• Leandro A. de Sousa

Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome (2018)


Direção

Luca Guadagnino

Roteiro

James Ivory & André Aciman

Elenco

Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, Peter Spears, André Aciman, Elena Bucci, Marco Sgrosso e Xhuliano Ujka.

Data de Lançamento

18 de Janeiro de 2018 (Brasil)

24 de Novembro de 2017 (Exterior)

Nome Original

Call Me By Your Name

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

"Me chame pelo seu nome, que eu o chamo pelo meu"

Ao longo de nossas vidas, vivemos amores tão intensos que é impossível que os superemos, pois eles deixam marcas tão profundas dentro de nós, que nos mudam da noite para o dia; seja pela dor, seja pela alegria. Tais mudanças são graduais, da mesma forma que este romance é, pois um sentimento puro deve ser construído - e leva tempo. Isso se deve ao fato de sermos criaturas falhas, onde estamos sempre dispostos a melhorar pelo outro, ou simplesmente moldar o outro à nossa maneira. Ainda assim, a ilusão faz parte da vida, para que se possa entender melhor o que se passa dentro de cada indivíduo. Claro, é doloroso, mas necessário.

Me Chame Pelo Seu Nome é uma história de paixão (talvez tivéssemos aqui, algo como o "amor à primeira vista", mas é tolice, pois este conceito é tolo). O que Elio (Chalamet) e Oliver (Hammer) têm nasce de uma repulsa pelo sentimento em si, onde há uma tentativa de repreendê-lo em primeira instância, a fim de evitar uma provável decepção. Isso fica mais claro nesse primeiro que, de início, demonstra indiferença em relação a Oliver, como uma forma de fingir que está tudo bem. Já Oliver, seguro de si, não parece importar-se com o que acontece, ignorando a conexão que eles claramente possuem, algo que transcende o próprio tempo e espaço que eles vivem.

E o que de fato move Me Chame Pelo Seu Nome é Elio, que apesar de ser novo, entende muito do mundo onde se encontra, ao passo em que pouco entende dele mesmo - e isso torna ainda mais enfático o elemento de dúvida. Oliver vem a ser uma ponte entre o que Elio pensa ser e o que ele realmente é, e o roteiro do filme faz questão que a aproximação dos dois seja a mais gradual o possível - isso acarreta em uma sensação de lentidão na trama, mas a verdade é que o roteirista não tem pressa para contar essa história, tornando a narrativa fluída. A raiva que Elio sente por Oliver no início, vem do fato deste parecer invadir completamente seu espaço; sentia raiva por não entender o que mudara dentro de si, por não poder encontrar tudo isso em livros ou músicas. E Oliver, além de seguro, pode por vezes soar cínico.

Cínico, pois parece saber, desde o começo, os sentimentos de Elio - o que torna sintomática a cena onde Oliver está jogando Vôlei e sem muita explicação, vem fazer massagem no rapaz, alegando que o mesmo está estressado. Isso não torna de forma alguma Oliver um vilão, mas alguém necessário para a vida do rapaz. As cenas que compõem a amizade de ambos são tão simples, e é justamente essa tal simplicidade que as torna belas. O apego de ambos torna o longa caloroso e sua despedida dolorosa.

Mas antes disso tudo, Oliver constrói algo em Elio, que só pode ser explicado, antes de mais nada, pelas emoções que ele mesmo tenta emular na frente do rapaz, como na cena da festa, quando ele está dançando com outra garota enquanto Elio olha com um semblante um pouco indescritível, ao mesmo tempo que presumimos que ele sente ciúmes do primeiro - e isso fica corroborado, pela mudança de posição do rapaz na cadeira ao ver Oliver beijando tal garota. A partir daí, a performance de Timothée Chalamet toma destaque, já que o rapaz demonstra uma espontaneidade ímpar ao entrar na pista de dança junto aos outros amigos. Algo interessante nessa cena é como ela se sucede, começando a partir daí, uma tentativa tola de Elio escapar disso tudo, pois vemos Marzia (Garrel) e ele indo se banhar em um rio. Nesse momento, Me Chame Pelo Seu Nome, também acentua a sensualidade, uma das características principais de seu enrendo, que é reforçada, quando ambos se relacionam sexualmente. E isso, é óbvio, serve como uma válvula de escape; e é o que traz à tona o comportamento do restante dos personagens, pois o verdadeiro obstáculo entre a paixão de ambos são suas próprias inseguranças. Isso poderia contradizer o fato de eu ter dito que Oliver é seguro de si; e de fato é. Mas não em relação ao que sente pelo garoto, o momento no qual eles vão até uma praia com o pai de Elio, atrás de alguns artefatos, deixa isso claro.

Dito isso tudo, a cena na qual a mãe de Elio lê para ele e o seu pai um poema sobre um cavaleiro apaixonado por uma princesa, o qual não quer falar sobre seus sentimentos, tal elemento narrativo deixa claro o que Oliver realmente pensa sobre o que ele sente por Elio. É revelador, que logo após isso, Elio revele, mesmo que pelas entrelinhas, tudo o que está acontecendo a Oliver.

Me Chame Pelo Seu Nome floresce a partir desse momento. Vemos um romance intenso sendo vivido por duas almas antigas, que certamente já haviam se encontrado anteriormente e pela eternidade amaram-se intensamente. E o processo de destruição de ambos, acontece ao longo desse relacionamento de apenas algumas semanas. Ambos esqueceram que aquele verão teria fim. E quando chegasse ao fim, um dele teria que escolher olhar para trás da janela do trem, ou apenas seguir em frente.

Quando tudo isso acaba, temos um monólogo do pai de Elio, que descreve não só a vida de seu filho, mas a nossa. Somos tão aversos à dor, que pensamos que podemos simplesmente arrancar algo de nós para que não a sentíssemos mais. A cada vez que fazemos isso, nos tornamos pessoas menores, seres incompletos. Elio tinha Oliver e Oliver tinha Elio. Agora, ambos não tinham nada, a não ser pelo que viveram e as lembranças desses momentos, que são tão preciosos que esquecê-los seria um pecado mortal, pois aquilo, dali em diante, resumiria o que os dois eram. Era preciso sentir aquela dor, para que eles não se esquecessem de quem realmente eram.

Me Chame Pelo Seu Nome é um filme puro em tantos meios, pois ele não tem medo em demonstrar o que é a alegria e a dor, e como elas andam lado a lado; nos faz torcer por um final feliz, quando a todo instante sua narrativa nos leva por um caminho incerto - na verdade, nós queremos que seja incerto, pois desejamos que ambos permaneçam juntos no final. Nos apresentando dois personagens diferentes em seus exteriores, mas compatíveis em suas essências. É a história de uma paixão que começa no calor, e termina no frio, e não há lareira no mundo que enxugue as lágrimas de Elio, devido à dor que Oliver promoveu nele, mesmo que tenha sido sem querer.

Agora, Oliver era Oliver. Elio era Elio. Duas almas antigas, fadadas ao eterno desencontro da vida.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

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