a cada sequência somos introduzidos em uma espiral que tem como intenção não nos contar sobre o que está acontecendo em tela, mas sim fora dela.

O filme em si, não nos fala sobre o assassinato da filha de Jimmy ou sobre o abuso que Dave sofrera quando criança, mas exatamente sobre o período entre os dois eventos e sobre as consequências causadas em seus personagens. É difícil mas interessante desvendar aos poucos a personalidade complexa de cada um deles.

O que o roteiro de Helgeland tem como objetivo fazer é preparar o terreno para a próxima revelação. Cada página é crucial, não há sintetização, somos banhados com informações a todo instante, mas sempre paramos para pensar o que aconteceu na cena anterior ou o que aconteceu em todos esses anos entre o abuso e o assassinato.

Abuso e Assassinato: são palavras que amedrontam. Mais amedrontador ainda é notar os detalhes que estão presentes em cada cena. Clint Eastwood para nos dizer que o homem que estava no carro que levou Dave era membro da igreja, simplesmente faz com que ele se vire para o garoto no banco de trás revelando um anel em sua mão com um crucifixo.

Mas a real tristeza de Sobre Meninos e Lobos reside no caráter e na personalidade de cada um de seus personagens. É simples e raso dizer que cada um segue normalmente com suas vidas. Dave com seu filho se mostra superprotetor por motivos óbvios. E logo conseguimos notar a melancolia no olhar de Sean, que apesar de se mostrar dedicado a resolver o caso, como se estivesse em dívida com Jimmy de alguma forma; é interessante que, apesar de parecer o mais estruturado dos três, nos é revelado que a mulher dele o abandonou grávida, e de forma inteligente, o filme nos mostra apenas partes do rosto da mulher dele quando ela liga para o mesmo e fica muda ao telefone, como se ele estivesse apenas imaginando aquele momento, como se ela não existisse realmente.

Jimmy, brilhantemente interpretado por Sean Penn, aparece a primeira vista como um simples dono de uma mercearia, que parece levar uma vida enfadonha e que ama sua família, mas que logo se demonstra um homem imprevisível. E vemos isso quando nos preparativos para o velório de sua filha, ele pede para vê-la novamente, e na mesa onde o corpo está deitado, ele jura que irá matar aquele que fez isso. E na verdade, o que Jimmy estava fazendo ali, era uma pura e falha tentativa de adiar o luto.

É curioso pensar que aquelas pessoas, seja lá pelos erros que cometeram, são essencialmente boas, e ao mesmo tempo não demonstram necessariamente isso. Peguemos como exemplo disso a esposa de Jimmy, Annabeth (Linney), que já fica claro que ela não é mãe de Katie (Emmy) no primeiro momento em que aparece somente pelo tom com o qual ela trata a figura da garota. E ainda podemos citar a arrogância com que trata Celeste (Harden) já nos últimos minutos do filme, a mulher de Dave. Ainda sim, não podemos dizer que ela é uma pessoa má ou que merece passar por tudo aquilo que está passando.

Ainda sim, seria difícil dizer se Jimmy merece ou não isso que lhe aconteceu, pois como nos é mostrado, ele vai bem além de um dono de mercearia pacato. A questão é: algo sempre acontece, fazendo com que o destino reúna os três novamente, para que voltassem ao ponto de partida, no caso, a rua com os nomes deles.

E novamente, trago a tona a pergunta do começo desse texto. Afinal, a maldade e a bondade fazem parte do ser humano igualmente. Tudo o que experimentamos de bom ou ruim contribui para isso. Dave, um menino, ficou 4 dias em cativeiro sendo abusado por dois homens, o que ele percebeu nesses 4 dias é que precisava se livrar do que era para que pudesse fugir. Não faria sentido que Dave tivesse feito aquilo que o roteiro o estava acusando, já que somos condicionados a acreditar que ele cometeu o assassinato. Mas se traçarmos um paralelo entre os reais responsáveis e o próprio Dave, observamos algo interessante: ambos fizeram o que fizeram com a intenção de proteger alguém mais fraco. Brendan (Guiry) é apenas uma criança, apesar de seus 19 anos, o que seu irmão mais novo (Harris) fez foi protegê-lo de uma loucura.

Quando Jimmy confronta Dave pelo o que ele supostamente fez, há uma montagem paralela onde simultaneamente vemos Brendan igualmente confrontando seu irmão. Dave volta a ser um menino perante Jimmy enquanto Brendan se revela um lobo com seu irmão mais novo, a ponto de quase matar ele e seu amigo.

E no final, para dar ainda mais sentido ao título brasileiro do filme, Jimmy fala para Sean que às vezes pensa que talvez eles também tenham entrado naquele carro quando crianças, que estão presos no porão daqueles homens e que tudo aquilo que estão vivendo é apenas fruto de suas imaginações, de como seria se algum dia escapassem.

Bom, eles nunca escaparam de fato, suas vidas sempre retornam ao ponto de partida, como já foi dito, e para representar isso, no final em um desfile, vemos os dois em lados opostos. Sean faz um gesto de arma apontando para Jimmy, como se estivesse avisando que de agora em diante, depois do que ele fez com Dave, eles nunca mais poderiam estar do mesmo lado, e Jimmy apenas faz um gesto, dando a entender que não é escolha dele estar ali, é apenas uma consequência.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Adora estudar sobre montagem, fotografia e mixagem de som, mas tem dificuldades de passar isso para um texto por medo de falar bobagem. Ainda explorando essa incrível sétima arte, mas tem uma ligação mais forte com as séries de TV. Aspirante a Crítico de Cinema e a escritor de Livros que provavelmente só vão ser conhecidos por seus amigos e familiares. Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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