• Leandro A. de Sousa

Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente (2017)


Direção

Kenneth Branagh

Roteiro

Michael Green

Elenco

Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Leslie Odom Jr., Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley, Derek Jacobi, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Olivia Colman, Tom Bateman, Manuel Garcia-Rulfo, Marwan Kenzari, Miranda Raison, Hayat Kamille & Joseph Long.

Data de Lançamento

30 de Novembro de 2017 (Brasil)

10 de Novembro de 2017 (Exterior)

Nome Original

Murder On The Orient Express

Nota

⭐⭐⭐

Nunca cheguei a ler O Assassinato no Expresso do Oriente escrito por Agatha Christie, então, talvez eu não seja a pessoa mais apropriada para escrever sobre sua adaptação - todavia o meu colega de site também não leu, então vou escrever sobre o filme de qualquer jeito. Mas antes de tudo, devo comentar que, muito me agrada como obra audiovisual a adaptação de 1974 dirigida por Sidney Lumet, na qual o diretor pesa sua mão autoral no longa, introduzindo personagens no alto de suas caricaturas, mesmo que estas não soem forçadas (assim como Howard Beale, em Rede de Intrigas, não soa). Sendo a terceira adaptação do longa - há também uma de 2001 com Alfred Molina, a qual não cheguei a assistir. Dica para os curiosos em mais adaptações do conto - Kenneth Branagh não tem muito interesse em inovar, porém, o diretor parece se divertir com o leque de possibilidades que o tipo de história a ser contada lhe dá: suas cenas em plano sequência; os ângulos visto de cima, para que dessa forma, nossa impressão geográfica do trem não seja comprometida (além de uma tentativa de preservar o mistério); e também, a forma como vemos o trem, que se torna um personagem ao passar da projeção. E Branagh junto ao roteirista Michael Green (que assina seu quarto roteiro em 2017, sendo esse o único que escreveu sozinho), compõem um Hercule Poirot (interpretado pelo próprio Branagh) carismático e minucioso, que pode por vezes lembrar o que Guy Ritchie fez em suas adaptações competentes de Sherlock Holmes

Dentro dessa monstruosidade de metal, acompanhamos Hercule, considerado o melhor detetive do mundo - inclusive por si mesmo. Apesar da tola cena de introdução do personagem no início, onde o vemos desvendando o roubo de um artefato religioso, é preciso dizer que Branagh não só trabalha o ritmo de seu filme de forma incisiva, indo direto ao ponto - o que novamente, pode ser visto de forma diferente na versão de Lumet - como também, confere coesão à sucessão de eventos de sua obra, sem jamais soar apressado ou lento demais. Tendo uma história como essa em mãos, é preciso que o terreno esteja fresco, e fazer escolhas certas para que não se caia em certas convenções, pois trabalhar com mistério, demanda certa habilidade para prender a atenção do espectador. Tais eventos, vão ocorrendo de acordo com suas linhas cronológicas para que a surpresa para os que desconhecem por completo na história, seja o fator que irá prender tal atenção. Isso fica elucidado, quando percebemos que o caso da menina Armstrong, só vem à tona na metade do segundo ato. 

Mesmo possuindo um visual e comportamento por vezes caricato, Hercule Poirot demonstra ser alguém complacente mediante o desafio que está prestes a enfrentar. Seus dilemas morais e seu carisma, facilmente despertam a empatia do espectador (é um personagem fácil de se gostar). Minucioso e com alguns toc's (que para alguns seriam frescuras, como os ovos estarem em perfeita simetria ou o cuidado com o seu bigode, chegando ao ponto de colocar um protetor para que não o bagunce na hora de dormir), Poirot é uma figura notável e de presença marcante no longa. Ao passo em que se sente obrigado a investigar o assassinato que ocorrera no trem, sente-se seguro mesmo sabendo que o assassino está entre ele - tornando todos ali suspeitos -, deixando clara sua vasta experiência em resolver casos como aquele, fazendo com que o assassinato do odioso magnata americano Ratchett (Depp) se torne um passeio no parque. Bom, ao menos ele pensa isso.

