• Leandro A. de Sousa

Crítica | As Duas Irenes (2017)


Direção e Roteiro

Fábio Meira

Elenco

Priscila Bittencourt, Isabela Torres, Marco Ricca, Inês Peixoto, Susana Ribeiro, Maju Souza e Teuda Bara.

Data de Lançamento

14 de Setembro de 2017

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

 

O Cinema, em seu estado mais puro, tem a capacidade de estudar a natureza humana de uma forma profunda e delicada. Quando assistimos a um filme, não só estamos presenciando atuações de pessoas que leram um papel e decoraram algumas palavras, estamos vendo a vida sendo gerada. Mais do que isso, muitas vezes, presenciamos nossas próprias vidas. Roger Ebert uma vez disse: "Os filmes são como uma máquina que gera empatia, pois permitem que você entenda um pouco mais sobre diferentes anseios, aspirações, sonhos e medos". Não que a estória de Irene de Mirinha (Bittencourt) se pareça com a minha em sua totalidade, mas após refletir sobre o filme, vemos como ele fala sobre nossas vidas em várias fases e em vários aspectos. Afinal, Irene é apenas uma garota de 13 anos que está descobrindo a si mesma e está lidando com as mudanças de seu corpo, tendo ainda que encarar o fato de que seu pai, Tonicco (Ricca), tem uma segunda família, e que ela tem uma irmã, também chamada Irene (Torres), só que essa, é a Irene de Neuza. A situação familiar de As Duas Irenes é simples, pois vemos como ela é comum em vários lares brasileiros. Para Irene de Mirinha, é notável a tortura que é se sentar todos os dias na mesa e ter que escutar sua mãe, Mirinha (Ribeiro) conversar sobre vestidos e outros assuntos banais de "garotas" com a sua irmã mais velha, Solange (Souza). É interessante considerar o carinho da garota por seu pai, pois ao mesmo tempo, há uma certa distância entre ambos, que define bem o interesse da garota pela vida secreta do homem. O que nos leva a narrativa do filme, que com um caráter elíptico, dá a entender que desde o início a garota já sabia da situação de seu pai.

Enquanto isso, para a Irene de Neuza, as coisas fluem de forma mais simples, é como se, apesar de ter a mesma idade da Irene de Mirinha, ela fosse mais velha, pois já namorava, saía com os amigos e ainda tinha um bom relacionamento com os seus pais, incluindo sua mãe. Quando ambas se encontram, a amizade surge em pouco tempo, pois no fim, uma completa a outra, justamente por serem o oposto. (sim, eu sei que isso soa como um clichê barato, mas no contexto de uma adolescente insegura e tímida, faz mais do que sentido).

Não há um clima de superioridade entre às duas, o que leva a uma amizade igualitária, apesar de suas diferenças em quase todos os aspectos, ambas tentam se ajudar, principalmente se tratando Irene de Neuza para com Irene de Mirinha. Novamente, o cinema se torna um lugar de evolução de personagens. Assim como em O Filme da Minha Vida, em As Duas Irenes, um pequeno cinema local tem uma função que é estabelecer as mudanças para as duas garotas. É nele onde as duas se tornam amigas; é nele onde Irene de Neuza conhece pela primeira vez, a decepção amorosa; é nele onde Irene de Mirinha dá seu primeiro beijo.

A união das garotas vem por meio da necessidade de Irene de Mirinha ter uma referência do que era ser uma adolescente. No filme, não fica clara a localização ou a época na qual o filme se passa. Pode-se apenas presumir que fica em uma cidade do interior do Centro-Oeste brasileiro, entre os anos 80/90. Sendo assim, observa-se que Irene de Mirinha, sem acesso a informação e sem amigos, se torna uma garota tímida e insegura, e com a repreensão constante de sua mãe diante de suas atitudes, se aflora uma rebeldia nada mais do que defensiva. Em Irene de Neuza, mais serena e mais firme de si mesma, além de ter o corpo mais desenvolvido do que ela - embora tenham a mesma idade -, ela vê a chance de, além de uma amizade, experimentar coisas as quais seriam inviáveis estando em sua casa. Além disso, o pai dela, se demonstra superprotetor, chegando ao ponto de proibir a garota de pintar as unhas em certo momento.

E Fábio Meira nos apresenta um conceito social interessante, demonstrando habilidade em conduzir a semiótica da narrativa, colocando no filme um clima doce, com cenas belíssimas que nos instigam a desvendar seu real significado - apesar de que, tentar explicar a arte, é um exercício de futilidade, então apenas podemos interpretá-la. Os enquadramentos em folhas de árvores, as quais algumas são mais verdes do que outras, contudo, estão no mesmo galho, ilustra perfeitamente o estado das Irenes: apesar de pertencerem à mesma família e terem a mesma idade, uma é mais madura do que a outra; além dos tracking shot com as duas andando de bicicleta pela estrada. Nos primeiros momentos, é Irene de Mirinha que conduz a bicicleta, pois é como se ela ainda tivesse que aprender a carregar e andar ao lado da própria irmã.

Além disso, Fábio estabelece muito bem o conceito do patriarcado. O pai com duas famílias engana suas esposas e ainda assim sente que tem a responsabilidade de mandar e desmandar, manifestando, como elucidei anteriormente, uma superproteção para com as suas filhas - curiosamente, isso não se estende à Irene de Neuza, o que pode significar, que o tratamento do pai com suas filhas, anda de acordo com a personalidade das respectivas mães. A necessidade que Irene de Mirinha tem de chamar a atenção, acaba por criar confrontos entre ela e o seu pai, como se estivesse chantageando o homem, causando uma perturbação no local, tal perturbação é representada pelo gato andando no telhado; nos primeiros momentos do filme e na metade, parece acontecer sempre para nos lembrarmos de algo oculto (a outra família), já que só ouvimos o barulho do animal, além de acontecer sempre durante as refeições, com a família reunida; e é irônico como Mirinha (a mãe) é sempre a primeira a se incomodar, dizendo que vai pedir para que se compre veneno para matar o gato.

(É curioso imaginar como Tonico chegou até aquela situação, traindo suas esposas e dando o mesmo nome para as duas filhas [combinemos que não foi a decisão mais inteligente, mas cria-se uma situação ao mesmo tempo divertida e bonita de se ver]. O que posso imaginar apenas, é que o encontro de ambas foi como uma punição para ele.)

No final, o gato é morto, sendo assim, o oculto era revelado. Na primeira cena do filme, vemos um plano fechado com ângulo de nuca em Irene de Mirinha; cortando para um plano-detalhe, vemos uma pedra na mão da garota e em seguida ela joga o objeto em uma janela, a de Neuza. No final, temos uma cena parecida, mas com Irene de Neuza. O filme não tem como objetivo demonstrar revolta por parte das duas diante ao fato do pai trair suas mães (apesar de existir, à primeira vista, tal sentimento), a questão é simples, por isso não temos uma cena que mostre a grande revelação para as famílias. Vemos as duas trocando de lugar, por um motivo simples: agora ambas eram iguais - por isso vemos o mesmo tracking shot da bicicleta, mas com Irene de Neuza carregando a meia irmã dessa vez.

E a última cena (que compete com Operação Cupido), não poderia ser mais simples e ao mesmo tempo mais bela e inteligente, alavancando Fábio Meira a um novo nível como Diretor e Roteirista. Agora, já não eram mais Duas Irenes, eram apenas uma, e que as famílias se virassem para resolver isso, pois elas já estavam resolvidas de si.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito a Sétima Arte quanto a escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

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