• Matheus P. Oliveira

Crítica | A Casa Que Jack Construiu (2018)

Atualizado: Mai 22


Direção e Roteiro

Lars von Trier

Elenco

Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough, Jeremy Davies, Jack Mckenzie, Mathias Hjelm, Ed Speleers, Emil Tholstrup, Marijana Jankovic, Carina Skenhede, Robert Jezek, Osy Ikhile, Christian Arnold, Yoo Ji-tae, Johannes Bah Kuhnke, Jerker Fahlström, David Bailie e Robert G. Slade

Data de Lançamento

1 de Novembro de 2018 (Brasil)

14 de Maio de 2018 (Exterior)

Nome Original

The House Thaat Jack Built

Nota

⭐⭐⭐⭐

Expressão é essencial para todo artista e para toda arte, pois sem ela não existe arte nem existe artista. O modo pelo qual o artista se expressa, revela o seu estilo e, consequentemente, a essência de sua obra, que é revelada através do modo como o autor trabalha, isto é, por seu método de estilização, delineado pela expressão. Assim, esta definição diferencia os que obedecem a certa tradição artística dos que a transgridem: estes se diferem daqueles porque não querem apenas se expressar, pois seus desejos vão além disso - eles querem provocar. Aliás, se pensarmos bem, provocar também significa se expressar, e a expressão obedece leis e princípios estéticos que podem ser facilmente desobedecidos. Dessa maneira, o artista com tal proeza terá de arcar com algumas consequências, porque terá de lidar com um público extremamente complexo e de gostos diversificado. Aí então é que se encontra o papel do transgressor, único indivíduo capaz de destruir qualquer barreira estética e linguística, com a pura (e às vezes pretensiosa) intenção de superar as limitações que lhe foram sempre impostas, consciente e inconscientemente, através de teorias artísticas, das convenções e de seus próprios preconceitos a respeito da Arte; enfim, depois de tudo isso, é que se abrirá o caminho para este "infrator" se expressar. E, como em toda arte, no Cinema este "infrator" tem um nome: Lars von Trier. O cineasta dinamarquês, provocador por natureza, conhecido por criar obras quase intragáveis para o público médio, leva a transgressão muito a sério, e a leva desde o início de sua carreira: o Dogma 95 deixou rastros em seu modo de fazer cinema e em sua técnica (o balançar da câmera, os desfoques), e, curiosamente, ela é apenas uma mera ferramenta, um mero detalhe, uma parte do grande todo que é sua intrigante filmografia. No entanto, este detalhe, esta ferramenta, é responsável por acentuar tudo o que achamos "a cara de Lars von Trier", isto é, o que definimos como o seu idiossincrático estilo. Em outras palavras, é o "treme-treme" e o desfoque da sua câmera que dá vida à coisa toda, mas é justamente esta característica que é desprezada por muitos espectadores. Alguns podem discordar, mas creio que Lars von Trier não choca o espectador apenas por chocar, para vê-los revoltados e traumatizados (afinal, após anos de análises de suas obras, em algum momento se descobriria que elas seriam apenas pretensiosas, inúteis, tendo assim nenhum valor artístico para ser analisado e apreciado). Lars von Trier é realmente visceral, é cru em seu modo de se expressar, mas não faz isso à toa. Ele tem um motivo específico para se utilizar dessa abordagem: quer que o espectador reflita sobre como o mundo e a vida são, e os mostra em sua forma pura, bruta. Ele não nos traz a escultura para que a contemplemos em suas curvas já estabelecidas. Não. Em vez disso, nos traz é o bloco de mármore, ainda bruto, e a espátula, para que nós mesmos a esculpamos e depois a contemplemos; põe-nos, basicamente, como criador de uma obra que é sua própria criação - ou, pelo menos, quer nos dar a impressão de que fazemos parte do processo de criação. Seu filme, A Casa Que Jack Construiu, se encaixa neste estranho paradigma. Para Trier, o mundo é algo cruel, que há muito deixou de ser cuidado e vigiado por Deus - e isso vemos em sua filmografia inteira. Para o cineasta, Deus talvez tenha perdido a consciência, ou morrido. Os homens agora cuidam da Terra, e fazem coisas horripilantes com ele e com seus semelhantes. Mas