Com a narrativa se iniciando e terminando na década de 30, Michael Green confere ao seu roteiro temas atuais. Com isso, encaixa dois personagens em Leslie Odom Jr.; o que torna isso interessante, é que ambas as profissões seriam improváveis para um homem de cor nessa época - um coronel do exército e um Médico; isso vem acompanhado ao romance entre ele e a personagem de Daisy Ridley, onde descobrimos um medo da personagem em revelar esse caso aos demais passageiros, devido às leis anti-miscigenação desse tempo. Tudo isso, traz um ar jovial ao filme, ao passo em que Branagh não torna a narrativa claustrofóbica, como Sidney Lumet fez em sua adaptação. Ao levar sua história para fora da locomotiva, a ação se torna eminente, com isso, por vezes me senti assustado em tais cenas, já que o longa pode lembrar Expresso do Amanhã em determinadas cenas, portanto, é de se pensar que caso os personagens saiam do trem, eles morram congelados.

Como disse no início, é pouco evidente que o diretor tenha a intenção de inovar; o que vemos mesmo, é talvez um fã de Agatha Christie tentando contar seu ponto de vista dessa história. Branagh fez sucesso com suas adaptações de Shakespeare (vale conferir o excelente Henrique V, que está disponível na Netflix). Ele consegue por vezes trazer a essência desses personagens para a tela. É possível sentir isso em O Assassinato no Expresso do Oriente. A forma como trabalha com o mistério, é divertida ao passo em que chega a ser agoniante. Claro que, torna-se clara a vontade de desviar o foco do caso dos Armstrong, e que é possível estranhar para aqueles que somente assistiram a versão de 74, mas isso deixa a história ainda mais marcante, já que conhecemos aqueles personagens sem antes termos qualquer apego a um possível background deles. Isso não os torna, de qualquer maneira, unidimensionais. O que talvez, venha a ocorrer, é o descaso com a maioria deles, já que são pouco explorados em sua maioria. Destaco aqui, a personagem interpretada por Penélope Cruz, que só sabemos que ela é uma fanática religiosa devido a uma ou duas frases dela sobre Deus. Isso vem a acarretar também, na pouca atenção aos interrogatórios que eram o grande atrativo na versão de Lumet. Contudo, o mistério começa a vir à tona de forma mais natural, sendo assim, Branagh consegue criar um Hercule Poirot mais interessante do que Albert Finney, pois, por mais que se sinta seguro em relação ao caso, vemos como ele também corre perigo estando ali. E tudo isso vem a desafiar seu próprio senso de moral. 

Ao final, quando descobrimos as motivações que cada um daqueles personagens tem para matar Ratchet, isso fica nítido. Mesmo que o homem merecesse esse destino, a moralidade do detetive não permitia que o culpado ficasse em pune. Ainda assim, a justiça muitas vezes pode ter um gosto tão amargo quanto o crime. É difícil não querermos que o autor de um delito tão perverso não sofra daquela forma. Contudo, para Poirot, o culpado deveria ser punido, mesmo que fossem todos culpados; e para precipitar o desfecho daquela história - ou como Sra. Hubbard (Pfeiffer) gostaria que fosse - Branagh faz um enquadramento em alusão à Última Ceia, justamente com Sra. Hubbard no meio, já que mais tarde, esta pediria para que fosse a única culpada do crime. 

E Poirot, por mais que quisesse, não poderia levar todas aquelas pessoas para a cruz, pois se o mesmo acreditava piamente em justiça, também acreditava na recuperação de um criminoso (ou criminosos no caso). Era evidente que o que aquelas pessoas fizeram, não foi com a intenção de machucar ou destruir uma vida, foi puramente por justiça. O problema é que, para Hercule, a justiça ainda não estava feita, e aquilo, que seria um passeio no parque para o maior detetive vivo, se torna agoniante quando resolve escolher trair seus próprios ideais por um bem maior. Desta forma, ele deveria ir mais longe para encontrar a justiça que tanto almeja. Quem sabe no Egito.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

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