• Leandro A. de Sousa

Crítica | Viva: A Vida é Uma Festa (2018)


Direção & Roteiro

Lee Unkrich

Elenco

Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renée Victor, Ana Ofelia Murguía, Edward James Olmos, Antonio Sol, Alfonso Aráu, Selene Luna, Dyana Ortelli, Herbert Siguenza, Jaime Camil, Sofía Espinosa, Luis Valdez, Polo Rojas, Montse Hernandez, Lombardo Boyar, Octavio Solis, Gabriel Iglesias, Cheech Marin, Carla Medina, Blanca Araceli, Natalia Córdova-Buckley, Salvador "Chava" Reyes e John Ratzenberger

Data de Lançamento

04 de Janeiro de 2018 (Brasil)

22 de Novembro de 2017 (Exterior)

Nome original

Coco

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Contar uma história é simples. Criar personagens é complicado.

Se pegarmos a maioria dos filmes produzidos pela Pixar até o momento, veremos que estamos sempre assistindo quase a mesma história: em Toy Story, Woody e Buzz precisavam voltar para casa a tempo, antes que Andy se mudasse com a sua família para outra casa; em Monstros S.A, James Sullivan e Mike Wazowski precisavam enviar Boo para casa; em Os Incríveis, a Sra. Incrível precisava trazer seu marido, o Sr. Incrível, de volta para casa; os humanos em Wall-E precisavam voltar para a Terra, sua casa. Enfim. Mesma história; personagens diferentes.

Porém, isso não é em nenhum momento demérito para as animações do estúdio. Fórmulas narrativas são comuns e essenciais para o Cinema. A questão é: como você irá desenrolar essa história? Criando uma trama única para cada um de seus filmes. A Pixar faz dos seus filmes inesquecíveis. O estúdio se supera quando cria subtextos e personagens que vão além de seus filmes, para nos ensinar lições, nos divertir e nos emocionar dentro de uma sala escura.

Viva: A Vida é Uma Festa poderia muito bem ser descrito como um drama familiar bobo que tem por fim a intenção de nos mostrar o verdadeiro significado de família. Sim, é claro que esta é a base do filme, tanto que, logo no começo, vemos um pequeno storytelling em bandeirolas que além de nos contar parte da história da família Rivera, já é possível sentir a poderosa máquina que o estúdio em questão possui, com uma animação tão belamente construída, que em apenas 2 minutos de projeção, o filme já enche nossos olhos. Através dessa pequena história narrada pelo nosso protagonista, Miguel (Gonzalez), conhecemos os Rivera, uma família de sapateiros que odeia música; isso devido ao fato de um ancestral deles ter abandonado a sua esposa e filha para viver o seu grande sonho: ser o maior músico de todos os tempos. Aqui temos também a clássica história do membro da família deslocado, já que Miguel é o único de seus familiares que ama música, tendo ela como parte essencial de sua vida. Isso, claro, secretamente. E talvez essa seja a primeira coisa curiosa que Viva nos demonstra: que todo esse ódio pela música consegue separar Miguel do restante de sua família, ao passo em que une todos os outros; isso vem acompanhado da dedicação dos mesmos para com a fabricação de seus sapatos.

Mas uma das forças de Viva não está pousada em sua história, e sim, em seus personagens. Logo, "sinopsá-lo" se torna uma tarefa fácil e redundante. Miguel, por sonhar com a música presente em sua vida, tem uma inspiração. Este, seria um cantor antigo chamado Ernesto de la Cruz (Bratt). Mesmo tendo sua família para impedi-lo que toque e até mesmo ouça música, ele sabe que tem talento e que precisa provar isso, não para si mesmo, mas para todos a sua volta. Isso vem a revelar-nos algo de destaque nesse filme, que o diferencia de todas as outras obras da Pixar: a música. Diferente de sua dona, a Disney, a Pixar não produz musicais. É simples perceber isso, só é pensar na música mais marcante que você já ouviu em um filme da Pixar. Pois é.

