• Leandro A. de Sousa

Crítica | Deserto (2015)


Direção

Jonás Cuarón.

Roteiro

Jonás Cuarón & Mateo Garcia.

Elenco

Gael Garcia Bernal, Jeffrey Dean Morgan, Diego Catalaño, Marco Pérez, Alondra Hidalgo, Oscar Flores, David Lorenzo e Butch McCai.

Data de Estreia

02 de Novembro de 2017 (Brasil).

15 de Abril de 2016 (Exterior).

13 de Setembro de 2015 (Festival de Toronto).

Nome Original

Desierto

Nota

⭐⭐⭐⭐

Deserto é um filme que, em sua substância, se torna mais real ao passar de sua projeção. Ao passo em que nos sentimos chocados com todas as atrocidades vistas na tela, nos sentimos incomodados ao perceber que tudo aquilo pode estar acontecendo enquanto estamos sentados na cadeira do cinema assistindo ao longa. Junte isso a uma direção que é, no mais, contemplativa, misturada a um roteiro intenso e com poucos diálogos, e tudo isso composto por Jonás Cuarón (filho de Alfonso Cuarón), que não à toa decidiu usar o deserto como seu principal elemento narrativo. Tudo isso se torna mais sombrio quando trata-se daquele que divide os EUA e o México. A narrativa se inicia com um plano super-aberto, enquanto vai amanhecendo naquela vasta imensidão; ao fundo, vemos um caminhão cruzando o quadro; e dentro do veículo, há alguns imigrantes - que tentam atravessar a fronteira para os Estados Unidos de forma ilegal. É sintomático que Cuarón inicie sua narrativa dessa forma, pois isso demonstra que, mesmo um lugar com um amanhecer tão belo, pode ser o mais sombrio para aqueles que procuram por tudo aquilo que seu país se demonstra incapaz de fornecer, não somente falando em termos materiais, mas uma vida digna em si. Nesse quesito, Deserto acaba por se distanciar de longas como Sicario, nos mostrando um conflito contido, mas que fala de uma situação de escalas enormes.

Tocando em um assunto tão delicado como imigração ilegal e que, nos tempos atuais, é tão debatido muito devido a atual gestão dos EUA, o que o longa vem a englobar é a simples e pura desigualdade entre ambos os países. Temos exemplos disso dentro do próprio grupo, onde uma mulher, Adela (Hidalgo), está tentando entrar no país acompanhada de um homem que fora contratado pelos pais da moça; não bastasse estar tentando atravessar a fronteira de forma clandestina, Adela ainda precisa enfrentar o machismo partindo desse homem que em vários momentos tenta assediá-la. Note como, em um diálogo, ela vem a revelar os motivos que levaram seus pais a enviarem ela para o Norte, que devido à alta taxa de violência, seria melhor se ela atravessasse a fronteira para tentar uma vida melhor. Isso, logicamente, viria a se tornar uma grande mentira, quando conhecemos um caçador, Sam (Dean Morgan) - cujo o nome não poderia ser mais irônico -, que começa a fazer a segurança da fronteira com as próprias mãos, acompanhado de seu pastor alemão, "carinhosamente" chamado de rastreador.

Dentro desse caminhão, também conhecemos o nosso protagonista, Moisés (Bernal) - que também não é um nome escolhido por acaso -, que viaja nesse automóvel com mais 13 pessoas em um compartimento apertado na traseira do veículo. Claro, as alusões bíblicas podem ir além, quando descobrimos que Moisés possui um filho que mora nessa "Terra Prometida", e o próprio Moisés fora deportado por desrespeitar uma lei dessa Terra. É notável que cruzar a fronteira em si, parece ser ridiculamente fácil, já que, como demonstra a montagem, o veículo não morreu muito longe da borda, pois logo os vemos atravessando. Sam vem como uma imagem muito clara do país onde esses imigrantes tentam entrar, com vários estereótipos de um sulista americano: um caçador, com uma picape e um pastor alemão (além da bandeira da confederação presa na antena do seu veículo). O personagem em si, soa como uma alegoria, para representar todo o preconceito que um imigrante (seja legal ou ilegal) tende a enfrentar no país que, segundo o próprio Sam, é essa "Terra da Liberdade". Ele diz isso logo após balear todo um grupo de pessoas como se fossem animais. Não tendo escolha, pois estão desarmados, os outros que sobreviveram precisam correr para salvar suas vidas. A partir daqui, vemos uma história de sobrevivência.

