• Matheus P. Oliveira

Paul Schrader, autor de Taxi Driver, e seu estranho apego por armas de fogo


Paul Schrader é mais conhecido por ter escrito o roteiro de Taxi Driver. No entanto, aos mais chegados à sua história pessoal, ele é conhecido também pelo seu estranho apego por armas de fogo.

Crescido num ambiente ultra opressivo, Paul, junto de seu irmão mais velho, Leonard, foram criados com base nos ensinamentos da severa Igreja Cristã Reformada, seita oriunda do calvinismo holandês. A atmosfera religiosa os sufocava e o maior obstáculo dos irmãos Schrader eram os próprios pais, pois eram bastante rigorosos quanto aos dogmas da igreja (aliás, até para os padrões do calvinismo holandês). Para eles, cinema, televisão e rock'n'roll eram obras do diabo. Dito isso, como uma forma de censura, os irmãos eram proibidos de assistir televisão e de ir ao cinema. E, como consequência disso, Paul viu seu primeiro filme apenas aos 17 anos de idade. Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, foi sua introdução ao cinema, e durante a sessão, de tão culpado que se sentia, começou a ver alucinações, e segundo suas próprias palavras, "vi o Senhor Deus Jeová e exércitos de anjos descendo, e eu ia queimar por toda a eternidade no fogo do inferno porque eu tinha ido à merda do cinema". Antes de se tornar a figura que lhe faria famoso na história do Cinema, Paul Schrader estava estudando para ser pastor na Universidade Calvinista. Todavia, o amor pelo cinema falou mais alto, e no verão de 1966, enquanto fazia alguns cursos de cinema, foi apresentado à crítica Pauline Kael, a heroína que lhe tirou do obscurantismo: além de tê-lo colocado na Faculdade de Cinema da UCLA, lhe conseguiu um trabalho como crítico de cinema da revista Free Press, cargo que perderia após ter destruído Sem Destino, um dos filmes cruciais da Nova Hollywood. Após a demissão, a vida de Paul estava arruinada, pois além de não ter tostão algum, sua namorada, Beverly Walker, o largou. Beberrão de costume, Schrader caiu na bebida e foi diagnosticado com úlcera tempos depois. Na maca do hospital, alucinado e enfermo, teve a ideia de escrever sobre um solitário motorista de táxi que resolve comprar uma arma. O resultado foi o roteiro de Taxi Driver, escrito durante (sofridos) dez dias, no ano de 1972, que posteriormente ainda seria reescrito inúmeras vezes pelo próprio Paul e por seu irmão, Leonard. O "gatilho motivador" da escrita do roteiro de Taxi Driver, no entanto, é um tanto curioso e sinistro. Schrader possuía uma 38 em sua mesa de cabeceira, que fora comprada graças ao incentivo de John Millius (autor da primeira versão do roteiro de Apocalypse Now), um amigo de longa data. Quando começava a escrever, encostava o revólver ao lado do papel. Sempre que suas ideias empacavam, afundava o dedo no gatilho, quase realizando um horrendo suicídio - tática que, estranhamente, trazia ideias criativas à sua mente. Aliás, a esquisita atitude ganha sentido quando se é explanado o histórico da família Schrader por parte de pai. Assim como grande parte de árvore genealógica deles, Leonard e Paul tinham uma obsessão por suicídio. No entanto, ao contrário de tios, tias, primos e primas, os irmãos Schrader não sucumbiram à terrível sina da família. Leonard disse uma vez: "Tínhamos o calvinismo da linha holandesa, que um especialista já me descreveu como uma forma permanente de depressão branda, nos empurrando pouco a pouco na direção do suicídio, e além disso, tínhamos esse segredo que escondíamos de todo mundo: a família do papai vivia explodindo os miolos o tempo todo." De certa maneira, ao saber desses antecedentes, e analisando Travis Bickle, o protagonista de Taxi Driver, podemos facilmente confundi-lo como o alter ego de Paul Schrader - e vice-versa. Em termos simples, os dois têm uma tendência à autodestruição e isso vemos no filme e na vida pessoal e profissional de Paul.

Referência Bibliográfica:

- Como a Geração Sexo, Drogas e Rock 'N' Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind

Sobre o Autor

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert, Pauline Kael e Luiz Carlos Merten e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

Twitter: mathp_oliveira

Instagram: mathp_oliveira