• Leandro de Sousa

Crítica | Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2018)


Direção

Lynne Ramsay

Roteiro

Lynne Ramsay & Jonathan Ames

Elenco

Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alex Manetter, John Doman, Judith Roberts, Alessandro Nivola, Ryan Martin Brown, Jason Babinsky, Frank Pando, Jonathan Wilde e Kate Easton

Data de Lançamento

09 de Agosto de 2018 (Brasil)

27 de Maio de 2017 (Cannes)

Nome Original

You Were Never Really Here

Nota

⭐⭐⭐⭐

Lynne Ramsay é uma artista que tem um senso de humanidade apurado. No seu filme anterior, Precisamos Falar Sobre Kevin, tínhamos uma narrativa inteira disposta sobre Eva, personagem de Tilda Swinton, e sua punição imposta por Kevin, que era viver um sentimento de culpa pelo resto de sua vida. Os motivos que levam a mulher a ser odiada estão ao longo da história e do cenário. Aqui, destaca-se o senso de estilo da diretora, ao implementar elementos que denotam o sangue que Eva carrega nas mãos, com a forte presença do vermelho em certas cenas. Parece absurdo isso, mas se formos pensar, Kevin foi a punição mais leve. A pior foi ter continuado viva.

Em Você Nunca Esteve Realmente Aqui, Lynne repete essa linha de raciocínio e nos apresenta a Joe (Phoenix), um frio assassino de aluguel que fica incumbido de resgatar a filha de um Senador, Nina (Samsonov) que fora sequestrada e agora está presa em uma casa de prostituição sendo abusada. Aqui, novamente, vemos a diretora nos apresentando a história não somente através de flashbacks, mas também usando símbolos. O fato é que pouco importa a trama, tudo aqui serve a um único propósito: Joe (Phoenix).

A montagem de Joe Bini – que também fez a do longa anterior da diretora – nos leva a uma odisseia através da mente de Joe. Somos apresentados a uma infância traumatizante, com um pai abusivo e um garoto assustado que usa um saco em seu armário para se sufocar. A complexidade de Joe fica clara quando descobrimos que aquele garoto não morreu, e seu medo parece ter aumentado. Note como o design de produção elucida isso com a forte presença do amarelo nos cenários, além de uma fotografia nesses tons. Também note quando Joe chega em casa e somos apresentados à sua mãe (Roberts). Nesse momento, uma característica do roteiro em relação à composição do personagem fica clara.

O roteiro parece querer se inspirar em dois personagens em especial para compor as principais característica de Joe, um deles é Norman Bates – penso que o quadro na parede da sala da casa do personagem com um pássaro, foi colocado para ajudar a entender essa ideia - já que Joe tem um apego imenso a sua mãe, e a reciprocidade da mesma para com seu filho traz uma beleza ao filme. Porém, isso denota a falta de objetivos na vida do personagem.

O outro personagem vem à tona quando ele vai atrás de cumprir sua missão, e falha. Aqui vemos a linha Travis Bickle, nesse momento retomamos um raciocínio: Joe é um homem amedrontado pelo seu passado e que não tem mais nada na vida a não ser cumprir sua missão. Ele também carrega uma culpa que desconta naqueles que entram em seu caminho (isso explica o fato de ele usar um martelo ao invés de um revólver, por exemplo) com tanta raiva canalizada em suas missões, falhar em uma é inaceitável, portanto recuperar a filha do Senador, mesmo com esse já assassinado, é uma questão de saúde mental para com ele mesmo.

Mas Lynne parece ter um propósito a partir do momento no qual ela nos apresenta essas características: confrontar, mas de forma clara. Isso acontece quando ele chega na sua casa e sua mãe está morta; quando ele atira em um dos agentes que matou a sua mãe e o deixa agonizando, aquilo é apenas a raiva de Norman sendo exposta; e o fato de logo em seguida ele se deitar ao lado do agente e o mesmo pegar em sua mão, apenas demonstra que aquele garotinho assustado, que se escondia no armário enquanto sua mãe era espancada por um animal em forma de homem, ainda estava vivo, e precisa cumprir sua missão. Mas Norman já havia desistido, e estava disposto a ir embora junto de sua mãe naquele lago, foi Travis que precisou tirar as pedras do bolso e voltar para a superfície.

A imagem que usei para ilustrar a crítica acontece em um momento crucial: ao ponto de cumprir sua missão, Joe se desespera, pois é como se sua vida fosse acabar naquele momento, quando ele cumpre, o roteiro faz questão de destacar uma cena onde o mesmo se dá um tiro dentro de uma lanchonete, e o fato de ninguém gritar ou entrar em pânico, é justamente o que Joe sente: alguém sem propósito, sem perspectiva e amedrontado não faria diferença ou falta ao mundo. Quando aquela garota senta na sua frente e ele diz a ela que eles irão para onde ela quiser ir, já não há mais medo ali, somente cansaço e indiferença. Aquele gole no Milk Shake é Travis indo embora e deixando Betsy para trás.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

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