Mas é inevitável e seria tolice evitar isso aqui. Então, por mais que não leve o nome, Viva é de certa forma um musical (um belíssimo musical, diga-se de passagem). Com músicas colocadas em momentos pontuais, portanto, tais cenas se tornam orgânicas dentro da trama, deixando a história coerente e fluída. Isso ainda vem acompanhado das belíssimas letras que, mesmo suas adaptações para a dublagem em português, conseguem captar a essência de tais canções ("Lembre de Mim" já é uma da músicas mais lindas do ano).

Uma característica não muito comum que aparece em Viva, certamente é vermos a diversidade étnica e cultural presente na história - isso a começar pelo tema escolhido, o Dia de Los Muertos. Quando Miguel "rouba" o violão de Ernesto e vai parar nesse mundo, a Pixar esbanja mais ainda de seu poder de animação ao demonstrar uma cidade dos mortos, ironicamente, viva, o que até mesmo pode reforçar um dos dilemas morais que o filme tenta trazer à tona. Quando conhecemos Hector (Bernal), vemos nele a típica característica do malandro, que só quer tirar vantagem para conseguir o que quer de Miguel. Isso muda quando descobrimos o que acontece com aqueles que são esquecidos no mundo dos vivos.

O design de cada uma das caveiras é feito com a intenção de sentirmos vida nelas. Isso é reforçado pelos olhos grandes de Hector, que misturam a tristeza de estar sendo esquecido no mundo dos vivos e a alegria incidente que possui, que é acentuado pela chance de ser ajudado por Miguel a visitar sua filha do outro lado. Ao conhecermos Ernesto, aquele que Miguel pensa ser seu Tataravô, fica claro o caráter do homem pelo seu olhar cínico. E por mais que o Plot Twist soe óbvio, ele vem para elucidar novamente a base do filme, que seria a família. A injustiça feita por Ernesto em vida, perseguiu Hector até sua morte; tendo sua filha como a única a se lembrar dele, já que todos os seus predecessores simplesmente resolveram apagá-lo de sua memória e de sua história. Ao assistir isso, a frase "Você só morre quando é esquecido", ecoa em minha mente.

Mas em sua resolução, Viva: A Vida é Uma Festa, demonstra também como somos capazes de mover céus e terras por aqueles que amamos. É simplesmente impossível ficar indiferente com a cena na qual Miguel toca "Lembre de Mim" para a sua bisavó, para que ela lembrasse de seu pai e para que o mantenha vivo - não fisicamente, claro. Tudo isso, também vem a corroborar a pureza de um filme que tem como intenção demonstrar sentimentos talvez fáceis de compreendermos, mas que muitas vezes ficamos tão inertes a eles, que achamos que aquilo que queremos é o melhor para nós.

Os Rivera erram ao tentar banir a música de suas vidas, assim como Miguel errou ao tentar roubar o violão de Ernesto - digo, de Héctor. Mas todos esses erros o levaram a salvar alguém que já estava condenado. Isso, talvez esteja intrínseco em Ler Unkrich, que também dirigiu e escreveu o belíssimo Toy Story 3, onde vemos esses laços familiares presentes no relacionamento dos brinquedos - ah, a cena do lixão...

Viva: A Vida é Uma Festa é divertido, emocionante, visualmente lindo e que nos apresenta uma diretriz um pouco inédita de seu estúdio realizador, além de nos demonstrar lições que de tão simples, acabamos esquecendo. Sim, nem todos têm uma família que ama ou se preocupa com você, como os Rivera. Mas a maioria de nós certamente têm alguém com quem nos preocupamos mais do que com nós mesmos; ou até mesmo um sonho que almejamos tanto que somos capazes de cometer loucuras para realizá-lo. Miguel possuía os dois, e isso tudo veio a demonstrar algo que já se era esperado.

Viva: A Vida é Uma Festa é Cinema em estado puro.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

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