• Matheus P. Oliveira

Meninos Não Choram (1999)


Direção

Kimberly Peirce

Roteiro

Kimberly Peirce e Andy Bienen

Elenco

Hillary Swank, Chloë Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendam Sexton III, Lecy Goranson, Alison Folland, Jeannetta Arnette e Matt McGrath

Data de Lançamento

2 de Setembro de 1999

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

"O solitário sol do Texas estava se pondo

E no retrovisor eu o vi ir embora

Eu ainda posso ver o vento do seu cabelo dourado

Fecho meus olhos por um momento, eu ainda estou lá [...]"

O trecho acima não é só um poema, nem é apenas o início da belíssima canção "The Bluest Eyes in Texas", mas é também algo onisciente (e profético), que pertence à cena mais poderosa de Meninos Não Choram; ou mais do que isso, a canção é como se fosse uma "cigana" que lê as mãos dos personagens, ditando seus obscuros destinos - ela é um trágico presságio. Quase todas as pessoas prestes a assistirem ao filme, o definem como uma obra "impactante", "triste", "pesada" e, na maioria das vezes, uma obra "necessária" - que é, com toda certeza, a maior de suas adjetivações. Porém, ao assisti-lo, estas definições ganham uma proporção muito maior, justamente por se tratar de um filme biográfico.

E nele, são explorados diversos temas, como por exemplo, a violência contra os LGBTs e o efeito dela, que é deixar fragilizados e impotentes qualquer um dessa comunidade - e tudo isso é tratado com a cuidadosa dosagem de Kimberly Peirce. Pois bem, assim é a situação do protagonista Brandon Teena (Swank), que é transexual; e sua vida, em decorrência disso, complica-se ao se envolver com sujeitos cujas índoles são duvidosas desde suas primeiras aparições, são eles: John Lotter (Sarsgaard) e Tom Nissen (Sexton III), que claramente possuem atitudes homofóbicas, machistas, misóginas e até violentas. Há, inclusive, uma outra pessoa que é apresentada no filme depois de John e Tom, que representará o "gatilho" da narrativa. Ela se chama Lana Tisdel (Sevigny), e será a alma gêmea de Brandon e a responsável por transformar o filme, como o crítico Roger Ebert disse, numa "tragédia romântica" à maneira de Romeu e Julieta.

Porém, para que tudo fique mais claro, esses três personagens ficarão para logo mais, porque antes é preciso esclarecer como Brandon acabou os conhecendo. Vamos, pois, aos antecedentes:

Brandon Teena mora com seu primo Lonny Brandon (McGrath) em Nebraska. Nessa cidade, Brandon leva uma vida sociável, vestindo-se bem (na maioria das vezes como um cowboy), namorando várias garotas e cometendo uns e outros delitos. Até que num certo dia, um grupo descobre a verdade sobre sua transexualidade, e o repudiam (nesse momento, sentimos a hostilidade do filme); Brandon, por isso e pelos delitos, retira-se daquela cidade e pega a estrada. Horas depois, no balcão de um bar, ele aparece bebendo e fumando, e acaba conhecendo Candance (Goranson) - personagem-ponte que liga Brandon àqueles três personagens. Mesmo que indiretamente, é triste saber que ao conhecê-la, Brandon assinou sua sentença de morte.

E no início de Meninos Não Choram, há um detalhe curioso:

Poucos segundos após seu começo, ele já consegue moldar o clima agridoce e melancólico onde andaremos posteriormente. O longa começa com uma música "radical", servindo como trilha musical para uma cena onde Brandon dirige um carro (uma poderosa metáfora que descreve o enorme perigo que ele corre), depois, vemos seus olhos enigmáticos no retrovisor revelando sua vida dupla; logo após esta cena, Brandon aparece contemplando o seu novo corte de cabelo feito por seu primo, e conseguinte, Brandon vai a uma pista de patinação se encontrar com uma garota. Há, nesta cena, sensualidade e um romance, junto de uma música agradável, e Brandon fica feliz. Só que depois desse momento, até o último nome que figura nos créditos iniciais ("dirigido por Kimberly Peirce") junto de um trovão, tudo muda drasticamente. E é nesta breve "premissa" onde compreendemos o que virá nos próximos 118 minutos, tal como Paul Thomas Anderson o fez em Magnólia (1999).

Enfim, aos três:

E Brandon, como era de se esperar, torna-se amigo de John e Tom, justamente por eles serem amigos da amável Candance. E já sabido por notícias e pelo próprio documentário The Brandon Teena Story (1998), os dois primeiros matam Brandon (fato irreversível e, por isso, doloroso). No entanto, o ato homicida não acontece por acaso, e a força motriz disto é Lana, que com seus cabelos dourados e olhos azuis penetrantes tem sua primeira aparição em menos de 15 minutos, desencadeando com leveza os eventos futuros do filme. Ela se apaixona por Brandon; e Brandon, por ela.

