• Matheus P. Oliveira

Crítica | Doentes de Amor (2017)


Direção

Michael Showalter

Roteiro

Emily V. Gordon & Kumail Nanjiani

Elenco

Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano, Anupam Kher, Adeel Akhtar, Bo Burnham, Zenobia Shroff, Aidy Bryant & Kurt Braunohler

Data de Lançamento

19 de Outubro de 2017 (Brasil)

20 de Outubro de 2017 (Exterior)

Nota

⭐⭐⭐

Doentes de Amor não chega nem perto de ser uma das melhores produções do ano, nem tem a intenção de sê-la; mas sobre ser uma das melhores comédias românticas do ano, talvez. Confesso que após sair de sua sessão, eu, ainda atordoado pelo efeito da enxurrada de péssimas piadas, acabei "atirando para todos os lados", isto é, disparei duras críticas a um filme que eu mal havia digerido. Comentários negativos foram ditos, mas não foram desfeitos. Mas o mais curioso é que voltando para casa, numa rara calmaria dentro do trem, eu parei para refletir sobre a bela (e imperfeita) história de amor que eu havia testemunhado naquela sessão minutos atrás, a qual eu tinha criticado duramente. 

O interessante de Doentes de Amor é o elemento crucial de sua narrativa: a doença (ou a "Grande Doente", como revela o título original, The Big Sick, que é Emily, personagem que comentarei em breve); e o fato de ser uma história real é justamente a parte mais interessante. Histórias reais são sempre emocionantes e, acima de tudo, verdadeiras, pois aconteceram e possuem um nível de dramaticidade altíssimo. É claro que Doentes de Amor não é um filme ao nível de Meninos Não Choram ou Titanic ou O Paciente Inglês, mas é relevante porque é uma história de amor, e em cada uma delas há suas particularidades que precisam ser elucidadas - e o longa de Michael Showalter, apesar de imperfeito, merece uma certa atenção. 

No filme temos Kumail Nanjiani (interpretando ele mesmo), um paquistanês que vive nos Estados Unidos. Kumail é muçulmano, mas vive no país americano com seus tradicionais hábitos, ainda que de forma um tanto distante. E logo de início notamos o seu "distanciamento" de sua cultura de berço quando o vemos num palco de Stand up e, junto disso, descobrimos sua profissão: comediante - fato que seus pais, ao descobrirem, não gostam, pois o preferem como um advogado ou médico. Sua ocupação de comediante serve, inclusive, para satirizar suas própria cultura e esteriótipos desta.

E sua cara-metade, Emily (Kazan), é uma típica americana que vive o clássico American Way of Life - ou o oposto de Kumail. Emily fez faculdade, é terapeuta, e possui pais que já identificamos como verídicos cidadãos estadunidenses por seus hábitos, costumes, etc. Quanto ao seu passado, não há nada que nos dê a oportunidade de analisá-la e, assim, aprofundar sua personalidade (há apenas uma exceção: a informação de que ela já foi casada). 

Aqui temos, então, a representação de um forte contraste: Kumail paquistanês e Emily estadunidense, diferenças abissais que os separa devido às diferenças culturais. Os dois, no entanto, se apaixonam. E o conflito, a partir daí, inicia-se, e põe Kumail entre duas alternativas: ou se entrega ao amor de Emily ou obedece à sua tradição, que é unir-se a uma mulher por casamento arranjado pelos pais. Obviamente, ele deseja escolher a primeira, mas desgarrar-se de uma cultura milenar e da pressão dos pais é um trabalho extremamente árduo. Será preciso, então, uma motivação maior para tal desistência, e é aqui que entra a "Grande Doente" (Emily). Sua doença é a motivação-mor para que Kumail firme o elo com Emily; logo, a presença de seus pais, Beth (Hunter) e Terry (Romano), são os dois tijolos que faltavam na fortificação do terreno que representa o elo entre Kumail e Emily. Agora ele tem em quem se apoiar enquanto uma doença ameaça o amor da sua vida. Desse modo, abrir o jogo para sua família não será um problema. E isso me leva a citar o único obstáculo de Kumail na trama: sua própria cultura. É este o único fator que dá um certo incremento em Doentes de Amor.

Aliás, um fato curioso no filme é que, num certo momento, os pais de Emily entram numa crise, e Emily é uma terapeuta (entendam como "terapeuta de casal"). Ou seja, Emily é o equilíbrio entre os pais, daí quando ela se recupera, seus pais recuperam-se - um excelente simbolismo, diga-se de passagem.

Agora, comparando com tudo o que foi escrito acima, isto me leva a deduzir que a quantidade numerosa de humor venenoso que o filme possui, na verdade não é do filme (ou ao menos não posso considerar que seja dele). Eu o imagino sem aquelas piadas fora de hora, onde um personagem X, por exemplo, fala algo com um tom engraçado, já suficiente para que faça alguém rir, mas aí surge aquele silêncio embaraçoso na sala da sessão, e de repente o personagem X solta mais algumas palavras segundos depois, daí todos da sessão caem na gargalhada. Isso é clássico na comédia atual, e um problema que parece ser crônico. É, acima de tudo, um vício horroroso, e se Doentes de Amor não o tivesse, seria magnífico como um todo, não apenas por sua trama romântica entre Kumail e Emily, que é cativante apesar de tudo. Além disso, em filmes desse tipo, todos os personagens parecem ser idiotas, pois é impressionante como nas piores situações eles sempre  soltam algo engraçado, independente da situação. 

Isso estraga grande parte do longa, e o assemelha à própria bactéria de Emilly que precisa ser retirada; no filme, por sua vez, o problema não é solucionável, pois a bactéria já se encontra nele em seu estágio finalizado. 

É verdade, Doentes de Amor tem mais imperfeições do que qualquer outra coisa. Mas eu ainda sim insisto em dizer que o romance dele precisa distanciar-se dos imprecisos toques de humor que o envenenam, assim ele até parece bom. E se tem algo que é certo é que em todo filme é necessário puxar para fora aquilo que é bom, como se procurássemos uma flor num enorme lixão. Seria um tanto injusto estragar o barril por algumas maçãs podres, e algumas delas, como Chris (Braunohler) e os demais personagens do Stand up, eu finjo que não existem para que não estraguem algo que já se encontra danificado.

Assim, o único desafio dele é o fato de que Kumail é muçulmano e precisa desprender-se disso, mas o que importa? Doentes de Amor prende a atenção, ainda que seja um longa amador. E apesar de não possuir as melhores performances da história do Cinema, nem os melhores timings cômicos, possui uma simpática história de amor; ainda que posta num filme de corpo e alma genéricos, dá para sentir o poder do amor entre os dois se levarmos para a vida real (ainda mais quando vemos, durante os créditos, as fotos reais do casal). E isso me leva a crer que talvez a grande doença do filme não seja a de Emily, mas dos elementos de um humor exagerado e desnecessário que rebaixam o filme e que nos subestimam. 

Publicado como parte da Cabine do Festival do Rio 2017. 

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pablo Villaça e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes. 

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