• Matheus P. Oliveira

Crítica | Deadpool 2 (2018)


Direção

David Leitch

Roteiro

Ryan Reynolds, Paul Wernick, Rhett Reese, Rob Liefeld e Fabian Nicieza

Elenco

Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy, Stefan Kapičić, Andre Tricoteux, Leslie Uggams, Karan Soni, Shiori Kutsuna, Eddie Marsan, Terry Crews, Lewis Tan, Bill Skarsgård, Rob Delaney, Hayley Sales, Luke Roessler, Robert Maillet, Scott Vickaryous, Tanis Dolman, Islie Hirvonen, Alan Tudyk, Nikolai Witschl, Andréa Vawda, Hunter Dillon e Thayr Harris

Data de Lançamento

17 de Maio de 2018 (Brasil)

18 de Maio de 2018 (Exterior)

Nome Original

Deadpool 2

Nota

⭐⭐

É admirável a construção do humor e das piadas em Deadpool, e a forma como o timing delas é construído entre uma e outra ao serem ditas pelos personagens (afinal, estamos falando de uma obra do gênero de super herói, no qual a presença de timing é raríssima). Suas escalas, de enorme versatilidade, vão de piadas, trocadilhos e referências com significados extremamente internos à diálogos de cunho puramente escatológico. E esses artifícios, apesar de ultrapassarem alguns limites que a própria natureza do personagem impõe, ainda conseguem entregar uma estranha dignidade ao Deadpool. Uma pena, porém, que isso se restrinja apenas ao primeiro filme.

Dito isso, esta sequência, que agora é dirigida por David Leitch (John Wick e Atômica) e escrita por Ryan Reynolds juntos dos roteiristas habituais, se prejudica por seus excessos e pelos elementos que fizeram do primeiro filme uma obra-prima. Desprendido do "formalismo paródico" não tão formal de Deadpool, este segundo filme parte para uma espécie de "paródia anárquica", ignorando qualquer tipo de limitação, jogando assim momentos cômicos às cegas na tela.

Ryan Reynolds, dessa vez, além de encarnar o protagonista, assina parte do roteiro. Tendo em vista este fato, é possível deduzir certas alterações de alguns elementos do roteiro (como ações, rubricas e diálogos) por parte de Reynolds segundo a sua preferência e intimidade com seu personagem. Visando então a familiaridade para com seu personagem, Reynolds parece fazer de seu Wade Wilson (Deadpool) mais um colega engraçadinho da sala de aula do que um mutante cômico que espalha sangue e piadas absurdas (no primeiro, as sequências de comicidade e de ação possuíam um equilíbrio - umas, às vezes, se sobrepunham às outras, sempre equilibradas; neste segundo, porém, nada disso existe). Isso, para alguns, é um benefício ao filme e à caracterização do personagem; já para mim, não é.

Eu sei, eu sei, eu pareço alguém careta escrevendo esse tipo de coisa, como se não achasse graça de nada. Muito pelo contrário, eu rio de muita coisa, acho graça de quase tudo, e ri de inúmeras sequências de Deadpool 2. No entanto, sinto que não deveria ter rido com tanta frequência, pois muitas delas, no fim das contas, nem graça tinham, e as minhas risadas pareciam surgir por mera osmose. Assim, sabendo que é possível e frequente rir de coisas inapropriadas, muitas dessas 'brincadeiras' tornaram-se inapropriadas, não por serem imorais (longe de mim ser um puritano), mas por atrapalharem o ritmo do filme, que consequentemente se tornou quebradiço durante grande parte da projeção. Ou seja, a questão não é a comicidade em si, mas a frequência com que ela aparece (que, diga-se de passagem, é problema alarmante de muitos filmes atuais). Afinal, até o Deadpool precisa de limites.

Vejamos, por exemplo, como foi o início da engenhosa divulgação de Deadpool. Um vídeo, aparentemente vazado na internet, chamado de "trailer teste", tornou-se motivo para levar os fãs do anti-herói à loucura, pois eles queriam saber da veracidade deste vídeo e se realmente teria um filme dele. A Fox, então, posteriormente, confirmou que o vídeo era verdadeiro, e o lançou oficialmente em forma de trailer. O longa, anunciado, seria dirigido pelo prodígio Tim Miller e lançado em 2016, ano no qual o público se impressionaria com a subversão que Deadpool traria ao gênero de super heróis. Sendo assim, o hype para ele se tornou imensurável, assim como o desejo por uma sequência.

E, passados dois longos anos, inevitável foi a expectativa para ela, assim como a decepção (pelo menos para mim), pois Deadpool 2 se afoga com os artifícios que fizeram o primeiro boiar, nadar e chegar à praia.

Sendo assim, quando digo que ele se afoga com os artifícios que beneficiaram o primeiro filme, eu não exagero. Ele se afoga com todos, inclusive com o mais valioso, que é a autodepreciação. Tanto o filme como o personagem, ambos chamados "Deadpool", têm como sobrenome a autodepreciação, pois pretendem, com isso, manter uma certa dignidade e personalidade e, ao mesmo tempo, tornar impossível que nada os rebaixe ao nível que eles já reconhecem pertencer. Só a frase "roteiro preguiçoso", proferida duas vezes pelo próprio Wade Wilson, prova o ato frequente de se autodepreciar. É como um bobo da corte, que insulta ao seu rei e à si próprio com o intuito de provocar e de reafirmar a posição à qual já sabe que pertence. Mas, infelizmente, em Deadpool 2, isso não funciona, e ele realmente se rebaixa e fica nas sombras.

Em suma, consciente da possibilidade de um terceiro Deadpool, as minhas esperanças se renovam, porque nele pode surgir o que faltou em Deadpool 2: tramas mais amarradas, personagens com melhores desenvolvimentos, piadas e trocadilhos com timing e o equilíbrio na abordagem da comicidade. Ao pensar em Deadpool e Deadpool 2, é possível estabelecer uma comparação entre Kingsman: Serviço Secreto e Kingsman: O Círculo Dourado: ambas as sequências, ao carregarem o legado do primeiro filme como um fardo, acabam transformando os moderados elementos do primeiro em algo pomposo, como um upgrade. No entanto, o corpo do longa (Deadpool 2 no caso), por conta desse exagero, se torna inchado, e elementos como a subversão e a autodepreciação já comentados, só lhe torna robusto, mas vazio de conteúdo.

Sendo assim, sabendo que Deadpool 2 não possui nenhuma novidade, para que serve assisti-lo? O primeiro diverte bem mais.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert e Pablo Villaça e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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