• Leandro A. de Sousa

Crítica | Blade Runner 2049 (2017)


Direção

Denis Villeneuve

Roteiro

Hampton Fancher e Michael Green

Elenco

Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Ana de Armas, Robin Wright, Dave Batista, Mackenzie Davis, Sylvia Hoeks, Carla Juri, Barkhad Abdi, Lennie James, Edward James Olmos, David Dastmalchian, Hiam Abbass e David Benson.

Data de Lançamento

05 de Outubro de 2017 (Brasil)

06 de Outubro de 2017 (Exterior)

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

É notável que Blade Runner 2049 comece com um plano detalhe no olho de K (Gosling), enfatizando o azulado forte de sua íris. Em Blade Runner (1982) um dos detalhes que nos ajudavam a distinguir os Replicantes dos humanos eram os olhos; os Replicantes muitas vezes ficavam com um brilho vermelho nos olhos, isso incluindo animais, como uma coruja Replicante. A diferença entre esse detalhe de ambos os filmes é o fato de que, em Blade Runner 2049 desde o início nos fica claro que K é um Replicante - além de ser uma versão mais moderna dos androides, criado pela corporação Wallace. E isso se reflete na atuação de Gosling, que inexpressivo até certo ponto da trama, pouco conversa com o espectador, todavia, apresenta uma complexidade, que apesar de frio, possui conflitos internos acarretando em uma personalidade multidimensional que guia toda a narrativa, onde aos poucos vamos desvendando o que Riddley Scott deixou aberto em 82.

Apesar de ser uma continuação direta 30 anos depois dos eventos que levaram Blade Runner (1982), a nova versão em nada perde a essência de seu predecessor. Como diretor talentoso e inteligente que é, Villeneuve emprega uma Direção própria, mas não se distanciando daquilo que Scott havia feito, nos apresentando novos biomas além da Los Angeles cyberpunk de Neon que conhecemos, cheia de logomarcas - até de empresas que, em nosso tempo atual, já não são tão famosas, como Atari, indicando a continuidade daquele universo que conhecemos pela primeira vez há 35 anos. O filme explora bem a ideia da dominação corporativista nas metrópoles, algo que foi maravilhosamente bem feito no primeiro. Sentimos o fedor, o aperto e os pingos de chuva em nossos rostos, é como se Los Angeles há muito não visse o Sol e estivesse em um estágio avançado de câncer. E a estória ainda nos fascina pela gama de questões existenciais que aborda, e apesar de alguns tropeços (irrelevantes), Blade Runner 2049 é uma continuação mais do que digna do clássico, ao final da projeção, percebemos como ela se faz necessária.

E digo isso sem querer menosprezar o desfecho do original, que apesar de ter deixado alguns pontos a serem esclarecidas, se sustentava perfeitamente sozinho, tendo moldado o Cinema de ficção das 3 décadas seguintes. Sendo assim, os Roteiristas Fancher e Green além de esclarecerem algumas questões em aberto - como o destino de Deckard (Ford) e Rachael (Young) -, contam sua própria visão sobre o futuro distópico de Blade Runner, agora falando sobre um passo evolutivo dos próprios Replicantes, no qual é descoberto que uma Replicante Fêmea foi capaz de dar à luz. Tal Replicante é Rachael, que terminou o filme original fugindo com Deckard, além de ter levantado a questão sobre a humanidade dele (outra questão esclarecida pelo longa). O que aliás, me leva a um ponto crucial sobre toda a mitologia de Blade Runner 2049, que aborda assuntos fundamentais desse universo, provenientes de seu antecessor e que inspirou obras como Ghost in the Shell e Matrix: afinal, o que nos torna humanos? O que são nossas memórias?

Em uma cena específica de Blade Runner 2049, K questiona sua chefe (Wright) sobre ter que matar a criança que nascera de Rachael, pois apesar do bebê ser um Replicante por consequência, era um ser nascido, logo possuía alma. Assim como Deckard, K não questiona o fato de ter que matar outros Replicantes, mas note a ironia, Deckard não tinha noção de que era um Replicante, então não podia sentir culpa diante da ação de "aposentar" pessoas de sua própria espécie; em contrapartida, K tem consciência de que é um Replicante, e aceita perfeitamente suas ações. Além disso, Blade Runner 2049 apresenta um contraponto em relação ao primeiro semelhante a esse apresentado. Rachael tinha certeza de que era humana no início de Blade Runner, enquanto em um certo ponto da trama de Blade Runner 2049, K descobre pistas em suas memórias que o levam a acreditar ser o filho de Rachael com Deckard, tornando-o de certa forma, humano.

