• Gustavo Barreto

Cyberpolska: um passado tumultuado para um futuro incerto


O significado da palavra cyberpunk, de acordo com o dicionário de Cambridge, é: “uma sociedade imaginária controlada por computadores”. Em todas as principais obras do gênero, sejam as de Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin ou William Gibson (esse último considerado o pai gênero com o livro Neuromancer), o futuro é mostrado como um local moralmente nebuloso aonde o conceito de humano se perdeu em meio às centenas de possibilidades de modificação robótica no corpo ou pelo próprio ambiente social em si, geralmente representado como politicamente comandado por grandes empresas privadas que agem de acordo com suas próprias leis.

No meio audiovisual já houveram obras que se prestaram a representar o drama humano no futuro tecnologicamente distópico, variando entre si apenas o modo de execução da narrativa. Em 1982, Blade Runner de Ridley Scott apresentou um mundo superpopuloso e com ruas tomadas pelas propagandas das megacorporações, ao passo que a existência de androides, estes chamados replicantes, gerava um debate sobre classes sociais que ocupavam a base da pirâmide para que os poderosos pudessem se assentar no topo. O anime Ghost in the Shell, de 1995, já foi mais comedido em mostrar sua ambientação, mas muito mais profundo no trabalho psicológico de sua protagonista, uma androide que trabalha em uma unidade contraterrorista e se questiona continuamente sobre o que é ter uma humanidade.

No mundo dos games há também bons exemplos de universos cyberpunks que abordam filosofias e ambientes caóticos. Deus ex, Detroit: Become Human, Snatcher (jogo produzido por Hideo Kojima em 1988) são alguns. Em todos esses exemplos, tecnologia é retratada como uma forma de repressão para alguma classe. Em Detroit, por exemplo, os robôs nascidos da modernidade são convertidos em serviçais por quem tem condições de pagar para ter um, algo que não difere muito da antiga sociedade escravagista que marcou as histórias do Brasil, Estados Unidos, Bélgica e etc.

Porém, o futuro geralmente representado em obras cyberpunk é simbolizado em localidades visualmente opulentas, cidades com imensas telas de propaganda em cada esquina e carros voadores, algo que não tem sido o foco de todos os jogos do gênero até então. A desenvolvedora de jogos polonesa conhecida como CD Projekt Red é atualmente um dos nomes mais conhecidos e respeitados da indústria.

Fundada em 1994, ela se notabilizou por trabalhar inicialmente na tradução de jogos para o polonês e mais adiante pela trilogia de fantasia medieval The Witcher. Seu próximo lançamento será Cyberpunk 2077, um jogo baseado no RPG de mesa Cyberpunk 2020. Segundo os desenvolvedores o game dará total liberdade para os jogadores assumirem a classe que quiserem bem como modelar seu personagem com a orientação sexual e gênero que bem entenderem.

Na microesfera de jogos de RPG essa mecânica é bastante comum. Sagas como Fallout, Elder Scrolls, Mass Effect, Dragon Age, Fable (dentre muitas outras) já oferecem naturalmente a possibilidade de caracterização de sexo e na maioria dos casos de orientação sexual do personagem. No contexto macro essa possibilidade de caracterização representa muito mais no caso da CD Projekt. Algo que todas essas marcas têm em comum é o país de origem das desenvolvedoras, geralmente sendo EUA ou Inglaterra. Ou seja, basicamente democracias liberais cujo alicerces são, historicamente, consolidados o suficiente para permitir manifestações populares, liberdade de pensamento e produzir instituições ou mecanismos para combater atos de racismo e homofobia.

Terra partida

Para a CD, no entanto, o desenvolvimento de Cyberpunk 2077 pode não ser tão celebrado quanto alguns dos títulos mencionados anteriormente foram para seus países. Na história moderna, a Polônia foi um dos países que mais sofreram durante o século XX. Tendo começado como duas regiões divididas durante a Primeira Guerra Mundial, foi apenas em 1915 que, em um acordo conhecido como “manifesto dos dois imperadores”, foi estabelecido o reino da Polônia.

Em 1939 ocorreu a “wojna obronna 1939 roku” (guerra defensiva de 1939), também conhecida como a invasão alemã à Polônia. Apesar de o evento ter representado a primeira ofensiva alemã no pós-tratado de Versalhes e eventualmente o estopim da Segunda Guerra, ele se desenvolveu de anos de rusga entre a parcela alemã que vivia no país e os poloneses. Nos anos 20 mesmo registrando um crescimento econômico importante, que viria a ser abalado pela grande depressão, as reformas de Wladyslaw Grabski (primeiro ministro do país responsável por reorganizar o sistema financeiro) compreendiam um modelo de governo voltado à ideologia de uma única nação.

Estimativas da época determinavam que 16% da sociedade polonesa era composta por ucranianos, 10% por judeus, 6% de bielorrussos e 3% de alemães. As rusgas entre estado e os imigrantes ucranianos gerava atentados terroristas por parte dos primeiros e violentas respostas “pacificadoras” por parte dos segundos. Os judeus eram os principais alvos de ações antissemitas, principalmente por serem relegados a viverem em determinadas localidades ou ocupar certas profissões.