o mundo foi sempre a mesma selvageria, desde os primórdios, e os homens só ficaram mais "polidos". No entanto, dentro desse panorama, ainda existe a Arte, fenômeno libertador, que pode transformar o Homem em algo sagrado ou profano. Trier, em seu filme, opta pelo segundo aspecto, e usa a vida de um serial killer para mostrar a mente de um artista. Ou seja, o homem aqui ainda assim é profano, sádico, o mesmo ser primitivo, com a desculpa porém de que usa todo esse "primitivismo" para criar arte. Lars von Trier, contudo, expande este discurso, não o reduzindo à mera questão do "homem que esconde sua maldade por trás de suas obras artísticas". Ele torna esta questão mais complexa, a leva a um patamar mais amplo, demonstrando que para se produzir arte, é preciso se livrar de qualquer superstição ou conceito pré-estabelecido. É necessário desprender-se de qualquer convenção moral e social, esvaziar-se de qualquer influência exterior. Em suma: o homem deve tornar-se "puro", não no sentido "imaculado", mas no sentido de não ter, dentro do seu ser, características "de fora". Só esquecendo de tudo o que lhe é intrínseco ou do que lhe parece ser intrínseco é que o homem conseguirá produzir arte, a verdadeira arte. Porém, como foi dito, isto trará consequências, pois a sociedade não olhará com esses mesmos olhos. Ou seja, qual é a melhor forma de representar um artista amoral e "puro" senão através de um serial killer, psicopata, que não é imbuído de nenhuma convenção? Não parece haver alegoria melhor. Dessa maneira, o artista, assim como um assassino, se vê à margem da sociedade, não pertencente a ela, porque não é compreendido. A atividade de ambos é vista como algo imoral, pois fere os bons costumes e a moral de uma sociedade convencional. Poucos reconhecem que alguns destes, na verdade, não são possuidores dessa noção de moral, do que é certo ou errado, e que, por isso, são amorais, e não imorais. Há sim, de fato, artistas que negam tudo o que é imaculado e decente, e por isso podem ser classificados como imorais; há outros que tentam desconstruir tudo isso, e não apenas negar as convenções, mas também desmenti-las, revelar que são elas meras construções sociais. Para estes, elas não possuem significado algum, não acreditam que elas têm sentido. Estes, sim, podem ser chamados "amorais", os tais "puros". O serial killer, por outro lado, não tem o senso do que seja ético ou moral, e esse é o modelo de artista que Lars von Trier quer representar em seu filme (por isso a escolha um tanto inusitada). E toda a digressão acima é para mostrar a discussão completa, ainda que sintetizada, que percorre o filme inteiro: até onde o artista pode chegar e o que ele pode explorar para produzir sua arte? Assim, não fica difícil de se compreender A Casa Que Jack Construiu - apenas em seu sentido literal. O problema é que a relação entre seu subtexto (que inclui inúmeros temas, organizados porém para trabalhar ao redor de um tema-mestre) e texto (que revela o protagonista apenas em sua superfície, isto é, como um mero serial killer, desprezível e psicopata) torna complicada a relação e a junção dos temas para aqueles espectadores mais conservadores, não acostumados a ver um serial killer matando, mas não conseguindo ver que ele não está realmente matando, e que tudo não passa de uma metáfora. A parte literal, percebida pelo público geral, é mais "barulhenta" do que a parte metafórica - por isso é difícil de compreender e aceitar toda a alegoria complicada do filme. O teor gráfico é mais gritante. Não querendo reduzir o filme de Lars von Trier em algo explicado por algumas palavras redutoras, mas A Casa Que Jack Construiu parece mostrar a relação entre a arte e o artista, e o que há de destrutivo e construtivo nesta turbulenta relação, com uma fidelidade assombrosa. Jack, o serial killer, e seus assassinatos, são a forma como Trier encontrou de abordar o tema. Pois bem, o filme é dividido por cinco incidentes (ou capítulos) e um epílogo (bem autoindulgente, diga-se de passagem, se o que eu notei for mesmo a mensagem