• Matheus P. Oliveira

Dica do Dia | Sob o Domínio do Medo (1971)


Sob o Domínio do Medo é, para alguns, uma das mais brutais “alegorias viris” do polêmico Sam Peckinpah; e, para outros, um produto selvagem e veladamente machista. É sobre um homem polido e hesitante que precisa se impor no meio de lobos que, além de diminui-lo, assediam a sua esposa sem qualquer pudor. O filme se passa numa cidadezinha de interior chamada Cornualha, para a qual este homem polido, professor de Matemática, David Summer, junto de sua esposa Amy, acabara de se mudar. Com o intuito de se afastar da vida barulhenta da cidade grande, eles preferiram a quietude do interior.

O filme traz pontos interessantes, a partir de observações que nós mesmos fazemos. Percebe-se que muitos dos cidadãos dessas cidadezinhas tendem a ser meio antipáticos, porque extremamente sinceras e até pragmáticas - elas não mentem quando precisam dizer se gostaram ou odiaram alguém. Tendem, também, a viver a seu próprio modo por um provincianismo patológico que os exclui naquele pedaço de terra como se fosse o único lugar a existir e, por isso, parecem não obedecer a leis, nem códigos de conduta - obediência que seria um pré-requisito em outro lugar. As pessoas de Cornualha são assim, e em cada olhar torto para David (numa entrada de bar, por exemplo, onde só existem homens primitivos, viris, com seus drinks e cigarros, que já lhe olham com desdém por ser engomadinho) e em cada cantada para Amy pensamos o seguinte: como eles entraram neste covil de lobos e como toda esta hostilidade vai se suceder? David vai continuar sendo evasivo e frouxo? Como Amy reagirá a tantos assédios? Todas estas perguntas são respondidas no desenrolar do filme, e Peckinpah desenvolve como ninguém o teor psicológico e selvagem dessa atmosfera opressiva que fede à testosterona, acumulando todos os elementos que nos fazem antecipar os acontecimentos, de modo a fazer uma “explosão dramática” no terceiro ato, com planos rápidos e com a notável atuação de Dustin Hoffman. A premissa é ótima, e atrai; o clímax satisfaz o espectador, justificando a atratividade da premissa. Apesar da perda de tom após o clímax, transformando-se, por alguns minutos, noutra coisa totalmente diferente do que se estabelecera antes, Sob o Domínio do Medo ainda é um dos filmes-chave da década de 70 e certamente um dos mais ambíguos tematicamente.​

Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs - EUA, 1971). Direção: Sam Peckimpah. Roteiro: Gordon Williams, David Zelag Goodman e Sam Peckinpah. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, T. P. McKenna, Del Henney, Jim Norton, Donald Webster, Ken Hutchison, Len Jones, Sally Thomsett, Robert Keegan, Peter Arne, Cherina Schaer, Colin Welland e David Warner. Duração: 118 minutos.