Essa marginalidade do povo judeu tornou-se mais intensa na segunda metade dos anos 30, quando estabelecimentos judaicos foram alvos de boicotes e indivíduos vitimas de agressões físicas. É importante salientar que em 1931 a Polônia possuía uma população de 31 milhões de pessoas, enquanto que a ala judaica compreendia cerca de 3.1 milhões de pessoas desse total, de acordo com a Enciclopédia Britannica.

Ao fim da Segunda Guerra a Polônia se viu mais uma vez sob o controle de forças estrangeiras, quando o país viu a vitória dos partidos comunistas nas eleições parlamentares, conquistando a época 96% dos assentos. Por consequente ficando sob a esfera de influência da União Soviética. Para fins de contextualização, a Polônia foi um dos países mais destruídos ao fim da guerra, cerca de 21.4% da população morreu no conflito, a infraestrutura não mais existia desde 1939 e a população judia estava quase completamente exterminada.

No contexto da Guerra Fria, a economia polonesa sofreu constantes recessões, tendo dependido de constantes empréstimos nos anos 70 para se manter funcional. De acordo com dados publicados no website ColdWarSites, socialmente ocorreram diversos exemplos de brutalidade por parte do estado, seja prendendo pessoas em julgamentos suspeitos ou reprimindo manifestações. Entre 1944 e 1956 mais de 200.000 pessoas passaram por prisões por motivos políticos.

A escassez de alimento durante os anos 50 fomentou o surgimento de movimentos grevistas que reivindicavam melhores condições de vida, destacando-se os protestos em Poznan. Em resposta às forças de segurança do Governo Popular da Polônia, além de unidades militares soviéticas, respondeu mortalmente quando manifestantes tentaram tomar a prisão. Estima-se que houveram de 57 a 100 mortos e de 500 a 600 feridos.

Durante os anos 60 o país viu o retorno de sentimentos antissemitas incentivados pelo governo comunista no contexto da guerra entre Israel e Egito (à época um importante aliado dos russos no Oriente Médio). É considerado como real o número de 20.000 judeus obrigados a fecharem seus negócios e obrigados a emigrar. Em 1980 manifestações em estaleiros em Gdansk forçaram o governo comunista a criar um modelo de união de livre comércio.

Atualmente a economia polonesa passa por um processo de reconstrução após o fim do comunismo. Dados divulgados pelo website Euronews indicam que entre 1992-2019 alcançou um crescimento de 4.2% por ano, cuja causa pode ser atribuída entre um misto de políticas de privatização e de atenção voltadas para as instruções da União Europeia. O mercado consumidor interno também chama a atenção por sua extensão, compreendendo 61% do PIB.

A chamada “nova economia” é tida como importante elemento de sucesso para a recuperação polonesa, também segundo a Euronews. Esse modelo especifica o surgimento de novos mercados voltados para a inovação, que não só geraram mais riqueza para uma nova classe de empreendedores como também geração de emprego de mão de obra especializada. A CD Projekt Red surge como um desses casos de sucesso no ramo dos videogames, quando no período de tempo de três anos gerou uma capitalização de recursos de €5bilhões, além de ter alavancado a indústria gamer no país.

No campo político a Polônia é comandada atualmente pelo presidente Andrzej Duda, do partido de extrema direita Lei e Justiça. Nas eleições de 2015 ele se lançou com uma plataforma eurocética (não achando necessária a permanência na União Europeia) e conservadora, obtendo 53% dos votos. O presidente também coleciona polêmicas, como quando em 2018 ele sancionou uma lei que previa multas e prisões para todos aqueles que utilizassem os termos “campos de concentração poloneses”, gerando críticas principalmente por parte de Israel que julga a medida como revisionismo histórico.

Ainda em 2018, Duda afirmou que uma eventual lei que proibisse “propaganda homossexual” (ou no caso, eventos de conscientização LGBTQ) seria de bom grado para ele. A ministra da educação, Anna Zalewska, à época afirmou que os diretores que decidissem seguir adiante com tais eventos iriam sofrer graves consequências. O governo de Duda é considerado um dos principais exemplos do avanço de partidos de extrema direita na Europa moderna, tendo relações muito próximas com a Hungria de Viktor Orbán e a Turquia de Erdogan.

O futuro

Como em qualquer obra cyberpunk, a Polônia se mostra como um misto de grande potencial com um passado fantasmagórico e um presente complicado. O misto de políticas retaliativas por parte do estado com grande expansão da economia e presença em grupos chave, como a União Europeia e a OTAN, reforçam uma realidade que pode ser perigosa.

Cyberpunk 2077 vem com a promessa de ser um grande jogo e é sem duvida o projeto mais ambicioso feito por uma desenvolvedora de jogos polonesa. Sua história ambientada em um futuro não tão distante gerará comparações com o presente e a presença de personagens transexuais ou homossexuais (tanto criado pelo jogador quanto como NPCs) promete ser um confronto direto não só com o atual governo de Lei e Justiça ou da crescente onda de movimentos de extrema direita, mas também com um passado tumultuado e sangrento.

* Cyberpolska é a tradução em polonês para cyberpolônia.