• Leandro A. de Sousa

Crítica | Extraordinário (2017)


Direção

Stephen Chbosky

Roteiro

Steven Conrad, Jack Thorne & Stephen Chbosky

Elenco

Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Steve Bacic, Sônia Braga, Ali Liebert, Rachel Hayward, Danielle Rose Russell, Millie Davis, Nadji Jeter, Kylie Harrison Breitkopf & Brice Gheisar

Data de Lançamento

07 de Dezembro de 2017 (Brasil)

17 de Novembro de 2017 (Exterior)

Nome Original

Wonder

Nota

⭐⭐⭐⭐

Nunca é fácil tocar em assuntos delicados. Ou mais do que isso: falar de tais assuntos quando sequer conhecemos alguém que tenha passado por eles. Com isso, acaba por ser inevitável não repetir a frase de Ebert, pois quando assistimos a um filme que toca em assuntos de forma não só respeitosa, mas também sensível, é possível sentir uma parcela da dor de pessoas que passam por isso na vida real - nesse momento, o cinema se transforma em uma máquina de empatia. Isso me leva a entender o que Stephen Chbosky quis nos fazer sentir quando dirigiu seu primeiro longa, As Vantagens de Ser Invisível. Charlie é um fator no filme, aquele que permite uma mudança crucial nas vidas de Sam e Patrick, pois estes são o ponto central da trama; por mais que eles sejam coadjuvantes, eles são os que mais mudam ao longo da projeção graças ao protagonista. Os desafios desses dois, oscilam entre Sam ser vista e se ver como uma mera 'vadia' e Patrick lidar com um amor proibido e com a homofobia. Ao final, ambos entendem suas complexidades, assim como Charlie entende seu próprio 'eu' e suas nuances se tornam mais claras para o próprio. No final de tudo, todos nós temos alguém que vem para nos mudar em todos os nossos aspectos.

Dito isso, é revelador que Chbosky resolva adaptar Extraordinário, que conta a história de August (Tremblay), um garoto de apenas 10 anos que, por ter nascido com uma deformação facial e ter passado por diversas cirurgias para tentar amenizar sua aparência, nunca foi à escola. Ao iniciar sua narrativa com a voz do pequeno - porém extremamente talentoso - Jacob Tremblay, fica clara a maturidade na voz do ator; aquela criança que conhecemos em O Quarto de Jack, como alguém que possuía a mais pura inocência devido ao fato de não fazer ideia do que seria o mundo real, é substituída aqui por um garoto adepto de ciências; que possui uma inteligência ímpar para sua idade; além de uma personalidade forte, que vem acompanhada de uma timidez que é resultado do medo que o mesmo tem do mundo exterior; aquele que o rapaz tenta fugir dentro de seu capacete de astronauta, objeto que vem para ilustrar sua vontade de ir para longe, onde seria bem aceito. E seu apego por personagens da cultura popular, vem como um mecanismo de defesa quando o mesmo é obrigado a ir para escola - o Chewbacca representar algo que o pequeno também acharia anormal é genial, diga-se de passagem. Auggie (como é chamado na maior parte da projeção) busca refúgio na maior virtude de qualquer criança de sua idade: sua imaginação.

Poderia até ser irônico dizer que é possível nos identificar com a história de Auggie. Todavia, caso o filme não conseguisse cumprir esse papel, ele seria falho e totalmente descartável. A maioria de nós, somos privilegiados por termos nascidos em perfeitas condições (claro que isso não se aplica a todos), ainda assim, cenas como aquela após o primeiro dia de aula, são capazes de evocar lembranças da época de escola para os que sofreram com o mal do Bullying. Na cena, Auggie pergunta para sua mãe, Isabel (Roberts), se isso algum dia irá passar, e a mãe se limita a um "Eu não sei...". Essa certamente é uma pergunta que fizemos diversas vezes ao longo de nossas vidas; para Auggie, o significado é ainda maior, pois a resposta é dolorosamente negativa, já que o preconceito devido a sua aparência sempre vai existir.

