• Leandro de Sousa

Crítica | It: Capítulo Dois (2019)


Direção

Andy Muschietti

Roteiro

Gary Dauberman Stephen King

Elenco

James McAvoy, Jessica Chastain, Jay Ryan, Bill Hader, Isaiah Mustafa, James Ransone, Andy Bean, Bill Skarsgård, Xavier Dolan, Teach Grant, Jess Weixler, Will Beinbrink, Jaeden Martell, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Ryan Kiera Armstrong, Taylor Frey, Logan Thompson, Kelly Van der Burg, Ari Cohen, Janet Porter, Jake Sim, Javier Botet, Peter Bogdanovich e Stephen King

Data de Lançamento

05 de Setembro de 2019 (Brasil)

06 de Setembro de 2019 (Exterior)

Nome Original 

It: Chapter Two

Nota

⭐⭐

 

Crítica | It: Capítulo Dois (2019)

A versão de TV de It: Uma Obra-Prima do Medo (1990) aos olhos modernos, certamente soará careta, boba e até mesmo divertida, não no sentindo bom da palavra já que se trata de um terror - mas digo isso como alguém que já tem alguns anos que visitou o longa. Algo que lembro relativamente bem é a montagem do filme, que mistura passado e presente de forma clara para que entendamos bem quem são os “Otários”, o grupo de amigos que enfrentou Pennywise pela primeira vez ainda na infância e os terrores que esse monstro fantasiado de palhaço proporcionou àquelas pessoas, agora homens e mulher formados. Porém, como dito no início, apesar de ser uma interessante projeção da forma como o medo é construído a partir de nossas inseguranças na infância e como somos obrigados a amadurecer para superarmos tais medos, It é inevitavelmente um filme datado, portanto para trazê-lo aos tempos atuais, It: Capítulo Dois resolve descrever sua história em um contexto atual, com momentos que nos lembram da sociedade na qual vivemos. O único problema é que esses momentos são breves e desnecessários.

Vinte e sete anos depois, Derry ainda é uma cidade que parece parada no tempo, tanto no âmbito de progresso urbano como social: em sua primeira cena vemos um momento revoltante aonde um casal homoafetivo é hostilizado e espancado por um grupo de jovens. Logo em seguida, um dos rapazes agredido é jogado rio abaixo e então vemos ele sendo “salvo” por uma figura vestida de palhaço. Mike (Mustafa), um dos “Otários” que permaneceu em Derry durantes todos esses anos, resolve convocar os outros membros do grupo, para que os mesmos cumpram a promessa feita no ano de 89, naquele verão que eles jamais esqueceriam (bom, talvez essa última parte não aconteça).

Um dos pontos interessantes na mitologia de It é que a cidade de Derry se torna um personagem a medida que a história se desenvolve. Dessa forma, dá-se a ela características sombrias, como o fato de que pessoas que viveram lá ao saírem da cidade se esquecem quase completamente de suas vidas ali, ao passo que assim que Mike liga para os seus antigos companheiros, tudo o que foi vivido naqueles tempos volta em suas mentes de maneira tão intensa que os pune por terem esquecido de suas promessas, como é demonstrado com Richie (Hader) e Eddie(Ransone). Durante 2h49 acompanhamos o ir e vir em relação a essa promessa, tendo que enfrentar o medo de infância para que ela fosse cumprida, ao mesmo tempo que a vontade de desistir faz com que eles arrumem as malas afim de partir daquele lugar assombroso para nunca mais voltar.

O problema começa quando esses 169 minutos são incapazes de se justificar, com cenas que servem mais para criar sustos momentâneos (jump scare) do que para dar medo ou criar algum tipo de profundidade para qualquer um desses personagens, empregando no longa uma atmosfera que seria mais eficiente caso a preocupação fosse de fato os conflitos daqueles personagens. Nesse ponto, It: Capítulo Dois se torna ainda menos interessante do que seu antecessor, It: A Coisa (2017), pois estamos presenciando adultos em tela e não crianças/adolescentes que ainda estão em um processo de amadurecimento para poder lidar com aquela terrível situação. O que torna tudo ainda mais maçante é a necessidade de uma violência intensa e constante, com cenas que claramente tem a única intenção de embrulhar o estômago ou causar uma breve revolta, como a negligência dos pais de Derry que precisam urgentemente levar uma sacudida de ombros com alguém gritando em suas caras “há corpos de pessoas sumindo e aparecendo desmembradas na cidade! Não tire o olho do seu filho(a) por um segundo sequer!!”. Uma cena que representa bem uma situação dessas é aquela na qual uma garotinha segue um vagalume e acaba nas garras de Pennywise (Skarsgård) – ao assistir o longa pare e pense para o que serve essa cena. 

