• Matheus P. Oliveira

Crítica | O Medo Consome a Alma (1974)


Direção & Roteiro

Rainer Werner Fassbinder

Elenco

Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Irm Hermann, Rainer W. Fassbinder, Barbara Valentin, Elma Karlowa, Lilo Pempeit & Walter, Sedlmayr

Data de Lançamento

1974 

Nome Original

Angst essen Seele auf

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

"Me apaixonei por um marroquino, talvez 20 anos mais jovem do que eu"

Estas palavras são ditas por Emmi (a protagonista) num momento fugaz do filme, e expressas com paixão e receio igualados. A sua frente estão sua filha e seu genro, que a olham com deboche, pois acham a declaração um tipo de zombaria. A alma do filme é esta cena.

Viúva de um polonês, reservada e já idosa, Emmi Kurowski é faxineira de um prédio e aparenta ter uma vida morta (e como prova disso, Fassbinder nem faz questão de apresentá-la em casa; em vez disso, a introduz em um bar no meio da noite, como um andarilho que abre a primeira porta que encontra). Logo de início, surge uma discreta química entre ela e o marroquino Ali, que resolve chamá-la para uma dança (introspectiva apesar de tudo, mas preenchida por um toque casual). Isto, parcialmente, põe fim à monotonia da vida amorosa de Emmi, mas não à rotina (o que, aos poucos, será sua vida amorosa). O cenário dos primeiros minutos é um bar jovial, acompanhado de uma música sensorial; há charme, há vida, mas tudo nele é muito tímido. Em volta do casal, algumas pessoas os observam com desdém, e neste momento, sabemos o que circundará todo o filme: o desprezo motivado pela inveja. Apaixonados, Emmi e Ali começam a namorar; e em seguida, se casam. É disso que debocharam Krista e Eugen, respectivamente, filha e genro de Emmi. 

É simples entender o problema do casal e, assim, entender a reação de Krista e Eugen: Emmi é viúva, e uma antiquada visão sugere que viúvas não devem, jamais, relacionar-se com outras pessoas (isto por mera questão de decência); e Ali, sendo negro, muçulmano e estrangeiro, é malvisto pela maioria da sociedade alemã pós-guerra. Desse modo, é interessante notar que a atmosfera do filme é o reverso das palavras de Emmi (aquelas do início do texto). Assim, se quisermos compreender sua hostilidade, basta que revisitemos os diálogos de Emmi. Se elas expressam amor, são reprimidas; se expressam medo, são ignoradas. Mas mais interessante são os olhares de reprovação dos outros, capturados pelos primorosos close-ups de Fassbinder, que representam o mesmo contraste das palavras. 

Alguns, ao assistirem a este filme nos dias de hoje, talvez o achem inconsistente (seja pelo contexto da época retratado ou pelo estilo classicista de Fassbinder) - mas isto, ao meu ver, é mera questão de gosto. O que temos aqui é a maldade e o preconceito de todas as épocas, honestamente representados; sem tirar nem pôr. Trata-se de uma obra atemporal e, assim, sempre atual. A época retratada acaba sendo mero pano de fundo, pois Fassbinder revela as eternas imperfeições humanas, presente em todas as eras. Nada mais. 

Fassbinder tem o dom de nos convencer e seus diálogos são extremamente sinceros. Em cada palavra há traços de experiências de vida; são incômodas e agradáveis sem nenhum acréscimo de dramatização. Parecem palavras que foram ouvidas no cotidiano do cineasta e postas no roteiro; começam e terminam no momento certo, e a verossimilhança torna-se presente. Há um momento do filme em que damos conta de que existe algo maior do que o amor entre Emmi e Ali: a Solidão. E isto é definido pelo diálogo. "Sou tão feliz por um lado e, pelo outro, não posso suportar", diz Emmi a Ali, em um restaurante à céu aberto cheio de cadeiras amarelas, mas vazias, representando a solidão onipresente. 

