• Leandro de Sousa

Crítica | Vidro (2019)


Direção e Roteiro

M. Night Shyamalan

Elenco

James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Luke Kirby, Marisa Brown, Ursula Triplett, Brian Donahue, Lory Molino, Raul Torres, M. Night Shyamalan, Rob Yang, Jane Park Smith, Kyli Zion, Adam David Thompson, Shayna Ryan, Diana Silvers, Jessica Heller, Nina Wisner, Aurora Karine, Jon Douglas Rainey, Vincent Riviezzo, Jennifer Butler, Serge Didenko, Sarah Grgic, Andrew Hunsicker e Matt Jacobs

Data de Lançamento

17 de Janeiro de 2019 (Brasil)

18 de Janeiro de 2019 (Exterior)

Nome Original

Glass

Nota

Há dois anos, quando Fragmentado foi lançado, eu ficava me questionando se o que M. Night Shyamalan fez em O Sexto Sentido e Corpo Fechado foi sorte de principiante ou se, num estalar de dedos, ele perdeu o talento. Na época, o diretor e roteirista nos apresentava duas histórias totalmente distintas em gênero, mas ambas se encontravam quando falávamos de qualidade e estrutura. Shyamalan elevou seu nome em Hollywood de forma meteórica - afinal ninguém é alçado a "próximo Spielberg" à toa. Shyamalan tinha noção de complexidade e sabia contar uma história densa como ninguém fazia naquela época; fundava nesses personagens conceitos que atiçava nossa imaginação, principalmente se falamos de Corpo Fechado, um dos melhores filmes de herói já feito na história, pois nos apresentava o mais humano deles, aquele como Peter Parker, que descobrindo seus poderes descobriu grandes responsabilidades - ora, me deixem ser piegas.

Bom, esse era Shyamalan nos anos 2000, não que depois disso ele só tenha feito porcarias, A Vila e Sinais são bons filmes mas não do nível dos citados anteriormente. Parando para pensar, é quase um estudo social tentar entender o que aconteceu com o diretor nos últimos anos, mas pretendo pular essa parte, até para não ter que lembrar de O Último Mestre do Ar e Depois da Terra - já que recordar dessas duas atrocidades é mais nocivo aos neurônios do que 10 baseados fumados ao mesmo tempo. Agora, se falarmos de Fragmentado (2017), que veio como uma promessa de trazer de volta aquele Shyamalan que conhecemos nos anos 2000 (Spoiler: não trouxe), o cineasta ainda demonstra ser muito bom em conceitos, em trazer novas ideias, diria que se ele só falasse suas ideias para um bom roteirista, alguma coisa boa sairia de sua direção. Fragmentado é muito bom em seu conceito, e é agregado pela excelente atuação de McAvoy e Anya Taylor, além de uma direção de fotografia que estabelece bem o conceito da luz das personalidades de McAvoy e do medo de suas vítimas, com seus tons amarelados em sua boa parte. Contudo, é uma pena que a sua conclusão seja uma mer... bobagem total, com uma lição de moral péssima que Shyamalan insiste em empregar em seu novo longa: Vidro.

O primeiro erro de Vidro, vem com a forma como Shyamalan trata alguns de seus personagens, a começar por David (Willis), que em Corpo Fechado era alguém confuso em relação as suas habilidades, e que aqui, 15 anos depois, se torna o Batman de baixo orçamento patrulhando as ruas da cidade atrás de criminosos - não estou dizendo que não faz sentido, mas parece que o personagem perdeu todas as suas nuances, aquilo que o tornava interessante e passou a ser um mero personagem de quadrinhos sem sal que só sabe bater em criminosos para satisfazer uma sede por justiça.

Agora, uma das grandes expectativas de Vidro, era sem dúvida o encontro entre David e Kevin/Srta. Patricia/A Fera. Em Fragmentado, Shyamalan trabalha com a expectativa e consegue nos enganar bem ao longo da projeção, quando vemos que A Fera nada mais é do que McAvoy com veias pulsantes e com uma filosofia barata, nos sentimos desapontados. Aqui, quando há o encontro entre os dois, e a luta que seria o ponto alto, somos interrompidos e Shyamalan começa uma bobagem que deveria durar mais algumas horas antes de nos mostrar o que realmente interessa, com Dra. Ellie (Paulson) como uma personagem-narrador, já que ela precisa estar em tela de 5 em 5 minutos para explicar ao idiota que está assistindo o que vai acontecer na cena seguinte.

Nem de longe sutileza é um dos pontos alto do filme, e se falarmos um pouco mais de Ellie, é hilário como ela está ali simplesmente para tornar os personagens em verdadeiros idiotas, já que ela precisa provar para eles que eles na verdade não são especiais, que é tudo coisa da cabeça bagunçada deles e que existe uma explicação (que o roteiro faz questão de pôr em tela) para cada um dos feitos incríveis deles. Nem mesmo um dos personagens mais incríveis que Shyamalan já fizera escapa dessa bomba em formato de roteiro, pois quando citamos Sr. Vidro (Jackson), falamos de um vilão da Marvel/DC que no final tem um grande plano de destronar o herói expondo-o ao mundo, e para isso ele seduz o outro vilão para ajudá-lo, pois ele já tem o cérebro, agora precisa dos músculos.

Claro, não seria um filme de M. Night Shyamalan sem um grande plot twist, e como o diretor e roteirista não consegue esse feito, ele resolve colocar DOIS plot twists: um tolo e outro óbvio demais - a tentativa de contar um pouco sobre a infância de Kevin é algo que achei interessante, pena que foi pouco explorada, e o fato do pai dele estar no trem que o Sr. Vidro faz descarrilar, aquele no qual David estava no começo de Corpo Fechado, é só uma forma barata de pescar o público doido por uma referência. Além disso, é claro que era necessário haver uma agência secreta nisso tudo, que na verdade queria acabar com esses super-humanos pois não era justo que existissem "Deuses entre os homens". Ao final, nossa personagem narradora cumpre seu papel, com uma das cenas mais rídiculas que eu vi em 2019 (e provavelmente vai se manter sendo até o final do ano): em um plano fechado no rosto de Paulson, Shyamalan faz com que ela leia uma teleprompter para nos explicar o verdadeiro plano do Sr. Vidro, que conseguiu fazer todos de idiotas e revelar ao mundo os super-humanos.

Além do Sr. Vidro, M. Night Shyamalan também cumpre bem esse papel, consegue nos enganar, principalmente quem achou que a volta do diretor de Sexto Sentido estava acontecendo nesses dois últimos longas. Vidro simplesmente não tem função enquanto um filme, quem dirá como o desfecho de uma trilogia. Era possível sair algo interessante disso? Sim, com certeza. Mas eram necessárias as mãos certas. No final das contas, Vidro é uma grande palhaçada que Shyamalan fez para enganar os bobos que quisessem cair nessa. Para mim, só ficou um sentimento quando a tela escureceu e os créditos começaram a subir...

O "novo Spielberg" está morto.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

Instagram: leandro.as

#Glass #Shyamalan #Split #JamesMcAvoy #BruceWillis #SamuelLJackson