Mas ora, por que ela seria a força motriz de um homicídio? É simples. John Lotter, visivelmente um sociopata, manteve antes um romance com Lana Tisdel, e os resquícios desse "envolvimento" ainda existem - e existem no momento em que Brandon e ela se apaixonam. Agora, somando-se o fato de John ser um ex-detento, possuindo inúmeras e péssimas qualidades (como foram citadas antes), e ter namorado uma menina que futuramente será namorada de um transgênero, podemos deduzir os motivos que o levarão a assassinar Brandon (a situação ainda é mais complexa do que isso). Falando grosseiramente, John e Tom são o que chamamos de "caipiras" do meio-oeste estadunidense, portanto seus hábitos e preconceitos podem se encaixar num visível estereótipo. O ciúme de John, é claro, seria a primeira faísca do pavio - e como ele está perdendo sua garota, qual será sua primeira reação? Investigar a vida de Brandon.

E como eu havia dito antes, há inúmeros temas em Meninos Não Choram, mas todos circundam um que é central e fundamental: o amor proibido entre Brandon e Lana, que será a Crise da narrativa; o jeito enxerido que John passa a adotar, trará as complicações e o desconforto do espectador. John vira um empecilho.

Incansáveis vezes, tanto na peça Romeu e Julieta quanto nos filmes originados dela, víamos o destino trágico dos jovens Romeu Montéquio e Julieta Capuleto escrito nas estrelas. Na peça, quanto mais pessoas se opunham à união do casal, mais forte ficava a paixão dos dois; no filme é a mesma coisa, apenas com a diferença de que o próprio ambiente já é uma oposição em potencial, por sua hostilidade e ausência de humanidade. Dessa forma, já podemos ver o destino de Lana Tisdel em seu olhar lúgubre enquanto canta "The Bluest Eyes in Texas" e o de Brandon Teena em seu olhar de contemplação e paixão ao vê-la e ouvi-la cantar.

Ou seja, é como se Meninos Não Choram fosse a versão moderna de Romeu e Julieta, mas sem a clássica rivalidade entre as famílias Montéquio e Capuleto, que comparado às oposições da "tragédia romântica de Kimberly Peirce", transforma-se em poeira, pois aqui, há problemas muito mais graves e profundos, como a ignorância e o preconceito.

E desse modo, o filme acaba se tornando cálido e brutal, e a sua imortalidade vai se sustentando, respectivamente, em lindos e dolorosos momentos.

Remetendo-me a uma parte específica do filme, onde há uma tentativa de fuga, Brandon e Lana arrumam algumas bolsas para sair de Falls City (cidade onde todo o longa se passa), e nesse momento, Brandon (e nós) capta no olhar de Lana, sentimentos de dúvida e medo; agora vejam bem, apesar de serem especulações, esses sentimentos podem ser comprovados se tivermos no inconsciente o seguinte: "Eles não sairão de Falls City, e se eu tenho a impressão de que vai acontecer algo muito ruim, eles também tem."

"Uma música triste sobre um espírito que tentou voar um pouco perto da chama", assim Ebert descreveu o filme - e não poderia tê-lo descrito melhor, pois é este o significado dessa obra. E aliás, eu completo, Meninos Não Choram é aquela falsa calmaria que antecede a tempestade, que derruba casas e árvores como se fossem nada. Ele é cruel e belo; cruel porque constrói a química do casal com tamanha naturalidade que nos tornamos incapazes de imaginá-los longe um do outro (como se nós enamorássemos Brandon e Lana), e de repente, o filme arranca tudo isso de nós; mas, felizmente, existe o belo, e o belo é pensar que eles se amarão para sempre, mesmo que seja apenas nas lembranças de Lana - ou também no momento em que eles se conheceram, como no bar ao som da melodia apaixonada de Tuesday's Gone, enquanto Lana, passando por Brandon, expõe sua primeira fala no filme: "Quem é você?" Momento de pura beleza, pois Brandon mudará a vida dela. Não sei vocês, mas assistindo a este filme pela segunda vez, é possível notar nele, novas sensações com significados de níveis "metafísicos", como sons psicodélicos e a sensação de proximidade para com a Morte (igual quando um detetive volta para a cena do crime). A primeira vez ao assistir Meninos Não Choram significa, basicamente, trilhar um caminho que irá machucar; a segunda, é revisitar este mesmo caminho para encontrar conforto no amor de Brandon e Lana e, principalmente, aprender grandes lições que há nele e no filme. O sofrimento ao assisti-lo novamente, permanece. E a cena em que Lana canta "The Bluest Eyes in Texas", além de ser melancólica, representa uma antecipada despedida ("e no retrovisor eu o vi ir embora"), porque nela, ao olharmos com atenção, existe um clima de luto infestando o ambiente (como a blusa preta de Lana). A canção, nesse caso, é cantada para Brandon e, ironicamente, ouvida por John e Tom, aqueles que irão lhe matar (na cena em questão, os três estão numa mesa, e Lana está num pequeno palco). E por fim, com aquele sentimento misterioso que surge no coração, como intuição de mãe, percebemos que Brandon e Lana não serão felizes.

Sobre o Autor:

​​​​

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspiração o crítico Roger Ebert e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

Twitter: mathp_oliveira

Instagram: mathp_oliveira

#BoysDontCry #KimberlyPeirce