Aliás, é importante citar: nos momentos em que Emmi e Ali estão juntos, a câmera não parece filmá-los, mas bisbilhotá-los (na maioria das vezes, elas são postas atrás de algo, como um paparazzo a procura de "fotos quentes"). Ou seja, registram a intimidade, mas prezam a distância. É um recurso que reflete a fofoca, a curiosidade para saber "como aquele casal funciona" - e é isto que parece reger na cabeça de muitos personagens.

Mas não é apenas nos diálogos que Fassbinder nos convence. Já é sabido que cada plano de seus longas é concebido da forma como Michelangelo concebeu a Pietà; são deslumbrantes e extremamente detalhados. Em cada um notamos, com exatidão quase clínica, as etapas de desenvolvimento dos personagens - seja por uma brusca troca de cores numa gravata (notem o figurino de Ali), ou pelo conteúdo de um quadro que enfeita a parede; tudo nesse filme diz algo, e cada plano parece uma pintura. Isto, com uma ponta de maravilhamento, me leva a pensar: "Como Fassbinder nunca foi um pintor?

Assim como em qualquer pintura ou escultura, a perfeição de O Medo Devora a Alma consiste nos pequenos detalhes (na hesitação de uma fala, no triste abaixar da cabeça, ou em um ato impulsivo). Percebam, por exemplo, como Emmi e Ali decidem se casar.

Duas coisas são possíveis quando um autor chega a uma autenticidade quase transcendental: ou um fato ocorrido lhe inspirou para conceber a obra, ou sem dom foi um presente divino. Fassbinder parece ter sido agraciado por ambos. Ele era homossexual e sofreu preconceito, bebeu e fumou em exaustão, e seu amor era fazer filmes. Fez de seu meio a sua voz. 

Consequentemente, ele acabou fazendo o filme como a vida: em um minuto o sofrimento; e no outro, a agonia de esquecê-lo. Muitas cenas demonstram isso (como quando o filho de Emmi chuta a televisão ao saber que sua mãe se casará com Ali; após isto, em resposta ao ato, Emmi senta-se no sofá e chora, digerindo tudo).  

O diretor, inclusive, teve um caso com o ator que interpreta Ali, e este fato entrega ao filme caráter biográfico e denunciador.

A inspiração de Fassbinder para dirigir O Medo Consome a Alma surgiu de um dos filmes de seu mestre Douglas Sirk, um veterano diretor alemão. No início dos anos 70, Fassbinder resolveu assistir a alguns de seus longas, e um deles lhe chamou a atenção. Tudo o que o Céu Permite foi este, e seria preciso aguardar 20 anos para que seu remake surgisse, cujo título figura no início do parágrafo. Basicamente, dois assuntos nas obras de Sirk eram abordados: a repressão e a desesperança. Assim, não foi diferente nas de Fassbinder, o mais prolífico diretor do Novo Cinema Alemão (ainda mais do que Herzog e Wenders, seus colegas). Filmes como As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, O Casamento de Maria Braun e Lola, são facilmente identificáveis por tamanha autenticidade. Mas O Medo Consome a Alma, anterior a estes três, além de identificável, é possuidor de algo maior, mais forte; parece representar o sinônimo de seu diretor. É um grito de apelo da sua alma. 

Ao passar dos anos, Rainer Werner Fassbinder foi tornando-se cada vez mais hermético com seu público. A incompreensão lhe ofuscava, e seu mundo se fechava. Dirigiu seu último filme em 1982 e, no mesmo ano, morreu por overdose aos 36 anos de idade (levando consigo o fim do Cinema Novo Alemão). E ainda que tivesse tido uma curta vida, criou uma vasta filmografia e um primoroso legado para a História do Cinema; e O Medo Consome a Alma virou sua obra-prima. Como forma de desabafo, ele nos trouxe reflexões sobre o desprezo, o preconceito e a solidão. Virou obra essencial para todos nós.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pablo Villaça e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes. 

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