• Matheus P. Oliveira

Dica do Dia | Ensina-Me a Viver (1971)


Ensina-me a Viver mostra um incomum relacionamento entre Harold (Cort), um jovem deprimido de 20 anos, que já tentou suicídio várias vezes, e Maude (Gordon), uma senhora de 80 anos que é apaixonada pela vida e por vivê-la intensamente. Como uma espécie de "harmonia entre água e óleo", os dois compartilham o mesmo hábito inusitado, o de visitar funerais, e, por isso, ironicamente, ao falarem de enterros e de morte, ambos caem em devaneios e em conversas sobre o valor e a beleza da vida; e isto, consequentemente, expõe o melhor de Harold e de Maude através de suas opiniões e de seus pontos de vistas. 

Para muitos, o romance entre Harold e Maude pode ser difícil de engolir, justamente pela diferença da idade entre ambos. No entanto, ao prestar atenção nos fatores que contribuem para a construção deste romance, ele se torna, pelo menos, plausível, pois Harold tem uma vida tediosa e uma mãe insuportável, já tentou se matar incontáveis vezes e não tem amigos; Maude, por outro lado, já idosa e vivida, como todos no crepúsculo da vida, não tem mais o que fazer nem o que perder; o drama de ambos, assim, unem-se, e fazem florescer um delicado romance, que apesar de incomum, é belo e poético. Ensina-me a Viver, apesar de ter um tom satírico, é essencialmente agridoce, pois diz ao espectador, nas entrelinhas, um final já esperado; todavia, isto não o torna previsível. Cercado de pessoas caricatas, fúnebres e "feitas de gesso", Harold (ainda que um pouco tarde) e Maude parecem ser os únicos seres humanos existentes no mundo. Nada no filme é dito, mas sugerido; e ao reparar no que os personagens falam, percebe-se uma série de sentimentos engarrafados e necessidades oprimidas. Harold é um garoto oprimido por sua própria condição e sufocado pelo meio em que vive; Maude é então a sua liberdade personificada. Seu diretor, Hal Ashby, cujo trabalho evoca sensibilidade, possui como ninguém o faro para enxergar o complexo coração humano nos filmes, e como em seus outros trabalhos, o fez em Ensina-Me a Viver; inclusive, seu clima pesaroso reflete o fim pesaroso de sua vida e de sua carreira. 

Ensina-me a Viver (Harold and Maude - Estados Unidos, 1971). Direção: Hal Ashby. Roteiro: Colin Higgins. Elenco: Ruth Gordon, Bud Cort, Vivian Pickles, Cyril Cusack, Charles Tyner, Ellen Geer, Judy Engles, Shari Summers, Eric Christmas, G. Wood e Tom Skerritt. Duração: 91 min.