Tendo escrito um filme como Gravidade, Cuarón se demonstra excelente em trabalhar com a atmosfera de sua obra, elucidando uma capacidade de direção estética que é de encher os olhos; é possível sentir o calor e o medo que aquelas pessoas estão sentindo, e ao final da projeção nos sentimos cansados e sedentos. Conduzindo seus atores de forma brilhante diante das adversidades que estão enfrentando, Jonás estabelece perfeitamente o clima de caça e caçador. Em nenhum momento antes da resolução, há uma interação entre Sam ou qualquer uma daquelas pessoas. A direção consegue aproveitar perfeitamente o bioma com o qual está trabalhando; o deserto se torna um personagem para o desenvolvimento da trama. Temos aqui, um Thriller de sobrevivência que nos diz muito sobre ambos os países como sociedade. Há sempre a visão de que os que estão mais acima tem a permissão para subjugar os que estão abaixo, mesmo que para isso tenham que cometer atrocidades com o argumento de que estão apenas protegendo suas terras.

Todavia, Jefrey Dean Morgan consegue compor uma figura que, ao passo que é implacável no que diz respeito à caça de outros seres humanos, não demonstra um prazer real nisso, é como se ele apenas tivesse a missão de proteger o seu país, e deve cumpri-la, mesmo que tenha que sujar as mãos de sangue. Vemos isso em momentos como no qual o seu cão, rastreador, mata o primeiro imigrante, aquele que estava acompanhando Adela, e Sam olha para o corpo com uma certa pena; isso se repete no momento onde Mechas (Cataño), despenca de uma parte alta, e ao invés de permitir que Rastreador finalizasse o trabalho, Sam faz isso ele mesmo, como se não quisesse que Mechas sofresse. Isso talvez, pudesse demonstrar a humanidade do personagem, que fica exposto pelo roteiro quando em volta de uma fogueira começa a dialogar com o rastreador sobre como odeia aquele lugar, o que pode reforçar o desprazer que ele sente em fazer essa segurança na fronteira.

Apesar de conseguir cair em certos clichês - a bala que acerta todos os personagens, mas milagrosamente erra o protagonista; a solução de última hora - Deserto ainda conta com as peculiaridades de um filme desse gênero. Como eu disse anteriormente, em nenhum momento até a sua resolução, existe um diálogo entre Sam e os outros imigrantes, isso denota também a distância entre ambos os territórios no que diz respeito a cultura e os costumes. Enquanto Sam está armado com um Rifle de longa distância, os imigrantes não possuem nada além de uma mochila com alguns suprimentos. E Moisés também carrega um ursinho de seu filho, que seria a única lembrança que ele tem do garoto. E mesmo possuindo esse nome, o personagem não quer em nenhum momento ser um herói ou um líder; sua única vontade é sobreviver para ver seu filho mais uma vez, e isso fica claro quando ele precisa abandonar Adela, que ficara ferida após ser atingida de raspão por uma bala - nesse momento, vemos a solução de última hora, Moisés se sente culpado, e atrai Sam com um sinalizador.

É irônico que, quando Moisés consegue finalmente ficar por cima de Sam, este último implora pela sua vida, enquanto Moisés deixa claro como ele matou todos os outros imigrantes como se fossem animais. O único momento de interação entre eles, acaba se tornando um soco na cara de uma sociedade representada por um homem, que vem com todas as características de uma cultura imperialista. Quando o nosso protagonista volta para buscar Adela para que possam continuar a caminhada, Cuarón reforça o seu desejo de usar a caminhada dos 40 anos como uma alegoria de seu longa, abrindo um quadro com Moisés no centro enquanto atrás vemos o deserto sendo divido em dois. É interessante pensar também que, para aqueles que na vida real, buscam uma vida melhor, essa caminhada já dura muito mais do que 40 anos, e até o momento, não há nem sinal de uma Terra Prometida.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

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