• Matheus P. Oliveira

Conhecendo os Primórdios do Cinema (Lumière, Edison, Pathé e Méliès)


Comenta-se bastante a respeito do período em que o Cinema nasceu. Muitos especulam o ano de 1895 como este marco. No entanto, esta data é incorreta, pois antes mesmo da década de 90 (do século retrasado) ele já existia, e diversos estudos acerca dele estavam em desenvolvimento. Dito isso, o ano de maior proximidade à sua concepção é 1888, pois nele, Louis Le Prince, um dos precursores do Cinema, havia dirigido o curta-metragem Roundhay Garden Scene (antes mesmo de famosas figuras que nos vêm em mente), considerado o primeiro filme da história.

Mas atribuir a 1895 como o ano do nascimento do Cinema é absolutamente plausível, afinal, tudo que é lembrado com extrema emoção torna-se marcante - e marcante é a palavra certa para definir o que ocorreu na exibição público e paga dos irmãos Lumière em 28 de Dezembro de 1895. Lá, num café parisiense bastante luxuoso, os filmes A Saída dos Operários da Fábrica Lumière e A Chegada do Trem à Estação foram exibidos e imediatamente aclamados pelo público, eternizando assim a imagem de Auguste e Louis Lumière.

Para se ter ideia, o legado da exibição dos irmãos Lumière se consolidou de forma tão intensa, que ofuscou a dos irmãos Max e Emil Skaladanowsky, ocorrida na Alemanha, quase 2 meses antes.

Mas por trás de todo sucesso há sempre um segredo, e o dos irmãos Lumière era a sua característica inventiva, vinda do próprio sangue. Oriundos de uma família de inventores e fotógrafos, Auguste e Louis criaram o Cinematógrafo, que possuía um mecanismo semelhante a uma máquina de costura: rápida e ágil (característica indispensável ao Cinema, diga-se de passagem). A invenção deu certo, e o Cinematógrafo serviu para fazer os filmes da já comentada exibição em Paris.

No ano seguinte, 1896, ao saber do sucesso dos irmãos Lumière, o inventor Thomas Edison ficou sedento por inovar, pois o lucro e reconhecimento lhe enchiam os olhos. Criou então o Vitascópio, não uma inovação, mas uma mera invenção. Este dispositivo, que para Edison era uma promessa, permaneceu nas sombras do equipamento dos Lumière. Além de funcionar só à base de energia elétrica, o Vitascópio pesava mais de 500 quilos; já o Cinematógrafo, era leve, prático e multifuncional. Assim, August e Louis triunfaram mais uma vez.

Todavia, passados algum tempo, dois nomes franceses surgiram para desbancar o visível monopólio dos irmãos Lumière: o produtor Charles Pathé, com a sua companhia Pathé, e o ilusionista George Méliès, com seus filmes mágicos (Viagem à Lua, de 1902, é um deles). Os dois foram consolidando, com êxito, o notável avanço do Cinema, valorizando cada vez mais a sua linguagem e, acima de tudo, preservando o seu maior artifício: o de contar história (elemento que seria posteriormente instaurado e padronizado por D. W. Griffith e Yevgeni Bauer). Dito isso, os irmãos Lumière ganharam dois concorrentes de peso.

No entanto, com a velocidade que o mundo evolui, esta acirrada concorrência ruiria na véspera da Primeira Guerra Mundial, período no qual George Méliès entraria em falência, e no qual Charles Pathé compraria as patentes dos irmãos Lumière e a produtora de Méliès, a Star Film. Pathé, vendo que estava em vantagem sobre os demais, expandiu seus negócios pelo mundo afora, aproveitando mercados ignorados por outros produtores. E, como efeito disso, sua produtora existe até hoje.

Saindo da Europa e indo para a América, um diretor chamado Enoch J. Rector expandiria o Cinema a um patamar técnico, social e comercial nos Estados Unidos. Seu curta-metragem, The Corbett-Fitzsimmons Fight (1897), se tratava claramente da luta de dois pugilistas, os quais figuram no título. Ao notar a simplicidade do título, o enredo para nós parece algo banal; na época, porém, não era. Nesse período, o potencial do cinema estava sendo descoberto, e a curiosidade das pessoas era a força-motriz desse processo. O filme então foi gravado por Rector, num formato que demoraria décadas para se padronizar: o widescreen. A ideia era boa; e o novo formato, promissor. No entanto, não foi esta inovação que trouxe à luz a importância deste filme, mas o que ele revelou através de suas imagens: tinha-se revelado, em The Corbett-Fitzsimmons Fight, a mudança da situação social do cinema estadunidense. Em outras palavras, segundo o historiador do cinema Terry Ramsaye, o filme trouxe "o ódio do pugilismo para tela em toda a América puritana. Até esse filme aparecer, o status social do filme em tela era incerto. Ele agora se tornou definitivamente popular, um entretenimento da grande comunalidade plebeia."

Na virada do século, as inovações continuavam fervorosas. A Primeira Guerra Mundial, com seu legado, mudaria o mundo e a produção cinematográfica nos Estados Unidos, que se tornaria a força dominante neste mercado. No período em questão, surgiria aos cineastas um estranho artifício, denominado "plano", que modificaria por completo o formato de se fazer filmes: assistir a uma cena e, de repente, assistir a outra completamente diferente por causa de um súbito corte era extremamente esquisito. Muitos diretores explorariam este artifício (e George Méliès seria um deles), mas seria com Edwin S. Porter que os "planos" se consolidariam. Seu filme, O Grande Roubo do Trem (1903), seria seminal, pois abordaria mais profundamente esta técnica.

Em suma, os primórdios do Cinema são para o próprio Cinema sua parte mais importante. A Sétima Arte (assim chamada por Ricciotto Canudo) chegaria ao mundo como uma arte prematura, chamando a atenção de todos que o examinavam. Comentários a seu respeito não lhe faltaram; alguns foram bons, outros foram ruins. Mas de todos os comentários, o mais eloquente e o que mais pareceu capturar a beleza e o mistério daquele primitivo cinema, foi o do crítico Máximo Gorki, após uma projeção em 1896: "Noite passada, estive no Reino das Sombras. Se vocês pudessem imaginar o quão estranho é estar lá... É um mundo desprovido de som e de cor. Tudo nele - a terra, as árvores, as pessoas, a água e o ar - encontra-se mergulhado em um cinza monótono... Não se trata da vida, mas de sua sombra... E tudo isso em meio a um absoluto silêncio, em que não se escuta o rangido das rodas, o ruído dos passos ou da fala. Nem sequer uma nota da intrincada sinfonia que sempre acompanha o movimento dos seres humanos."

Referências Bibliográficas:

- História do Cinema: Dos clássicos mudos ao Cinema Moderno, de Mark Cousins

- História do Cinema Mundial (Org.), de Fernando Mascarello

- Introdução à Teoria do Cinema, de Robert Stam

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert, Pauline Kael e Luiz Carlos Merten e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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