• Gustavo Barreto

Boku no Hero Academia - Você também pode ser um herói


O MITO DO HERÓI PELAS ERAS Desde o início do que se entende por civilização ocidental, o homem é bombardeado pelo ideário do super herói. Na Grécia antiga, haviam os mitos dos feitos de Hércules, de Jason e os Argonautas, Perseu, Aquiles. Todos eles passavam a mesma mensagem e aparência: a de que o homem em seu potencial físico e mental máximo é capaz de grandes feitos e de salvar quem precisar ser salvo, mesmo que seja apenas uma pessoa.

Uma semelhança entre todos os heróis gregos eram suas capacidades sobre-humanas sempre se sobrepujando ao seu lado mortal. De fato, eles se casavam, tinham filhos, sentiam raiva e alegria, mas seus feitos eram sempre muito maiores do que quem eles realmente eram, pois - e aqui um grande TALVEZ -, seu lado mortal não fosse o importante aqui. A humanidade de Hércules não seria, por exemplo, tão inspiradora quanto seu lado divino, representado em suas habilidades físicas ou em seus doze trabalhos.

As eras passaram, o domínio cultural grego deu espaço ao romano, que passou para o europeu e que depois passou para os Estados Unidos. O conceito do herói mudava então suas roupagens, durante o Império Romano a capacidade divina e fantástica dos heróis deu espaço às suas habilidades de oratória ou estratégias em combate, aonde os lideres político/militares eram tidos como o auge do homem naquela sociedade (Julius Cesar, Marco Antônio).

Na Europa medieval, as lendas do justo Rei Arthur ou dos invencíveis cavaleiros da Távola Redonda formataram o ideal do herói romântico e cavalheiro, disposto a desembainhar a espada para enfrentar qualquer inimigo que ameaçasse sua religião, reino, família ou terras. O ideário de que um homem, para ser considerado como tal, deveria ser capaz de sempre estar pronto para dispor de sua vida pelo bem maior.

Já nas terras nórdicas (Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia), o mito do herói vivia em um equilíbrio permanente entre a realidade e a fantasia. Criaturas como o lobo Fenrir, a cobra Jormund ou os gigantes de Jotunheim se mesclavam à pessoas comuns (mas não desprovidas de grandes feitos). Outro fator importante foi a ascensão protagonista de mulheres nas lendas vikings, fossem filhas de deuses ou apenas guerreiras dispostas a proteger algo ou alguém.

Não é de se estranhar que esse acúmulo de material e ideários desembocaria em algum fator comum em determinado momento do futuro. ACTION COMICS #1 Estados Unidos, 1938. Uma dupla de amigos de Cleveland, Jerry Siegel e Joe Shuster, criou um voltado para o público infantil. Ele vestiria uma longa capa vermelha, teria um “S” estampado no peito, e possuiria uma gama variada de poderes (voar, força, resistência). Sua origem remontaria a história de Moisés, mas passiva de modificações, aonde ele seria um órfão originário de outro planeta que se tornaria o defensor da raça humana.

O Superman pode ser considerado como o herdeiro moderno do ideário de super herói iniciado na Grécia. A começar pelo seu nome que evoca um ideal homérico do quão grande o homem pode ser, passando por sua origem vinda de um mundo além da compreensão dos mortais e chegando em suas habilidades inimagináveis, algo que só poderia ter sido concedido pelos deuses em outros tempos.

Ao mesmo tempo, após sua reformulação pelo editor da DC Comics, Julius Schwartz, optou por reestruturar o ideário do personagem, tornando-o menos intimidador e mais compassivo e próximo dos humanos. A tradição medieval do herói protetor seria adotada para o personagem como uma forma de humanizá-lo, ao passo que sua personalidade civil como o jornalista Clark Kent seria retirada do ideal nórdico do homem comum (fazendeiro, artesão, ferreiro) que para defender seu estilo de vida veste o manto do herói feroz.

Após o Superman, surgiram os mais diversos heróis que se conhecem hoje em dia, assim como a estruturação das editoras de quadrinho. O molde do personagem seria o padrão para todos os heróis que viriam após ele, assim como as versões históricas de heróis pré Superman serviram de construto para o personagem. O sucesso dele, entretanto, como força cultural do século XX, não ficaria contido como referência literária apenas no Ocidente. MY HERO ACADEMIA Em 2014, publicou-se a primeira edição do mangá (revista em quadrinhos japonesa) conhecido como Boku no Hero Academia, ou em inglês My Hero Academia. A história mostra um mundo aonde ter superpoderes, conhecidos ali como individualidades, se tornou algo comum e a profissão de super herói é legalizada. O protagonista se chama Midoriya Izuku, um adolescente que se destaca dos demais por não possuir um poder (uma característica de uma pequena parcela da população).

O sonho do Midoriya é se tornar um super herói, mas, ao saber que ele não terá qualquer poder, ele sente que seu sonho jamais se realizará. Entretanto, sua vida muda ao ser escolhido pelo maior herói do mundo, All Might, para se tornar seu sucessor e herdar seus poderes.

Não é errado de se pensar que Boku no Hero Academia é hoje a história que melhor representa o conceito moderno de ser um super herói. Aquele mesmo ideal forjado na primeira metade do século XX com a criação do Superman, mas ainda assim apagado após sucessivos reboots, releituras e mudanças de conceitos de personagens no decorrer do tempo.

A figura do personagem All Might representa o herói grego/medieval/moderno como figura dotada de grande poder, com uma humanidade ímpar e a divisão de sua figura de herói separada de sua identidade secreta; Midoriya, por outro lado, representa o fã, o garoto que lê as revistas em quadrinho ou acompanha determinada estrela e acompanha os feitos do All Might a distância; ele é basicamente o leitor inserido na história, a criança que lia as primeiras edições do Superman nos anos 30, os indivíduos que se reuniam ao redor de uma fogueira para ouvir sobre as lendas da mitologia.

A história de Kōhei Horikoshi respeita a tradição milenar do ser que possui habilidades acima da dos mortais, mas nunca perde sua humanidade, de que sabe que se perder o controle, pode causar tantas mortes quanto o vilão, então ele se contém. Apanha por isso, sangra, amedronta quem assiste ao confronto fazendo-o esperar o pior.

Mas ele vence. O final dessas histórias é indelével e único, o ser que representa o máximo do ser humano na capacidade física e emocional precisa sempre vencer o inimigo que visa apenas a destruição. Mesmo que ele morra, esse não será o fim, pois seu último suspiro ainda terá um impacto nos personagens que continuarão ativos. Ao mesmo tempo, ela transmuta o mito para os problemas modernos, como a exclusão social, o preconceito, o bullying contra minorias, etc.

All Might representa o herói completo, mas ele não é o protagonista, e sim Izuku. A jornada de um jovem fã sem poderes e vitima de bullying para se tornar um herói completo e humano representa a jornada do herói. Um ser, na idade contemporânea, que preza pela humanidade, que tem a necessidade de salvar alguém não só fisicamente, mas mental e espiritualmente também.

Como foi dito à Midoriya pelo próprio All Might em determinado momento: “ Você também pode ser um herói”. Ou seja, o heroísmo em seu universo ficcional está ao seu alcance, assim como no universo real ele é sempre uma opção para qualquer um, a qualquer hora e em qualquer tempo histórico.