• Matheus P. Oliveira

Crítica | Thor: Ragnarok (2017)


Direção

Taika Waititi

Roteiro

Eric Pearson

Elenco

Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Karl Urban, Mark Ruffalo & Anthony Hopkins

Data de Lançamento

26 de Outubro de 2017 (Brasil)

3 de Novembro de 2017 (Exterior)

Nota

⭐⭐⭐

O Universo Cinematográfico Marvel (ou UCM), em menos de meia década, se estabeleceu como sendo uma das fontes mais lucrativas do cinema atual, e agora sobrevive pela diversidade dos nossos heróis (costumes, hábitos, culturas, etc.) e por suas relações de harmonia e atrito (por exemplo: Stark e Banner, como os homens da Ciência; e Rogers e Stark, como o antiquado e o moderno). As piadas, como a cereja do bolo, apenas solidificaram estes detalhes, e revelou-nos o universo que veríamos nos próximos anos: colorido e recheado de heróis e gracinhas. E com Thor: Ragnarok não é diferente.

Há quem diga (e é comprovado) que o último filme de uma trilogia é sempre o mais fraco e problemático, seja por questões de roteiro ou por um emblemático motivo que acaba não agradando o público. De qualquer forma, as razões são das mais diversas. O 3º pode ser sugado pela bela introdução do 1º ou ofuscado pelo conflito estonteante do 2º e, assim, acaba caindo no esquecimento ou numa "lista negra" (como entrou Homem-Aranha 3 e X-Men: O Confronto Final). No entanto, há nisso uma ressalva, que são as exceções: O Poderoso Chefão: Parte 3 e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, como as mais populares e, surpreendentemente, Thor: Ragnarok, a mais atual delas, que acaba ofuscando seus fraquíssimos antecessores, Thor e Thor: O Mundo Sombrio.

Pode-se dizer que as produções cinematográficas da Marvel, caso se "fragilizem", possuem como ajuda duas muletas fortíssimas: (1ª) Trailers bem editados, preenchidos com intensas trilhas sonoras, e produtos de todo o tipo (como os brinquedos infantis) que atraem consumidores; (2ª) O carisma pelos atores que foi conquistado pelo público (Downey Jr. é um grande exemplo) ao decorrer dos anos, e o forte marketing feito por eles próprios (um exemplo é o O Último Donut, vídeo que mostra Chris Evans e Robert Downey Jr. "brigando" por uma rosquinha, antecipando a "Guerra Civil") que dão de bandeja números altíssimos de bilheteria.

Thor (Hemsworth), que é habitualmente jogado de escanteio quando deparado com Hulk (Ruffalo) ou Homem de Ferro, não possui exclusão diferente em seus filmes solo; daí a necessidade de pôr algum vingador ao seu lado (no caso de Thor: Ragnarok, Hulk é o escolhido). A euforia e dependência que Os Vingadores causou no público ao pô-los todos em mesma tela e atmosfera foi estrondosa, e sabendo que todos os nossos heróis viviam sob o mesmo céu (com exceção de Thor), ninguém jamais admitiria vê-los separados em seus respectivos filmes; não mais, a menos que fossem citados pela boca de alguém. O senso de grupo solidificou-se e se tornou a única verdade no UCM. Se uma bomba nuclear ameaça destruir o planeta, não caberá apenas ao Homem de Ferro salvá-lo, mas também ao Hulk, Thor, Homem-Aranha, etc.

Já no panorama de Thor: Ragnarok, temos outra galáxia, falamos de distâncias imensuráveis, e o pretexto de juntar os Vingadores não se tornaria plausível sob nenhuma circunstância. O que então o Homem de Ferro faria contra Surtur e Hela (Blanchett), duas criaturas cósmicas absolutamente poderosas? Nada. Já Hulk tem seu pretexto para estar no filme, e o seu autoexílio na nave Quinjet no fim de Vingadores: Era de Ultron tornou tudo aceitável, e abriu o leque para a pergunta: "para onde foi o Incrível Hulk?"

Aliás, alguns fatores que beneficiaram Thor: Ragnarok foram suas bruscas mudanças, entre elas o tom de humor que agora é escrachado (ele enfim revelou-se como um filme à la Marvel) - detalhe que anteriormente se escondia através da seriedade de Thor, mas liberada pela jocosidade de Loki (Hiddleston); agora, o vemos até ofuscado pelo próprio Thor, aquele que achávamos careta em Os Vingadores. Outras mudanças em Thor: Ragnarok, e assim eu devo citá-las, é sua (mais que atual) elevada estilização, que agora põe músicas como The Imigrant Song para torná-lo cool (e sua introdução garante isto), fugindo da rusticidade dos dois anteriores, e lhe pondo, igualmente, um aspecto "retrô" graças a música eletrônica In The Face Of Evil, de 2015, que faz parecer os créditos finais uma cena de vídeo game dos anos 70 e 80 (esta, que afinal, foi a intenção do diretor Taika Waititi); e sobre o título do longa que aparece nos cartazes, nem se fala, respira nostalgia.

Contrastando sua "onipresença" em Manifesto, Cate Blanchett em Thor: Ragnarok, pouco espaço tem. E essa carência de espaço para Blanchett, ainda que apresentado como uma desvantagem em potencial, graças a sua sempre sublime performance, não a privou de mostrar através de seu olhar, intimidadora e fatal personalidade que Hela, a Deusa da Morte, possui. Ainda que no corpo de uma vilã fraca (mas não de força), Blanchett floresce, com sua alma de atriz, seu frequente semblante triunfal.

É incrível. Eu tento e custo entender, os filmes da Marvel sempre se mostram iguais a cada ano que passa, sempre com os mesmos defeitos e, ao mesmo tempo, jamais enjoam. Eu tirei esta conclusão hoje, ao assistir a Thor: Ragnarok. Do modo como o UCM começou, nas asas de Homem de Ferro, talvez não teria sobrevivido diante àquela aura de seriedade, nos primórdios de Tony Stark ao Universo Cinematográfico; era preciso um ar maior de comicidade que ultrapassasse o nível orgânico. Era necessário não um humor pontiagudo e subliminar, mas escrachado e jogado às cegas para nós espectadores; dessa forma, não vimos mais heróis que de vez em quando vestiam a atmosfera do longa como uma boa comédia, mas amigos que debochavam um do outro para rirmos. A jovialidade e empatia se projetaram através daqueles personagens, e compartilharam carisma conosco. Thor era um pouco antipático no início, mas foi mudando à medida que isso foi notado. Agora, com este mais novo filme, o Deus do Trovão já é um iniciado.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pablo Villaça e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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