Para justificar o motivo de eu ter trago à luz o primeiro filme de Chbosky mesmo ele tendo um tema completamente diferente de seu mais novo longa, é preciso que falemos do cuidado com o qual o roteiro tem com os seus coadjuvantes, já que estes não são meras pontes narrativas para facilitar o desenvolvimento de Auggie dentro do filme. Somos capazes de entender seus medos e anseios; entendemos de forma mais precisa o fato de Auggie ser um fator determinante na mudança dessas pessoas. Nesse meio, sua irmã, Via (Vidovic), se destaca, por parecer estar inerte até o momento em relação a essas mudanças. Ela ama seu irmão, claro, mas também parece não se importar com a falta de atenção e carinho que seus pais a negligenciam.

Em Via é pousado um grande peso. Não só por ser a irmã mais velha, mas por precisar demonstrar a compreensão que nenhum adolescente de 16 anos possui. Isso vem acompanhado da perda de sua amizade com sua melhor amiga, que também, a revela a dura verdade da adolescência que muitos não querem aceitar: muitas amizades dessa época serão perdidas. Afinal, esta é a fase de maior mudança para qualquer ser humano, ao passo em que é onde ocorre as grandes cobranças, que parecem ser monstruosas. Todos esses fatores levam Via a se refugiar em suas memórias afetivas com sua Avó (Braga), que apesar de ser uma cena tola, não é completamente descartável, pois nos ajuda a compreender melhor todo o processo que o nascimento de seu irmão causou. É nítido que a compreensão da garota não denota maturidade, mas indiferença; e quando Via coloca tudo para fora, a sensação que temos é que a garota quer explodir em lágrimas - mas isso é devido a própria Izabela Vidovic, que parece não se distanciar muito de um semblante de choro na maior parte do filme.

Porém, tal indiferença, não pertence a uma criança como Auggie, que assim como Via, conhece a dor de perder alguém que parecia ser um amigo de verdade. Ao fazer amizade com Jack Will (Jupe), Auggie parecia ter atingido um novo nível de sua vida. Se antes o garoto demonstrava ter como refúgio somente sua imaginação, seu amor por ciências e seu capacete de astronauta, agora ele tinha um amigo que, por mais que o decepcionasse em certo ponto da trama, Jack Will nos mostra algo que é o grande ponto da narrativa, onde a amizade na infância, pode ser muito mais madura e real do que em outra fases; sujeita a tropeços sim, como as maldades que o próprio Jack fala de Auggie pelas costas, mas sempre disposta a um perdão. Isso é auxiliado, pela vontade que temos de defender nossos amigos, de pequenos monstros que são apenas reflexos de uma criação monstruosa, como Julian (Gheisar), o garoto responsável pelo bullying que Auggie sofre na escola.

É uma pena que a chegada do terceiro ato venha a desviar o foco da beleza incidente de Extraordinário. Ao revelar um caráter episódico, o filme passa a tornar sua narrativa maçante. Quando sentimos uma resolução natural para o longa, os roteiristas parecem querer facilitar a sua mensagem para o espectador, levando Auggie a um acampamento e fazendo com que garotos mais velhos tentem bater nele, acarretando em uma briga entre eles, Jack Will, Auggie e os até então seguidores de Julian. O desfoco do restante da narrativa acaba fazendo com que o filme pareça inchado.

A verdade é que, assim que saí da sessão de Extraordinário, eu não havia gostado do filme; parecia-me melodramático demais e muito irreal. Porém, algumas obras levam tempo para serem digeridas, o gosto pode parecer amargo no começo, mas ao fim, o nosso paladar consegue identificar o doce dele. Não é um filme que eu vá lembrar com tanto carinho quanto As Vantagens de Ser Invisível, mas Extraordinário nos ensina lições tão valiosas quanto este. Ao final, quando Auggie é aplaudido de pé, toda aquela plateia que até então parecia ser imutável, se entrega a toda essa mudança que uma pequena criança é capaz de provocar. E assim como Auggie, todos aqueles que sofrem simplesmente pelo que são, não só merecem, mas devem ser aplaudidos de pé.

Todos nós devemos.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

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