• Matheus P. Oliveira

Crítica | Nasce uma Estrela (2018)


Direção

Bradley Cooper

Roteiro

Eric Roth

Bradley Cooper

Will Fetters

Elenco

Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Alec Baldwin, Marlon Williams, Brandi Carlile, Ron Rifkin, Barry Shabaka Henley, Michael D. Roberts, Michael Harney, Rebecca Field, Willam Belli, Greg Grunberg, D.J. "Shangela" Pierce, Drena De Niro, Eddie Griffin, Jacob Schick, Gabe Fazio, Luenell, Halsey e Bonnie Somerville

Data de Lançamento

11 de Outubro de 2018 (Brasil)

5 de Outubro de 2018 (Exterior)

Nome Original

A Star is Born

Nota

⭐⭐⭐

Nasce uma Estrela é um filme que oscila entre vários "temperamentos", porque inerentes às figuras do diretor e dos roteiristas - os cabeças do projeto; tais traços temperamentais - que são muitos, aliás - podem passar desapercebidos pelo espectador comum e até pelo próprio crítico. Tendo em vista este entrave, são três os traços mais evidentes para todo o público, e aqui os elucido: eis o 1) convencional, que ao se deparar com certos obstáculos narrativos, pretende seguir as convenções destes num sinal de desistência, quase acovardando-se, aderindo enfim à meros padrões e clichês; o 2) diligente, quando percebe que está sendo óbvio, pretende mudar um pouco, fazendo então, aqui e ali, distintos reparos, mudando o "tempero" e "provando novos sabores"; e o 3) excêntrico, que representa a má aplicação desse "tempero", causando efetivamente certa desordem por tentar fugir das convenções, e, por consequência de tal ato, falha nelas por se esforçar, tornando-se então, por definição, excêntrico; daí tais traços, refletidos, quem sabe, no fato de Cooper ser diretor iniciante, tendo aqueles típicos receios quantos aos caminhos a trilhar; e seu longa, por consequência, torna-se possuidor de poucas qualidades e de viciosos defeitos por razão desses receios (defeitos e qualidades um tanto confusos, pois o diretor não sabe exatamente aonde quer chegar, nem o que, do espectador, quer tirar). Mas, apesar das queixas e de seus "temperamentos", Nasce uma Estrela é uma obra de numerosas virtudes, mas mediana por natureza.

Já se sabe que o longa, mais aguardado pela atuação de Lady Gaga do que pela estreia de Bradley Cooper na direção, é virtuoso; mas virtuoso não por razões universais do gênero meio confuso ao qual ele pertence, mas por razões pessoais, bastante específicas, que diz respeito ao trabalho artístico do diretor: Cooper parece fazer não um Musical propriamente dito, mas sim uma espécie de filme "não-musical", com números em que nossos protagonistas cantam músicas que exprimem seus anseios e frustrações, como algo à parte, separado do sistema fílmico; aliás, é descartada qualquer tentativa de rotulá-lo como um Musical se formos compará-lo, por exemplo, à obra de Chazelle, La La Land, que tem a música como órgão indispensável. Ou seja, nessa comparação, se tem a certeza de que Cooper não fez um filme desse gênero (o próprio estilo do título, quando apresentado, remete a um); e esse tipo "não-musical" parecido com Musical, aliás, é o que traz virtuosidade ao público em geral, mas não àqueles mais exigentes: os números cantados pelos protagonistas, coisa lindíssima apenas na superfície, servem na verdade como pura exposição, e portanto são virtuosos na intenção, mas medíocres no efeito e na execução, porque só evocam sentimentalismo. Sendo assim, tudo se encaixa quando encaramos o corpo do filme como um todo e entendemos assim sua essência, e enfim se explica a razão de Lady Gaga ter sido escolhida para o papel da personagem Ally: ela sabe cantar, e muito; agora atuar, nem tanto assim. Explica-se o amadorismo de Cooper, e suas boas intenções; entende-se enfim o motivo de os personagens, até os principais, serem estereotipados, e a limitação dos roteiristas e do diretor em caracterizá-los; daí toda essa mistura de mediocridade e virtuosismo por parte dos que lideram o projeto, pois ora flertam com o artístico, ora flertam com a convenção: os personagens, naturalmente, são os que mais se afetam com tais oscilações e ambiguidades.

Nossos protagonistas chamam-se Ally (Gaga) e Jackson Maine (Cooper), e vivem uma história bastante comum no cinema. Ally é uma jovem cantora que, numa noite de apresentação numa boate, conhece Jackson, um cantor profissionalmente renomado, mas pessoalmente decadente. Numa cena sublime, ainda que contornada por certos elementos convencionais, Ally cria um vínculo com Jackson que parece já ter sido criado noutra vida: ela, ao cantar La Vie en Rose, da célebre Edith Piaf, profere as letras da canção que descrevem a própria situação que ali ocorre; o olhar penetrante de Gaga fita os azuis olhos de Cooper, e logo sabemos o que está rolando; daí, num romance plenamente controlado, uma luz vermelha banha a cena, e indica o óbvio: há, entre eles, paixão certeira e eterna.