da obra). Cada um desses, como o próprio nome revela, apresenta um punhado de mortes realizadas por Jack. Não se trata necessariamente de uma antologia, pois todos os capítulos têm em comum o tema-mestre: assassinato; e, ao mesmo tempo, todos são abordados de forma diferente, e transformam, paradoxalmente, o filme numa antologia. Mas por que? Porque A Casa Que Jack Construiu não aborda os assassinatos em si. É insinuado que cada assassinato, a forma que cada assassinato é executado, representa, na verdade, a forma como Jack tenta criar suas obras de arte. E vale lembrar, aliás, que Jack é um engenheiro. Só que um engenheiro que não constrói uma casa não é um engenheiro. Que casa é essa então? A "casa", que figura no título, não é uma casa; e Jack não é exatamente um engenheiro. No contexto do filme é conveniente que lhe chamemos "engenheiro". Só que a alegoria universal do filme é que ele é alguém que tem as ferramentas necessárias para criar sua obra-prima, mas que as usa e as potencializa nos locais errados (a cena em que ele finge ser um policial demonstra isso, pois ele se sente humilhado ao ter que passar por aquilo). É tão conveniente, que no fim do filme, apenas no fim, ele consiga abrir a porta com a fita vermelha, porta que significa sua limitação criativa, ponto que ele, até então, antes de descobrir sua verdadeira vocação, não conseguia alcançar. Ele sempre quis ser artista, mas sua mãe sempre achou que o ramo da engenharia fosse mais rentável. O "gênio" de psicopata representa uma certa frustração, a frustração de alguém que não seguiu a verdadeira vocação, mas que agora faz tudo de má vontade, ou faz de boa vontade, mas usa em algo extremamente malicioso. Adentrando, enfim, o cômodo que a porta esconde, lá está a chave para a criação de sua obra, mas a obra, no entanto, não é a casa, é o meio que Jack usará para ser um artista. Uma das sequências mais interessantes desse filme é a sequência que Jack finge ser um policial para entrar na casa de uma senhora (esta sequência revela mais explícita e lucidamente a alegoria do filme). Após matar a tal senhora, ele a limpa e a adentra inúmeras vezes por seu TOC. Jack volta para sua van, para a casa, para sua van, e por aí vai. Isso representa os caprichos do artista para com sua obra: fazemos um esboço, gostamos; olhamos o esboço novamente, e está horrível; consertamos, já sem paciência, e enfim terminamos; olhamos novamente, achamos ruim, e percebemos que ainda não terminamos; e acabamos consertando de novo; e enfim, quando terminamos, seremos avaliados - e nossa obra também; os críticos comentarão a seu respeito. O crítico é o policial que entra na casa, e o medo de Jack é o medo de ter sua obra mal interpretada. O TOC é a mania artística de averiguar inúmeras vezes a mesma coisa e nunca notar a evolução, sempre a imperfeição. As conversas filosóficas entre Jack e Verge, além de darem mais substância ao filme e ao nosso maldito protagonista, tiram a monotonia que o filme estava destinado a ter; algumas conversas e digressões, aliás, ora parecem "masturbação mental", ora parecem trechos de ensaios de livros teóricos, mas funcionam por um motivo convincente, e isto é interessante: trata-se da conversa de Lars von Trier com o seu duplo. Os artistas, naturalmente, tendem a serem pedantes, revoltados, pretensiosos e apaixonados, e A Casa que Jack Construiu representa esse mistureba toda (e muito mais). É, em suma, um manifesto do próprio cineasta, um livro aberto para a mente conturbada de um artista.



Sobre o Autor:


Matheus P. Oliveira, 6 de Agosto de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Amante de Cinema e leitor assíduo. Sonha ingenuamente em conhecer por completo o rico universo que o Cinema possui. Tem como inspiração para seus escritos o legado de grandes pensadores desta área e de outras. De forma árdua, tenta unificar todas as outras artes em sua mais que amada arte: o Cinema. Quanto ao futuro - não muito distante -, ele pretende dirigir e escrever alguns filmes.

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