• Matheus P. Oliveira

Crítica | Artista do Desastre (2018)


Direção

James Franco

Roteiro

Scott Neustadter, Michael H. Weber, Greg Sestero e Tom Bissell

Elenco

James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Megan Mullally, Hannibal Buress, Jason Mantzoukas, Paul Scheer, Sharon Stone, Melanie Griffith, Zac Efron, Andrew Santino, June Diane Raphael, Nathan Fielder, Bryan Cranston, Judd Apatow, Zach Braff, J.J. Abrams.

Data de Lançamento

25 de Janeiro de 2018 (Brasil)

8 de Dezembro de 2017 (Exterior)

Nome Original

The Disaster Artist

Nota

⭐⭐⭐⭐

Artista do Desastre não é uma daquelas paródias anárquicas que se perdem em torrenciais de conversas e situações estúpidas, nem é um trabalho alimentado pelo saudosismo de um filme ruim, mas um (hilário e não tão profundo) estudo que explora as motivações por trás da criação da infame obra chamada The Room. O ator-diretor-roteirista da obra em questão chama-se Tommy Wiseau (interpretado aqui por James Franco), objeto principal desse estudo; ele é o artista desastrado do início do texto.

Baseado no best-seller homônimo escrito por Greg Sestero (melhor amigo de Wiseau e responsável por interpretar Mark em The Room), Artista do Desastre, além de paródia, é um filme de bastidores, pois mostra não apenas as minúcias da produção de The Room, mas os momentos da vida de Wiseau e como eles se tornaram elementos narrativos de seu próprio filme (semelhante a uma rica e vasta fonte de inspiração). Sendo assim, a direção de James Franco confirma e respeita estes pontos. Aliás, é brilhantemente conduzida porque existe o reconhecimento das limitações que o material-fonte - o livro - possui (ele é apenas um relato do próprio Greg Sestero de como foi trabalhar junto com Tommy); e de tão convencional que é a narrativa do livro, são impostos, por leis naturais, limites. James Franco os respeita e retira deles estilo e extrema eloquência. Seu filme, ao contrário do livro, torna-se irreverente; e isto, obviamente, é um bom sinal.

Pode-se dizer, então, que Artista do Desastre tem duas e cruciais intenções: a primeira, traçar um paralelo entre a vida pessoal de Tommy Wiseau e a produção de seu filme; a segunda, fazer-nos captar a essência de ambos, que são o modo de pensar do excêntrico Wiseau e a razão de The Room existir.

A sua forma de pensar foi, consequentemente, a força motriz responsável por gerar sua "obra-prima", amada e odiada por muitos; era algo que precisava ocorrer, estava dentro de Tommy tal vontade. Assim, Artista do Desastre, em poucas palavras, é um filme que diz que todos podem realizar seus sonhos e serem reconhecidos; não importa como. Tommy Wiseau é um cara estranho, tanto em personalidade quanto em aparência; ele fora rejeitado pela indústria por causa de ambos. Sua única escolha foi trilhar um caminho alternativo: fazer um filme a seu modo e com seu próprio dinheiro e colhões. E ele o fez (de forma caótica, mas fez). O filme de Franco nos dá a oportunidade de conhecer Tommy e The Room - seu universo ironicamente marcante.

A questão toda se resume na seriedade com que Wiseau levou seu projeto adiante; aliás, não só nisso, mas em como esta seriedade se popularizou e o tornou popular. A mente de Wiseau é recheada de planos com enormes potenciais, mas caóticos em suas respectivas naturezas. Assim também é o seu filme: cheio de planos, mas inseridos numa atmosfera caótica. Dessa forma, foi a dedicação de Wiseau ao fazer The Room que encantou e intrigou James Franco, originando assim o filme Artista do Desastre; e, junto disso, a pergunta: "como um filme tão ruim consegue ser tão assistido e adorado?"

E Artista do Desastre ilumina e enfatiza os caminhos que Tommy Wiseau percorreu. Aliás, é possível notar a sua força de vontade através de sua voz mansa e de seu jeito lânguido; ele é esforçado, mas as rejeições o cansam. E James Franco, que o interpreta, consegue transmitir as suas nuances de forma brilhante. Todos os trejeitos (como a fraca risada, que sempre provoca gargalhadas do público), o sotaque do Leste Europeu (quase impecável) e o estilo peculiar que é reconhecido à quilômetros (os cabelos longos e pretos, óculos escuros e um terno básico), são incorporados de forma tão intensa que, às vezes, parece estar presente em tela o próprio Tommy Wiseau. Definitivamente, James Franco é o melhor sósia deste diretor que é considerado um pária em Hollywood.

Diálogos como "I did not hit her, it's not true! It's bullshit! I did not hit her! I did not!" e "You're tearing me apart, Lisa!", além de serem lidos como um mantra, transformaram The Room numa obra marcante. Possuidor de inúmeras falas memoráveis - quase na mesma onda de Pulp Fiction -, ele ficou conhecido como o "Cidadão Kane dos filmes ruins". Tommy Wiseau, o diretor e roteirista, foi também ator em seu próprio filme. Ele interpretou Johnny, um protagonista trágico, que descobre que sua mulher, Lisa, o trai com o seu melhor amigo, Mark. Nenhuma das atuações ajudam na dramatização; o roteiro, muito menos. As performances, de tão ruins, tornaram-se caricaturas de si próprias; daí o cômico legado desta "obra-prima".

James Franco pôs em seu filme este legado, e Artista do Desastre é deslumbrante justamente por esta atitude de preservar a essência do universo de The Room e a personalidade de Tommy Wiseau, um pária que teve a chance de se redimir. O filme pretende exaltá-lo, e descrever sua jornada é valorizar todos os seus esforços - por mais falhos que tenham sido. Artista do Desastre é, em suma, a homenagem sincera a um diretor que se expressou com sinceridade.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pablo Villaça e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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