É bom, inclusive, que se esclareça que os protagonistas não são puras banalidades; eles têm certa profundidade, mas uma profundidade vista em muitos outros filmes, ou seja, recolhidas de empréstimos; a caracterização deles parecem ter sido criadas não com base em sentimentos humanos, mas de exemplos da estrutura de outros personagens, isto é, não humanos - por isso são estereótipos. Mas nem por isso são banais e rasos, e o caso de Cooper é algo a ser estudado, porque ao mesmo tempo em que seus personagens parecem ser convencionais demais, ele às vezes os transforma em pessoas realíssimas, inserindos-os em verdadeiras cenas poéticas. Mas para explicar esse mistério, essa ambiguidade, é até fácil: Cooper sabe construir atmosferas, e principalmente atmosferas de paixão - e este filme está cheio delas; sua especialidade talvez seja esta, dentro de todo o amadorismo que o cerca. Antes de Ally e Jack se conhecerem, a música que toca na citada boate é At Last, como uma antecipação; tal como se sabe e se nota, essa música é dotada de um lirismo quase indescritível, cheio de sensualidade e paixão não traduzida, e é capaz de deixar qualquer um arrepiado: At last, my love is come along! My lonely days are over! And life is like a song! (Enfim, meu amor chegou, meus dias solitários acabaram, e a vida é como uma canção) - claramente isto é a essência do filme, é a essência dos protagonistas que irão se apaixonar, é, enfim, a tal paixão não traduzida; por isso é Cooper um magistral criador de atmosferas, e esta é uma qualidade sua indiscutível, porque dá para sentir perfeitamente o efeito delas. Aliás, indiscutível também é sua capacidade de criar atmosferas de cunho "profético", no sentido de nos fazer deduzir coisas que acontecerão, com base do que conhecemos de Ally e, principalmente, de Jackson por meio de simbolismos (prestem atenção no início, e vejam vários desenhos de "cordas" no letreiro de um bar). Assim, quando o filme termina, por exemplo, entendemos enfim o aspecto passageiro, evanescente, de Jackson na história: ele está nela para ensinar, não para ficar; quer deixar sua mensagem para o mundo, oriunda do fundo de sua alma; ele também é o tal lirismo indescritível da canção At Last.

Ainda que estereotipado na figura do músico "pé na cova", beberrão e viciado, com profundas decepções, ele é personagem interessantíssimo, pois Cooper lhe dá conteúdo e carisma, características inerentes à sua própria pessoa (Jackson bem podia ser Cooper, ao invés do contrário). Desse modo, graças a este recurso, isto é, à força dedutiva que o simbolismo traz, vem ao espectador tal sensação: Eu estava sentindo que isso aconteceria, não sei explicar o porquê, mas algo me dizia.

No início, foi dito que Nasce uma Estrela possuía vários temperamentos, e que dentre estes, haviam três principais; mas decidi anunciar aqui, no fim do texto, propositalmente, um quarto temperamento, cujo aspecto abarca os demais, e que por isso foi analisado de forma separada: o filme é inconstante, com ritmo afetado (e todos talvez notem isso); há momentos que cansam, pois mostram canções do início ao fim, quase intermináveis, como se estivéssemos num longo clipe (e não somos obrigado a encarar tal sacrifício): de fato, e aqui não serei hipócrita, foi às vezes prazeroso ouvi-las e senti-las; porém, foi, na maioria das vezes, uma tortura por causa das repetições, e numa determinada ocasião, lembrei-me vagamente de um certo High School Musical; a inconstância é caso clínico, e problema de análise interessante. No entanto, é óbvio que as hipérboles encarnadas no crítico, não devem estragar a experiência do comum espectador. É verdade, o filme tem lá seus defeitos (e muitos deles foram elucidados), mas possui também certas qualidades que podem tirar profundos sentimentos do coração de diversas pessoas; é uma obra quase elegíaca. Cooper demonstrou-se ambíguo quando flertou com o convencional e com o original, e é por isso que seu trabalho deve ser tratado como tal, com a ambiguidade devida: não lhe odiando nem lhe amando, mas apreciando suas curiosas incoerências. Em suma, Nasce uma Estrela continua sendo mediano, e quem sabe até medíocre em certos pontos, mas ainda assim eloquente, belo e, talvez, um ótimo programa no fim de semana para aqueles que procuram esquecer de suas vidas monótonas e cinzentas, para então viver outras mais tocantes e encantadoras, preenchidas de pura poesia agridoce.

Sobre o Autor:

Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Estuda Jornalismo e Cinema - este último de forma autodidata. Ainda sonha em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Atualmente tem como inspirações os críticos Roger Ebert, Pauline Kael e Luiz Carlos Merten e, de forma árdua, tenta unificar ao máximo todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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