Mas em seu erro It: Capítulo Dois acerta em pontos como a própria montagem, que nos leva do presente para o passado de forma completamente orgânica, o que torna o processo de passagem entre as duas épocas agradável esteticamente, mas pára por aí, pois optar por uma narrativa de passado-presente em uma continuação, a qual já conhecíamos suas origens, se torna no mínimo uma decisão tola, já que metade do filme seria descartável no processo de edição. Mas novamente, há acertos que tornam algumas dessas cenas perdoáveis, graças ao incrível design de produção do filme, acompanhado de efeitos visuais que cumprem a função de dar sustos – aliás, diria aqui que temos um forte candidato nessas categorias na próxima temporada de premiações – cenas como aquela na qual Beverly (Chainstain) resolve revisitar sua antiga casa atrás de encontrar um MacGuffin qualquer, se tornam aterrorizantes, tornando quase impossível se manter olhando para a tela – mas reforçando, isso não compensa o conjunto. Não bastasse cenas desperdiçadas, personagem como o de Teach Grant, que dá vida a Henry Bowers, torna-se absolutamente descartável no momento em que o roteiro opta por reduzi-lo a um lunático fugitivo do hospício que vez ou outra aparece para dar um susto no espectador, diferente de sua versão jovem no primeiro longa que serve de forma bem mais eficiente como uma ponte de Pennywise para a realidade. Aqui ele só deve aparecer umas 5 vezes e em nenhuma delas há algo posterior que dê a enteder o porquê dele estar nesse filme.

Como era esperado temos uma grande luta no final, novamente em um lugar sujo e escuro igual ao primeiro filme e a versão de 1990, com os personagens no pico de adrenalina xingando e amaldiçoando Pennywise, pois aparentemente isso é uma arma contra o palhaço. E não estou sendo irônico nessa questão, pois descobre-se que basta falar algumas verdades dolorosas ao monstro, alien, onipresente, assassino, impiedoso, implacável, comedor de criancinhas, que ele fica chateado, murcha e se torna uma criatura insignificante e patética, em umas das cenas mais “?” que vi no cinema esse ano. Bom, pelo menos já sabemos que isso é bem mais eficiente do que levar alguma arma de fogo, pois se você vai lutar contra monstros, uma barra de ferro enferrujada e alguns xingamentos são muito mais eficientes do que uma Magnum.44, basta você acreditar.

Apesar disso tudo, McAvoy e Chainstain conseguem brilhar no filme com seus personagens – mas eu ainda não conseguir desassociar a imagem do primeiro àquele filme lá do Shyamalan – trazendo uma forte carga emocional, principalmente a personagem que Chainstain dá vida. Beverly aparentemente não conseguiu se livrar de homens abusivos em sua vida. A primeira cena que ela aparece é, no alto do eufemismo, incomoda, não só pelo ocorrido mas também por soar como uma demonstração gratuita de misoginia, aonde o seu atual marido a agride física e verbalmente, além de ainda haver a sugestão de que aconteceria um estupro. Além disso, se falarmos de outras questões sociais que o filme aborda com relação aos seus personagens principais, ele peca ao falar sobre a sexualidade de Richie sem deixar clara a questão em si, apenas em uma cena aonde Pennywise zomba dele devido a isso; a mera sugestão dá a entender que o roteirista parece não ter interesse em explorar uma questão importante do personagem, apenas colocou ali como um conflito barato ou como um tentativa de ironizar a homofobia por parte do palhaço assassino, em ambos os casos, só serve para estender ainda mais o filme de forma desnecessária.

It: Capítulo Dois é fortemente inferior ao seu antecessor, mas isso se deve ao fato de o longa tentar encaixar duas histórias em uma, como se duvidasse da capacidade do espectador de lembrar do filme de 2017. E diferente deste, esse novo filme perde também ao não ter como explorar os mesmos dramas infantis de seus personagens e mesmo assim tentar fazê-lo. Contudo, o maior erro dos realizadores desse longa é achar que tem criatividade o suficiente para sustentar durante quase 3h em tela um filme. Se a tentativa era ser um Poderoso Chefão, infelizmente ela foi falha e ficou mais para um Transformers.

Parece que Pennywise perdeu a criatividade.

Sobre o Autor:

Leandro A. de Sousa, 18 de Maio de 1998, co-fundador e editor do Fala Objetiva. Ama estudar o Cinema em todos os seus aspectos. Sabe que ainda tem muito o que aprender, tanto no que diz respeito à Sétima Arte quanto à escrita, tendo como principal inspiração nessas áreas o grande Roger Ebert. Aspirante a Crítico e Diretor/Roteirista de filmes de baixo orçamento (perceba como ele tem vontade de passar fome). Ama o que faz, mesmo que ninguém partilhe desse amor.

Twitter: _leandro_sa

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