Apesar de soar contraditório o que eu disse no último parágrafo, a verdade é que o filme aborda a relatividade do que é ser humano. Em 82, o Replicante Roy (Hauer) nos questionou sobre quem eram os verdadeiros vilões do filme; afinal, os Replicantes estavam lutando por suas vidas e pela dignidade de sua espécie. Isso, por si só, já os tornava humanos, pois haviam sentimentos legítimos pousados neles, principalmente o medo, e Roy deixa claro como era terrível viver dessa forma. Mesmo tendo sido criados por nós, eles não emulam sentimentos. E por mais que as lembranças sejam apenas implantes criadas em laboratório, elas lhes pertencem, e eles reagem a essas lembranças, assim como em nós, essas lembranças não são imutáveis, elas se atrofiam, ganham novas formas e muitas vezes, desaparecem. Em alguns casos, elas são reais, mas apenas aconteceram para outra pessoa.

E é claro que existe o medo diante de todos esses fatos pelos humanos daquele universo, não à toa a personagem de Wright deixa claro que se tudo isso viesse a público, poderia acabar em guerra. É natural que tenhamos medo que alguém melhor e mais forte tome nosso lugar, e os Replicantes nada mais são do que um ser evoluído que vem do próprio ser humano, criados e gerados por nós. Para que esse medo se concretize, temos o vilão Wallace (Leto), disposto a encontrar a criança Replicante nascida, para que pudesse reproduzir tal feito, gerando Replicantes em massa. Isso vai de encontro à subtrama, pouco desenvolvida e que só é apresentada no final onde conhecemos Replicantes que estão organizando uma revolução.

Blade Runner 2049 se desenvolve de forma lenta - lenta, não arrastada -, seu ritmo faz jus ao seu original. Além dessa subtrama que citei no parágrafo anterior, somos apresentadas a outras que envolvem um holograma chamada Joi (Armas), que é a suposta namorada de K e que serve perfeitamente como um recurso narrativo para a evolução do personagem, principalmente diante da possibilidade de ele ser o Replicante nascido. Com K, indo atrás de respostas, acabamos por encontrar um Deckard envelhecido e solitário, em uma Las Vegas tomada pelo deserto, clima esse corroborado pela fotografia amarelada e poeirenta feita com maestria por Roger Deakins, onde novamente, demonstra um lugar desconhecido e hostil, o fato é que temos a impressão de estarmos dentro da tempestade de areia de Mad Max: Estrada da Fúria. K, assim como Dekard, é vigoroso em seu trabalho, quando ambos se encontram, é como se dois cabeças de vento que só sabem bater e atirar se confrontassem, e no fim, tudo acaba com uma dose de uísque no bar.

Mas eu não me atreveria a dizer que o roteiro de Blade Runner 2049 tornou Deckard um personagem unidimensional que só sabe beber e lamentar. Depois de tudo o que passou, é natural que ele esteja sempre na defensiva, ainda mais agora que passou de caçador, para a caça. No final, vemos como ele ainda tem esse vigor o qual citei, refletido em K, que mesmo com todas a expectativas contra ele, consegue ir salvá-lo.

Talvez o grande pecado de Blade Runner 2049 seja o fato de pouco explorar seu vilão, tornando Luv (Hoeks) a maior ameaça do longa. O filme faz dela um modelo perfeito para ser usado no próximo filme de James Bond como o capanga indestrutível - detalhe que no último 007 Dave Batista fez esse papel, e em Blade Runner 2049 ele não dura mais do que 10 minutos. E no final, Jared Leto faz um monólogo que claramente foi inspirado em Pain - sim, aquele vilão do Naruto, que fica falando sobre conhecer a dor. Ainda assim, nas poucas vezes em que aparece, Wallace consegue passar sua hostilidade somente através de suas expressões. (Todos os créditos a Jared Leto, que conseguiria conduzir o papel com perfeição, se não fosse por esse monólogo.)

Blade Runner 2049 termina, mas sem se despedir. Em uma cena belíssima, vemos K, que após salvar Deckard das garras de Luv, o leva até sua verdadeira filha, a Dra. Ana (Juri), e se deita na escada da entrada, como se quisesse sentir a neve, a chuva, ou a lágrima no seu rosto. Apesar de não termos um monólogo grandioso e que entre para a história do Cinema como Lágrimas na Chuva, Blade Runner 2049 certamente entrará para a história, sendo muito mais do que uma lágrima na chuva, pois todos nós que tivemos o prazer de ver, mais essa obra prima de Denis Villeneuve, manteremos ela viva para as próximas gerações, seja ela de Replicantes ou humanos.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito a Sétima Arte quanto a escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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